Ali Land - Menina Boa, Menina Má


Sinopse:
Os corações das crianças pequenas são órgãos delicados. Um começo cruel neste mundo pode moldá-los de maneiras estranhas.

Nome novo. Família nova. Eu. Nova. Em folha.

A mãe de Annie é uma assassina em série. Um dia, Annie a denuncia para a polícia e ela é presa. Mas longe dos olhos não é longe da cabeça. Os segredos de seu passado não a deixam dormir, mesmo Annie fazendo parte agora de uma nova família e atendendo por um novo nome — Milly.

Enquanto um grupo de especialistas prepara Milly para enfrentar a mãe no tribunal, ela precisa confrontar seu passado. E recomeçar. Com certeza, a partir de agora vai poder ser quem quiser... Mas a mãe de Milly é uma assassina em série. E quem sai aos seus não degenera...

Editora Record, 2018

O MUNDO DA PSICOPATIA NUMA VISÃO ADOLESCENTE
O romance psicológico tem um quê de suspense, narrando a vida da adolescente Annie - agora de nome trocado pala Milly - que denuncia sua mãe psicopata, assassina de crianças, passando a morar temporariamente com uma família adotiva: Mike, que é psicólogo e tentará ajudar a jovem em seus traumas, a mãe Saskia e uma "irmã adotiva" também adolescente, Phoebe.


A primeira coisa que incomoda nessa obra, é o uso excessivo de orações coordenadas assindéticas, o que dá uma espécie de bloqueio ou falha na compreensão do todo expresso. E a autora, Ali Land, começa com isso desde o primeiro capítulo:

'Nome novo. Família nova.Eu.Nova.Em folha.'

Além do uso em excesso desse tipo de oração, ela às vezes as inicia em novos parágrafos, como no exemplo acima: De minha parte, considero isso esteticamente desagradável, como se a narrativa fosse toda cheia de pequenos "vácuos", em que nossa leitura é interrompida e o fluxo de ideias, contido.

Praticamente o livro todo é composto desse tipo de oração assindética. São inúmeras as pausas, todas criadas por pontos ou mesmo, novos parágrafos, tornando toda a leitura irritante:

Abro a porta empurrando com as costas. Os braços cheios de pastas.
Eu me viro. Vejo imediatamente.
ENORME. Presa com fita adesiva na frente do meu armário. Minha foto da escola, tirada na semana passada, no meu primeiro dia. Sem jeito e insegura. Feia.

Se usados com parcimônia, tais recursos podem tornar o estilo original e ágil, mas o abuso vai tornar a obra uma coleção de pequenas orações "encalhadas" aqui e ali, que soam mais ou menos como as frases soletradas por alguém com soluços... Infelizmente, é o estilo da autora.

Diante de um defeito tão irritante, a narrativa torna-se sufocante, ainda mais porque é narrada em primeira pessoa: são os pensamentos de Annie (ou melhor, Milly), que vão revelar o mundo e o enredo, e para os leitores que esperam uma narrativa mais densa e abrangente, que apreciam o narrador onipresente - que vai mostrar vários ângulos e cenários diferentes, abrindo um leque de mentes e situações de todos os personagens envolvidos, o estilo de Ali Land é extremamente limitado.


Voltando ao enredo, teríamos aqui três diferenciais:

1 - Uma mulher psicopata (geralmente raras na literatura do suspense e do terror, onde a maioria dos vilões são homens);
2 - Uma adolescente extremamente fragilizada, contando ou melhor, expondo seus temores, seus traumas, de forma muito sutil porque afinal de contas, ela ainda se sente ligada à genitora - que é também sua algoz.
3 - Um psicólogo (Mike) que tentará passar por amigo, pai e analista da adolescente sofredora, que, entretanto, mal consegue gerir a própria família.

Três exemplos de originalidade do tema que foi mal conduzido por um estilo de escrita com excesso de orações curtas, diálogos rápidos e palavras isoladas. Se bem contada, a história seria muito interessante, já que aborda temas como psicopatia, bullying, desestruturação familiar, psicologia, maus tratos a crianças, etc. O que nos faz ler o romance até o final, é o suspense e a pergunta que não quer calar: É Milly uma psicopata, como a mãe? Mas se é, por quê não reage ao bullying praticado -- e de forma intensa e cruel -- pela filha de Mike, Phoebe?


O leitor irá, naturalmente, ficar esperançoso ao perceber que Milly parece "tentar" uma adaptação à nova família, parece ter certo apego a Mike, esperança essa que -- se prestar-se muita atenção às frases acima - desfaz-se. 

Um livro de boa temática, mas escrito com um formato terrível e cansativo. Como eu consegui ler? Bem, tendo o ebook, converti-o em áudio, eliminando alguns parágrafos, sem o que até mesmo para ouvir seria difícil.

Um livro que eu não recomendo, embora o tema do suspense psicológico e a crimes ligados à psicopatologia sejam sempre instigantes. 
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