Carolina Nabuco X Daphne Du Maurier: A SUCESSORA e o plágio REBECCA



A Sucessora
Carolina Nabuco
Ano: 1934 / Páginas: 244
Idioma: português 
Editora: Ediouro

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Rebecca 
Daphne Du Maurier
Ano: 1938 / Páginas: 396


Eu li e reli A SUCESSORA e agora, terminei de ler REBECCA. 

Tornei-me fã da grande Carolina Nabuco quando, ainda adolescente, li uma versão de bolso da Ediouro que eu comprava pelos correios: Era um livrinho pouco maior que a palma de minha mão. Eu assistira a novela global "A Sucessora"(1934), onde Suzanna Vieira interpretava Marina e Rubens de Falco - bonitão, bigodudo, com os faiscantes olhos azuis - era perfeito como Roberto.

Suzanna Vieira e Rubens de Falco em 'A Sucessora'

A novela despertou-me a curiosidade para o livro que a inspirara e eu pus-me à correr atrás do mesmo. Percebo que hoje, tristemente, não existe mais nenhuma nova edição de "A Sucessora", coisa que me deixa muito chateada. O Brasil esquece-se de todos os seus grandes vultos do passado, incluindo tanto personalidades políticas, militares, imperadores, quanto escritores, filósofos e artistas. Um caso flagrante é o do filósofo Mario Ferreira dos Santos -- totalmente esquecido, enquanto nulidades como Jean Willys, Marilena Chauí e aquele médico "entendido em presídios" (o contratado pelo Fantástico), Drauzio Varella, fazem fortuna rabiscando bobagens.

O fato é que Carolina Nabuco escreveu um bocado, embora não tantos romances quanto eu gostaria. Mas os dois que escreveu, "A Sucessora" e "Chama e Cinzas", são belos, sendo que o segundo pode se equiparar ao de qualquer clássico romântico da literatura mundial. E quase NINGUÉM o conhece! Você, leitor, o conhece? Não? Por favor, se não leu, procure-o em sebos ou na biblioteca pública mais próxima. É lindo.
Voltando à história da jovem Marina, que se casa com um milionário (Roberto) e é "assediada" pelo "fantasma" da falecida esposa -- fantasma metafórico -- , o romance da brasileira Carolina é mais singelo que o outro, o que disseram ser "inspirado" nele, da inglesa Daphne Du Maurier, "Rebecca".

É óbvia a cópia da história, com uma ou outra variação, mas pasmem: até dois personagens de Du Maurier, justamente os criados de Menderley, tem os nomes de dois personagens de Carolina: o mordomo Robert (Roberto) e a criada de quarto Alice (Alice, primeira mulher de Roberto). A inglesa também plagiou toda a temática da jovem esposa do viúvo maduro, a história da obsessão de Marina por Alice, a vida transformada da mocinha do interior (no caso de REBECCA, da dama de companhia tímida), o sutil mistério que envolvia o palacete carioca (no caso de REBECCA, a mansão Menderley), etc. 

Fiz questão de ler os dois, um em seguida do outro e comparar. O romance brasileiro -- o que originou o outro, que aliás arrebanhou até duas estatuetas do Oscar, no filme "Rebecca, a mulher inesquecível" -- é muito mais curto, com personagens bem trabalhados, algumas tiradas tragicômicas (com o primo Miguel), descrições bonitinhas do cenário rural onde vivia Marina, do Carnaval carioca nos anos 1930, etc.  Já o outro, embora tenha 'sugado' os principais temas da história (o viúvo aparentemente inconsolável, a mulher morta cuja presença persiste na mansão onde vivera, os parentes do marido, todos 'fascinados' pela lindíssima e charmosa defunta, o grande quadro onde ela está e cuja magia envolve a todos, etc.), é mais longo e envereda, do meio para o fim, para uma trama de suspense e mistério dignos das melhores histórias de detetives.

Por esse motivo, o livro de Carolina passa meio que batido, sendo considerado meramente uma "inspiração" para o outro.
O que ocorreu, então?


Muito bem, Carolina Nabuco escreveu o seu romance e o publicou no Brasil, em 1934. Como quisesse vê-lo publicado também no exterior, entrou em contato com um editor inglês, enviando-o já traduzido para o inglês. O livro foi recusado. Curiosamente, Daphne Du Maurier lançaria o seu "Rebecca" quatro anos depois (1938), pelo mesmíssimo editor que recusara o de Carolina.

Caso idêntico aconteceu com o livro do brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011), "Max e os Felinos" (1981), plagiado pelo escritor canadense Yan Martel no seu "As Aventuras de Pi". Mesmo com cenários, contextos históricos, trama, etc., bastante diversos, é óbvio - ÓBVIO, sim - que foi um plágio. Moacyr Scliar, mesmo com a intenção de referir-se alegoricamente à "ditadura" militar brasileira (o jaguar no bote seria a tal 'ditadura'), foi lesado. Outro brasileiro cuja propriedade intelectual - A IDEIA - foi escandalosamente roubada, transformada em livro, o livro em filme, o filme aclamado mundialmente e... tudo acabou em pizza.

