Charles Dickens - David Copperfield


Charles Dickens - David Copperfield

Ano: 2014
Páginas: 1312
Idioma: português
Editora: Cosac Naify

SINOPSE:
Um dos pilares da literatura ocidental moderna, Charles Dickens é até hoje fonte de inspiração para muitos escritores. Seu gênio foi admirado por Tolstói, Joyce, Kafka, Henry James, Nabokov, Orwell, Cortázar, entre muitos outros. Semi-autobiográfico, David Copperfield foi publicado em forma de folhetim entre 1849 e 1850. O autor afirma, no prefácio ao livro, que, entre os inúmeros romances que publicou, este era seu filho predileto. A edição inclui textos críticos de Jerome H. Buckley, Sandra Guardini Vasconcelos e Virginia Woolf. Tradução de José Rubens Siqueira.

ANÁLISE
Como começar a falar sobre essa obra, que é uma espécie de monumento à genialidade literária ocidental? Um pouco autobiográfica, escrita por Charles Dickens (1812-1870), - porque será que cada vez que penso em David penso ao mesmo tempo em Charles? E quando vou falar 'Charles Dickens' às vezes quase digo 'David Copperfield'? - a história e as aventuras do jovem Copperfield foram lançadas em 1850. A história passa-se na Inglaterra vitoriana e conta a história do protagonista que dá nome ao livro.

Segundo os críticos, David Copperfield é o livro favorito de Dickens - e lendo-o inteiro, todas as suas mil e poucas páginas, pode-se compreender o porquê disso. À parte algumas críticas, como a de Jorge Luís Borges, que acusa Dickens de criar personagens excessivamente melodramáticos ou "planos" e "sem profundidade" - ou seja, bons sempre bons, maus sempre maus... e segundo Borges, “queria fazer um pouco como o Juízo Final (…), porque os malvados são castigados e os bons sempre recebem prêmios”, esse livro tem um encanto peculiar.

David e Dora, arte de Frank Reynolds -1910

Com o realismo próprio do autor, o realismo que transbordava "de sua própria alma" (segundo Chesterton), os personagens de Dickens não são, de forma alguma, rasos ou 'planos'. São, pelo contrário, profundamente encantadores, emanando de seus caráteres um quê de humorístico e gracioso, mas também de forte, natural e humano. Não se trata de criaturas "melodramáticas" - como sugere Borges -, pois são (com poucas exceções), graciosos e profundamente humanos. 

Vamos pinçar essa cena, do capítulo XLVII - "Martha":
O sr. Peggotty, com uma mão apoiada na amurada do barco e os olhos baixos, cobriu o rosto com a mão livre.
– E quando eu soube o que tinha acontecido com ela antes daquela noite da neve, por alguém da nossa cidade – Martha exclamou –, a pior coisa que me passou pela cabeça foi que as pessoas iam lembrar que ela me ajudou e iam dizer que eu que corrompi ela! Quando Deus sabe que eu era capaz de morrer para devolver o bom nome dela! 
Há muito desacostumada de todo autocontrole, a penetrante agonia de seu remorso e tristeza era terrível. 
– Morrer não teria sido muito… O que eu posso dizer?… Eu teria vivido! – exclamou. – Eu viveria até ficar velha pelas ruas miseráveis, vagando, evitada pelos outros, no escuro, e podia ver o dia aparecer em cima das horríveis fileiras de casas e lembrar como o mesmo sol um dia brilhou dentro do meu quarto e me acordou… Eu faria até isso para salvar ela! 
Afundada nas pedras, ela as agarrou com ambas as mãos e apertou como se fosse moê-las. Estava sempre mudando de posição: enrijecendo os braços, retorcendo-os diante do rosto, como se quisesse apagar dos olhos a pouca luz que havia neles, e baixava a cabeça, como se pesasse com lembranças insuportáveis. 
– O que eu posso fazer? – disse ela, lutando com seu desespero. – Como posso continuar desse jeito, uma praga solitária para mim mesma, uma desonra viva para cada um que chega perto de mim! – De repente, voltou-se para meu companheiro. – Pise em cima de mim, me mate! Quando ela era seu orgulho, o senhor acharia que eu faria mal para ela só de encostar nela na rua. Não deve acreditar – por que acreditaria?–, em nem uma palavra que sai da minha boca. Seria uma tremenda vergonha para o senhor, mesmo agora, se ela trocasse uma palavra comigo. Eu não me queixo. Não digo que ela e eu somos iguais, sei que existe uma imensa diferença entre nós duas. Só digo, com toda a minha culpa e desgraça em cima da minha cabeça, que sou agradecida a ela do fundo do coração, que tenho muito amor por ela. Ah, não pense que toda a capacidade que eu tinha de amar alguma coisa se acabou! Me jogue fora, como todo mundo joga. Me mate por ser quem eu sou e ter conhecido ela um dia, mas não pense isso de mim! [...]  
– Martha – disse o sr. Peggotty. – Deus que me perdoe se eu julgo você. Deus me livre que justo eu faça uma coisa dessas, minha filha! Você não imagina nem metade do quanto que eu mudei com o passar do tempo. Bom! – Parou um momento, e continuou. – Você não imagina o quanto este cavalheiro aqui e eu queremo falar com você. Você não entende o que a gente tem pela frente. Agora, escute! 
Sua influência sobre ela foi completa. Ela se imobilizou, encolhida à frente dele, como se tivesse medo de encontrar seu olhar, mas sua tristeza apaixonada estava calada, muda.
– Se você ouviu – disse o sr. Peggotty – um pouquinho do que a gente conversou, o seu Davy e eu, naquela noite em que nevou tão forte, sabe como eu fui longe e até onde eu fui, procurando minha sobrinha querida. Minha sobrinha querida – ele repetiu com firmeza. – Porque ela agora é mais querida pra mim, Martha, do que nunca foi antes.

