Vários- Clássicos do Sobrenatural



Editora: Iluminuras
Ano: 2006
Páginas: 254

Sinopse: Contos de diversos autores do século XIX prefaciados, selecionados e traduzidos por Enid Abreu Dobránszky.
Estamos sós. Uma poltrona confortável, um abajur à meia-luz - melhor ainda: luz de vela -, lá fora a noite - de preferência chuvosa. Eis o cenário perfeito para ler histórias do sobrenatural. Daquelas que nos fazem, involuntariamente, desviar da página os olhos e perscrutar os cantos da sala envoltos em sombras suspeitas, momentos dos quais geralmente nos recobramos, tomados de uma súbita vergonha de nossa sensibilidade exacerbada pela imaginação.

UM DESFILE DE GRANDES ESCRITORES E CONTOS SOMBRIOS

Como diz a organizadora dessa belíssima coletânea, a Sra. Enid Dobránszky, foi no século XVIII que começaram a surgir os primeiros romances -- ou tentativas de romances -- do subgênero gótico. Daí para o demais "subgêneros", como a fantasia, o romance de mistério, o policial, suspense médico, etc., foi um pulo. Tudo, porém, começou lá para trás, nos finais do século XVIII e converteu-se em verdadeira febre no século XIX. Alguns fatos contribuiriam para isso, como o surgimento de doutrinas místicas e esotéricas (Teosofia, por exemplo), seitas orientalistas, a busca pelo sobrenatural e espiritual, embora não exatamente religioso, mas nascido mais das novas seitas, das crendices populares e do folclore.
Bram Stoker, que era membro da famosa ordem secreta Golden Dawn (segundo alguns autores, embora isso careça de fontes seguras), foi o nome mais famoso e festejado nessa época. Claro, outros nomes também surgiram, floresceram, murcharam... e renasceram para os séculos XX e XXI, como o do nosso querido H. P. Lovecraft -- querido, digo, por causa da excelente fama que goza no Brasil, onde tem fóruns, sites, grupos em redes sociais, vídeos, podcasts, etc., tudo dedicado a ele. Além de jogos de todos os tipos e HQs.
Nesse livro, a organizadora caprichou na escolha dos autores. Não direi que gostei de todos as histórias, mas tentarei dar um parecer geral de todos, apesar de alguns terem me causado uma impressão meio... confusa, para dizer o mínimo.
Listados em ordem alfabética, estes são os contos:

<> Arthur Conan Doyle - O capitão do Estrela Polar


Um conto que fala sobre as impressões no diário de um estudante de medicina, John Ray, durante seis meses de viagem no baleeiro Estrela Polar. O protagonista é o capitão Nicholas Craigie, o qual irá mostrar sinais de grande descontrole emocional. Há no conto o sabor de maresia, de navios fantasmas, de mistérios náuticos e sereias. O toque sobrenatural está presente, como neste trechinho: "17 de setembro — O Bogie [duende] novamente. Graças a Deus que tenho nervos fortes! A superstição desses pobres rapazes e as explicações circunstanciais que dão, com a maior sinceridade e convicção, repugnariam a quem não estivesse acostumado com seu jeito. Há muitas versões da questão, mas a soma total delas é que algo sinistro adejou pelo navio inteiro durante a noite toda." Um conto interessante, sem os mistérios de Sherlock Holmes, mas com o toque de amores sobrenaturais em torno do capitão e de uma dama-branca (fantasma).

<> Bram Stoker - A casa do juiz


Sem dúvida, o melhor de todos (juntamente com o conto de W. W. Jacobs). Esse conto também está numa coletânea lançada em Portugal, sob o título "Contos Arrepiantes", Guimarães Editores, todos do genial autor de 'Drácula'. É a história de um rapaz que, imprudentemente, decide passar alguns dias numa casa velha, alugada. Fica sabendo que a mesma pertencera a um juiz, homem de maus bofes e grande pendor para cometer injustiças... o estilo fino, cirúrgico, letal, de Stoker é notável neste conto, o melhor de todo o livro.

<> Charles Dickens - O sinaleiro

Charles Dickens, outro grande autor do século XIX não decepciona com suas ghost stories: 'O Sinaleiro' é sim, uma história de fantasmas, típicas da Inglaterra, com o final surpeendente.

<> Charles Dickens - Para ser lido com reservas 

O título desse conto faz jus ao mesmo; li com MUITAS reservas e não apreciei tanto esse conto, que fala sobre a atuação de um fantasma (de um homem assassinado) sobre o resultado de uma demanda judicial. Pouco suspense, narrativa empolada, embromada, onde falta mais concisão e clareza. Notei isso em vários contos, talvez a tradução tenha deixado a desejar.

<> Edith Wharton - Depois


Apesar da falta de concisão que se notam em vários contos (exceto no de Bram Stoker), esse conto de Edith Wharton é muito interessante. "Há um fantasma em Lyng"? "Vocês jamais saberão". Ora, pode um fantasma existir em um lugar, sem que jamais se saiba? Então é simples, ele não existe... Ou existe, porém somente "depois" é que se descobre que tal ou qual pessoa era um fantasma. Um conto com toques de uma fluidez cheia de mistério, onde a eterna suspeita de Mary Boyne com relação ao marido - e ao que ele tinha a ver com seus medos e sobressaltos - dá o tom da história. Excelente enredo. Excelente final.

