Daphne Du Maurier - A Pousada da Jamaica



UMA POUSADA MAIS DO QUE SUSPEITA...

Daphne du Maurier
Título Original: Jamaica Inn (1936)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 260
Sinopse: 'A Pousada da Jamaica' é uma obra-prima do romance de mistério, que se passa na Cornualha no ano de 1820. Mary Yellan, uma jovem de vinte e três anos, vê-se obrigada, após a morte da mãe, a ir viver com uma tia num local ermo e isolado onde esta, juntamente com o marido, explora a Pousada da Jamaica. Mas Joss Marlyn, o marido da tia Patience, é um homem obscuro e violento, e uma atmosfera ameaçadora e sinistra envolve aquele lugar. Suspense, paixão e aventura numa obra reveladora da capacidade única de Du Maurier para captar o espírito perturbador, quase sobrenatural, dos locais que elege como cenário dos seus romances.


ANALISANDO...
Embora estando um bocado irritada com a saga do plágio de Du Maurier (LEIA AQUI), tive que dar mão à palmatória: a senhora inglesa era uma boa escritora de romances góticos. Ao lado de Catherine Gaskin, Dorothy Daniels (esta só conhecida pelas adoradoras de romances água-com-açúcar), Bram Stoker (inigualável), Sheridan Le Fanu (autor da noveleta que inspirou o "Drácula" de Stoker) e Emily e Charlotte Brontë, tomei gosto pelo estilo sombrio e dramático de Du Maurier e resolvi ler todos os livros dela que, por acaso, eu encontrar pela frente.

Esse livro me veio às mãos através de um sebo e considerei uma raridade (para mim). É uma edição antiga, de Portugal, 1974, mas estava em ótimo estado. Ponto para mim.


A trama está bem abaixo de "Rebecca" e "Minha Prima Raquel", porquanto carece da profundidade, do entrelaçamento perfeito entre suspense, personagens, mistério, conflito e clímax, como ocorreu com os dois livros citados. Mas é um romance curioso, instigante, traz à tona a velha Inglaterra das herdades (fazendas, sítios, chácaras), dos camponeses, dos homens brutais, das famílias conservadoras e das mulheres fortes... e de outras, nem tanto assim.

A jovem Mary tem que morar com uma tia, irmã de sua mãe, após a morte desta. Imagina que sua tia Patience era a mesma moça bonita e alegre que conhecera na infância, e qual não foi sua surpresa ao chegar à tal pousada, que em tudo fazia lembrar a mansão de Whutering Heights -- os ventos úmidos, a casa envelhecida e sombria, os charcos e pântanos em torno, uma neblina desgraçada de tão densa... Entretanto, o drama desse pequeno romance é menos denso que as tais neblinas.

A tia Patience é uma mulher envelhecida, trêmula, fazendo o leitor pensar numa senhorinha pálida e de olheiras fundas, tremendo feito vara verde ao menor berro do maridão. Este, Joss Marlyn, de cara aparece diante de nós como o típico "macho-opressor", de quem as feministas fazem alarde. É enorme, feio, abrutalhado, um verdadeiro Neandertal. A mocinha fica assustada, mas como boa camponesa que era, soube enfrentar a alegria grosseira e as piadas de mau gosto do sujeito com altivez.

Logo a trama toma forma, com um mistério surgindo aos olhos aterrados de Mary. E ela não vai sossegar até descobrir tudo, mesmo que isso lhe custe a própria liberdade. Nada teme, nem Joss com suas tramas malignas, seus comparsas da pior espécie, os pântanos e charnecas tristonhos que cercam a horrorosa morada. E há até um pequeno triângulo amoroso, formado por Mary, Jem Merlyn e Francis Davey, o pastor local.


É um romance de suspense, tal como a maioria dos livros de Du Maurier, mas tem aquele toque de estranheza, sombras densas em cada página, nos fazendo ansiar pela página seguinte -- onde as sombras se dissiparão... mas não acontece. Não é exatamente um livro de terror, mas os apuros que Mary e Patience enfrentarão o tornam quase isso. 

Outro dado importante para a mulherada que gosta de romance-rosa: Sim, tem uma trama romântica, embora eu mesma tenha considerado a protagonista uma doida varrida, uma doida de pedra, uma completa alucinada por ter dado aquele passo e aquela escolha.

Vale a pena a leitura.
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