Alejandra Pizarnik - A Condessa Sangrenta


Ensaio de terror inspirado na vida da condessa húngara Erzsébet Báthory, condenada pelo assassinato de 650 jovens mulheres com requintes de crueldade. Vários dos tormentos aos quais as jovens foram submetidas são descritos no livro. Primeira obra da autora publicada no Brasil. Posfácio de João Silvério Trevisan (autor de Ana em Veneza e Devassos no Paraíso). Belíssimas ilustrações do argentino Santiago Caruso.
Ano: 2011 / Páginas: 60
Idioma: português
Editora: Tordesilhas
UMA BIOGRAFIA POÉTICA, ESCRITA EM VERMELHO-SANGUE


Li esse pequeno livro, com ilustrações belíssimas (e muito perturbadoras) de  Santiago Caruso, em questão de meia hora.

Confesso que a edição da editora Tordesilhas é impecável e muito de acordo com a preocupação estética da poetisa argentina, Alejandra Pizarnik. O trabalho não é biográfico, não se enquadra dentro do gênero novelesco. 

É realmente um ensaio poético, onde é descrita a vida repugnante e mais ou menos mitológica da condessa Elizabeth ou como na grafia do livro,   Erzsébet  Báthory -- nascida na Hungria, em Nyírbátor,  1560 e morta em Csejte, 1614. 

O nome dessa notável e verdadeiro protótipo de bruxa de contos de terror, na língua eslovaca era Alžbeta Bátoriová. Nobre, filha do barão György Báthory e de Anna Báthory, sobrinha do príncipe András da Transilvânia, tinha também parentesco com os Habsburgos da Áustria.


O que surgiu ao longo do tempo - - tanto o que é tido como verdade, como o que foi tratado como exageros e superstições -- com relação a vida sombria e os crimes dessa mulher, serviram de sementeira farta para inspiração de obras góticas e de terror, ao longo do tempo.

Erzsébet  Báthory casou-se em 1575, aos quinze anos de idade, com Ferenc Nádasdy, que era militar.
  
Com as ausências contínuas do marido, em suas campanhas militares contra os turcos ( que nessa época haviam conquistado boa parte do território húngaro), a bela senhora tomava conta do castelo Nadásdy.

Diz a história que seus crimes iniciaram-se por essa época, quando ela -- senhora absoluta, tinha ao seu redor uma entourage de criadas, costureirinhas, cozinheiras, damas de companhia, moças da limpeza. Um mundo de mulheres, a maioria jovens, que despertaram na orgulhosa e vaidosa criatura que, dizem, era obcecada pela beleza e pela juventude, certos desejos sádicos e eróticos.

Se essa criatura era lésbica ou bissexual, os relatos da época, bem como as biografias escritas por autores húngaros e outros (posteriormente), parecem coincidir e indicar que sim. Um erotismo exacerbado pelo sadismo mais puro, sangrento, psicopático. 

O texto de Piznark é um relato curto, mas repleto de uma reberberação vermelho-escura, e sua prosa sombria parece acompanhada de uma música profunda, com soluços de uma flauta ao longe e o ribombar de tambores, acompanhando a trágica e horrenda narrativa. Às vezes sentimos um arrepio, ao ler trechos que nos fazem pensar no Mal -- no Mal Absoluto, aquele que vem das entranhas da Terra, como um sopro de chamas infernais, ao ler trechos como esse:


Salvo algumas interferências barrocas - tais como “a Virgem de ferro”, a morte por água ou a gaiola —, a condessa aderia a um estilo de torturar monotonamente clássico, que se poderia resumir assim:Escolhiam-se várias moças altas, belas e resistentes — sua idade oscilava entre os 12 e os 18 anos — e arrastavam-nas à sala de torturas onde esperava, vestida de branco em seu trono, a condessa. Uma vez maniatadas, as criadas as flagelavam até que a pele do corpo se dilacerasse e as moças se transformassem em chagas tumefatas; aplicavam-lhes os atiçadores em brasa; cortavam-lhes os dedos com tesouras ou guilhotinas; espetavam suas chagas; praticavam-lhes incisões com navalhas (se a condessa se cansava de ouvir gritos, costuravam suas bocas; se alguma jovem se desvanecia rápido demais, ajudavam-na fazendo queimar entre suas pernas papel embebido em óleo). O sangue emanava como um gêiser e o vestido branco da dama noturna tornava-se vermelho. E tanto, que tinha que ir ao seu aposento e trocá-lo por outro (em que pensaria durante essa breve interrupção?). Também as paredes e o teto se tingiam de vermelho.Nem sempre a dama permanecia ociosa enquanto os demais se afanavam e trabalhavam ao redor dela. Às vezes colaborava, e então, com grande ímpeto, arrancava a carne - nos lugares mais sensíveis - mediante pequenas pinças de prata, enfiava agulhas, cortava a pele de entre os dedos, aplicava às plantas dos pés colheres e placas em brasa, fustigava (no curso de uma viagem ordenou que mantivessem de pé uma moça que acabara de morrer e continuou fustigando-a embora estivesse morta); também fez morrer várias com água gelada (um invento de sua feiticeira Darvúlia consistia em submergir uma moça em água fria e deixá-la de molho a noite toda)."
A virgem de ferro, uma espécie de manequim em ferro, que "abraçava" os corpos nus das jovens vítimas e depois as esfaqueava brutalmente, foi o instrumento de tortura preferido de Báthory em seus rituais demoníacos.
Após a morte do marido, em 1604, Báthory foi viver em sua propriedade de Beckov e no solar de Čachtice - onde ocorreram seus maiores e mais tenebrosos crimes. Uma de suas companheiras de crimes foi uma feiticeira, provavelmente uma camponesa com as mesmas inclinações psicopáticas que ela, chamada Anna Darvúlia. Como explica Andrew Lobaczewski, em seu livro "Ponerologia - Psicopatas no Poder", um psicopata parece 'pressentir' o outro. Eles se atraem como 'almas gêmeas'. Assim, a dupla Báthory-Darvúlia foi constante em seus festins macabros, até que a bruxa morreu. Foi logo substituída por outra. 


Enfim, o ensaio poético de Pizarnik é bonito, as ilustrações são belas e o posfácio, que compara a barbárie da psicopata húngara a tantas outras da era moderna: "A condessa sangrenta é um sintoma com ecos na idade moderna, que elevou a tendência assassina à escala coletiva. Basta lembrar as explosões atómicas no Japão e o holocausto nazista, mas também ditadores como Stalin e Pol Pot, que mataram milhões de pessoas."

Um livro curto, mas leitura importante para os que se interessam pelo personagem sangrento e toda a mitologia que dele se originou; sem falar da cultura popular e literária. Aproximadamente duas ou três dezenas de obras, sendo algumas delas tão famosas como "Carmilla", de 1872, escrito por Sheridan Le Fanu e claramente alusivo à Condessa Sangrenta. Livro este que originou o "Drácula", de Stoker, que por sua vez... bem, é uma longa lista.
Boa leitura.

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