<>Edith Wharton - Os olhos


Esse conto é exatamente o oposto do anterior. Tive que recomeçar a leitura umas duas ou três vezes, para entender quem era quem, o porquê de tal rapaz estar ali, ou dos tais 'olhos fantasmagóricos' surgirem. Enfim,   a leitura engrenou, detestei o esnobe contador de histórias, Culwin. 
"Gilbert, é claro, desejava festejar sua emancipação de alguma forma espetacular; mas despachei-o sozinho para dar vazão a suas emoções e fui para a cama para dormir até que as minhas se acalmassem. Enquanto me despia, comecei a imaginar qual seria seu sabor logo mais... muitos dos sabores mais refinados não perduram! Mesmo assim, eu não o lamentava e pretendia esvaziar a garrafa, ainda que ela acabasse por se revelar insípida."
 Dá para subentender aí, uma relação homoafetiva entre o velho malandro e seu "protegido". O final é decepcionante, pouco assustador e de um clichê que dá sono.

<> Edward Bulwer-Lytton - Assombrações
Um conto razoável, sobre uma casa assombradíssima, onde ninguém consegue viver. O protagonista lá passa uma noite e vê... terrores indizíveis. Entretanto, apesar da parafernália esotérica que o autor aplica ao tema, os sustos são previsíveis e o desenlace, insosso.

<> H.G. Wells - O quarto vermelho


Outro conto que não tem exatamente um 'mistério' a ser descoberto, um 'problema' a ser resolvido. Um jovem passará a noite em um quarto que, segundo os moradores da velha casa, é assombrado pelo fantasma de um conde ou de uma condessa. H. G. Wells nunca foi meu autor preferido de histórias fantásticas, e esse conto é prova disso: um enredo fraco e clichê.

<> Henry James - Decisão correta
Outro conto que padece de concisão. Tenho certeza que a culpa não é do autor, mas da tradução. O texto não flui, as frases são muito longas, a compreensão e a clareza ficam emboladas entre palavras demais, frases muito longas, contextos cansativos. O tema também não é tão criativo, nem sequer cativante.

<> Joseph Sheridan Le Fanu - Schalken, o pintor


Um conto bom, apesar da complicada tradução. "[...]esse quadro é o registro — e acredito que um registro fiel — de um evento extraordinário e misterioso. Foi pintado por Schalken e o rosto da figura feminina que ocupa o lugar principal da cena, é um retrato exato de Rose Velderkaust, a sobrinha de Gerard Douw, o primeiro e, creio eu, o único amor de Godfrey Schalken. Meu pai conhecia bem o pintor e do próprio Schalken ouviu a história do misterioso drama, do qual o quadro representa uma cena. Esse quadro, que é tido como um belo exemplo do estilo de Schalken...". Nesse conto, o único sobre vampiros no livro todo, há um certo lirismo, que remete a outro trabalho de Le Fanu (traduzido por mim, "Carmilla"). Uma história de amor, um toque de drama, um toque daquele gótico poético que tanto se aprecia nos romances desse tipo.

<> M.R. James - O livro de recortes do cônego Alberic
A história é boa, não tem um fantasma, mas algo talvez mais demoníaco. Numa catedral, na cidadezinha de Saint Bertrand de Comminges, nos Pirineus, há uma catedral. E lá há um famoso livro, onde um tal cônego Alberic juntou recortes de outros livros. Uma das ilustrações trazia alguma marca maligna. O conto é bom, daria um romance longo se o autor quisesse e de grande impacto. Infelizmente é bastante curto.

<> Robert Louis Stevenson - O ladrão de corpos

Esse conto é muito bom, tem um protagonista que é, ao mesmo tempo, o 'mocinho' e o 'bandidinho'. Traz uma boa reflexão sobre os atos inapropriados, o desrespeito com os mortos, o crime, a impunidade e a negligência. É como diz o pensamento de um filósofo (que não recordo o nome): "A indiferença dos bons faz triunfar todos os tipos de maldades". 

<> Rudyard Kipling - Eles
Um conto horrível, absolutamente intragável, confuso, a clareza do estilo é prejudicada por construções de frases insondáveis, incompreensíveis! Sinceramente? Parece que a tradutora se confundiu aqui. Cheguei ao fim sem entender coisa nenhuma. Não percebi nenhum traço de fantasia ou sobrenatural no tal conto.

<> Rudyard Kipling - No fim da passagem
Outro conto totalmente incoerente... Não sei se Kipling tinha esse estilo tosco, emaranhado e incompreensível ou foi culpa da tradução. Esse li pela metade e prefiro não comentar.

<> W.W. Jacobs - A pata do macaco


Um conto fantástico! Não do gênero 'fantasia', mas excelente, extasiante e assombroso. Foi levado à televisão brasileira, se não me engano na década de 1970. Lembro-me de ter assistido, cheia de medo, ao macabro pacto feito entre o casal de idosos e o talismã, a tal pata de macaco. A velha senhora foi interpretada muito bem, pela atriz Nathalia Timberg e  o marido, pelo Mario Lago. O segundo melhor conto da antologia.

Se você tiver interesse por esse livro (não sei se há reedição), achei na Amazon, talvez consiga um exemplar. LINK AQUI.





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