Nesse capítulo, nessa cena, há uma vivacidade imensa, tonalizada pelas cores sombrias que Dickens empresta ao cenário decadente da área mais miserável da cidade: onde apenas os mendigos, as mulheres privadas de honra e de tudo o que tem melhor, e os infelizes que nada mais esperam da vida, vão se ocultar. Lá encontram a antiga vizinha da família Peggotty e da pequena Emily, Martha, uma infeliz criatura rechaçada pela sociedade. E que, entretanto, é provida do mais devotado, humilde e carinhoso coração, capaz de qualquer sacrifício para ajudar o Sr. Peggotty e a sua querida filha-sobrinha Emily.

Os personagens de David Copperfield são todos providos dessa profunda emotividade, alguns que nos fazem rir - como o teimoso e eternamente endividado Sr. Micawber. Outros nos fazem desejar que existam na vida real, como a ríspida, severa e ao mesmo tempo, adorável Srta. Betsey Trotwood - tia-avó de David. 



Alguns nos despertam sentimentos de adoração, como Agnes, a delicada e angelical moça, sempre dedicada a ajudar tudo e todos ao seu redor, e a queridíssima babá de David, Peggotty: o protótipo de mulher forte, física e emocionalmente, que não se pesa para fazer qualquer serviço e correr qualquer risco para auxiliar as pessoas que a ela recorrem. Onde, eu pergunto, há excesso de sentimentalismo aqui? Há uma pintura - talvez com pinceladas de bom humor e graça - da realidade. 


Os vilões são igualmente realistas: não posso deixar de lembrar certas personagens da vida real, no cruel padrasto de David, Sr. Edward Murdstone e a irmã dele (uma espécie de carcereira na casa de David), Srta. Murdstone

Vários filmes foram feitos sobre o romance de Dickens, mas um dos que mais me marcaram (na infância), foi "As Aventuras de David Copperfield", Reino Unido,1969.


 Com a direção de Delbert Mann e elenco de Robin Phillips (David), Susan Hampshire (Agnes), Pamela Franklin (Dora Spenlow), Edith Evans (Tia Betsy), Michael Redgrave (Sr. Peggotty), Sinéad Cusack (Emily Peggotty), Laurence Olivier (Sr. Creakle), Ralph Richardson (Sr. Micawber), James Donald (Sr. Murdstone) e mais um punhado de grandes nomes.

Lembro-me de que este filme foi o meu primeiro contato com a obra de Dickens: e daí para frente, empenhei-me em adquirir o livro - este e todos os demais que ele publicou. Naturalmente, aos 13 anos de idade, minha primeira leitura foi uma edição adaptada, da Ediouro, com com pouco mais de 200 páginas. 

Depois adquiri outras edições, embora poucas edições brasileiras sejam fiéis o suficiente ao original. Entretanto dá para se conhecer e amar a obra de Dickens, mesmo com uma edição de bolso (para iniciar um jovem na boa literatura).

No referido filme de 1969, lembro que uma das cenas (que aliás, não está no livro, mas que achei bastante oportuna), é uma das últimas: Agnes conversa com David, sobre todas as vicissitudes pelas quais ele passou em sua vida... desde a infância infeliz - onde perdera sua adorável mãe, Clara, uma flor delicada e de saúde frágil, joguete nas mãos do padrasto - até seu amor infantil pela pequena Emily, seu amor fraternal pelo charmoso e orgulhoso Steerforth, seu casamento com a infantil e linda Dora. E de repente, Agnes - arguta como sempre - faz um paralelo entre as pessoas que, para David, tanto sofrimento haviam causado, para si mesmas, para ele e para seus amigos e famílias. Lembro de Agnes dizendo algo mais ou menos assim:

"- Sim, David... eles eram iguais... eram tolos, inconsequentes, infantis... - Não, você não pode comparar Dora e Steerforth, não eram iguais, de modo algum...- Sim, eram, David! Porque ambos foram fracos. Steerforth, infantil, orgulhoso, inconsequente... Emily, doce e ingênua, mas de caráter fraco... e Dora, infantil... nunca cresceu, a pobre Dora.- E eu, Agnes?- Você é diferente... lembre-se, David, o melhor aço tem que passar pelo fogo. Você passou...".

O que me ficou desse belo filme, foi esse diálogo: De certa forma, está correto - os personagens de Clara (mãe de David) e Dora, tem muito em comum: ambas foram infantis, mimadas, frágeis. Nunca cresceram. Por isso a primeira foi presa fácil dos Murdstones; e a segunda, nunca conseguiu tornar-se uma verdadeira esposa, jamais atingiu a maturidade para isso. Steerforth também se assemelha aos personagens fracos, porque foi mimado pela mãe desde sempre e jamais soube o que era o trabalho tudo. Tudo para ele veio fácil, assim tudo foi-se embora fácil, deixando rastros de lágrimas e dor atrás de si.


Enfim, esse livro de Dickens tem tudo para agradar leitores de todas as classes sociais, etnias, idades e sexos. Uma obra-prima, onde cada detalhe faz parte da imensa escultura literária, onde uma multidão de tipos humanos são retratados com precisão graciosa,  pitoresca e sobretudo, comovente.






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