Será que se fosse o contrário, se Carolina Nabuco e Moacyr Scliar tivessem plagiado os estrangeiros, tudo teria acabado em pizza? Óbvio que não.
Moacyr Scliar fala aqui do plágio e de toda a polêmica gerada:


Resumo da ópera: Os brasileiros tiveram as ideias originalíssimas e, graças à "inspiração-cópia", os outros usaram e abusaram das ideias, transformando-as à seu bel-prazer, inserindo aqui e ali outros personagens, polindo uma ou outra ideia, alargando, colocando mais ação sobre a trama, criando suspense, criando mais mistérios, acrescentando mais pimenta, mais tempero, mais... mais de tudo. E transformaram as obras copiadas em bestsellers mundiais. Honesto isso? Claro que NÃO. 

Posso garantir que REBECCA é um livro fantástico. Não o nego. Tem no seu âmago a ideia inteligente que Carolina Nabuco gerou, tem quase os mesmos personagens (Germana, a irmã de Roberto, está presente também em "Rebecca", em Beatrice (irmã de Max) bem como Julia, a governanta mau humorada, que no livro de Du Maurier se transforma na autêntica vilã, Sra. Danvers). Até o baile de Carnaval descrito poética e delicadamente por Carolina está no livro da inglesa, transformado é claro, num baile à fantasia.


Laurence Olivier e Joan Fontaine, em 'Rebecca'

Não nego que REBECCA sugou todas as boas ideias de A SUCESSORA e acrescentou mais, muito mais. É, no fim das contas, mais que o romance psicológico de Carolina: é um verdadeiro romance gótico, ambientando na sombria e altaneira Manderley, mansão gótica encravada na  exótica costa da Cornualha. Além disso, tem um bom suspense, uma protagonista e um mocinho cheios de charme e mistério. O romance de amor também está presente, pois que de início o casamento entre "a narradora" (nunca é citado o nome da moça, tratada apenas como Mrs. De Winter ou segunda Mrs. De Winter) parece frio, apático. Maximilian de Winter, o marido, parece tratá-la com a mesma ternura negligente que dedica aos seus cães favoritos e é sempre com afagos na cabeça da esposa, um beijinho na testa, um toque no braço, etc, que ele revela seu amor. Isso também é um mistério, já que a Esposa julga-o ainda "apaixonado" por Rebecca, a inesquecível... 

Quando ela resolve fazer excurssões pela propriedade e vai até as praias mais distantes, encontra coisas... fareja mistérios... e o desfecho da história é bastante similar aos melhores romances de detetive, com pitadas de terror gótico, tendo a sinistra Sra. Danvers protagonizado a vilã típica.



Entretanto, sempre nos fica aquele travo amargo, mesmo quando vibramos com a boa história. Está certo que tudo mudou no final da trama, tendo o livro de Carolina ficado meio como que "insosso" se for comparado ao seu plágio. 


Mas é nosso patrimônio cultural e tem sua graça, sua beleza típica no estilo narrativo, uma nostalgia envolvente quando fala do delicioso Brasil de outrora, suave, ora refinado entre os ricaços, ora puro encanto agreste, ao descrever a fazenda da família de Marina:

O administrador seguiu-o, mais devagar, subindo a pequena inclinação do alto da qual a casa dominava o vale todo, larga e nobre na sua simplicidade de quadrângulo, tão vasta que uma boa metade nunca se abria, e cercada das dependências, das construções decadentes vin­das dos tempos prósperos da escravidão; de um lado o terreiro de tijolo onde secavam o açúcar e o café; a pequena enfermaria; as oficinas de car­pinteiro e de ferreiro; ao meio do declive, as cachoeiras, ao fundo, a rua da senzala com a pro­miscuidade dos casebres onde outrora os escra­vos viviam; e descendo a inclinação, de um lado o engenho moedor, e de outro a torre da capela surgindo humildemente no meio das manguei­ras velhas que davam sombra ao cemitério e dos eucaliptos que o demarcavam. Ao longe, o rio, que, antigamente, nos tempos prósperos, antes da Abolição, conduzia o café até o porto e que hoje, sem utilidade, sem trato, com o leito entu­pido, se perdia nos charcos da baixada.
O sol sumia-se com pompa atrás dos morros. Passou um preto velho, manquejando, em busca da capela, para ir tocar o Angelus. Lançou a Marina a saudação da tarde: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”
Ela respondeu: “Para sempre seja louvado.”

E neste trecho, onde Adélia, prima de Marina, comenta sobre a beleza de Alice, a inesquecível:
Na vida de todo dia, a intimidade de Alice se desvendava por uma série de pequenos indícios, reveladores de traços novos a acrescer ao muito que Marina já sabia dos seus hábitos e do seu caráter.A primeira vez que viu a letra de Alice, na folha de rosto de um livro, tivera a percepção, pela altura dos traços e o tamanho das maiús­culas, de um grande orgulho, traço que Marina odiava. Mais tarde encontrou a confirmação dele numas palavras que Alice escrevera, por ócio, através da folha de cima de um bloco de papel de carta: “O orgulho é meu pecado e a lealdade minha virtude.”Descobriu também, gravada no mesmo pa­pel de correspondência, em prata sobre cinza, a divisa de Alice, irmã da sua: Fidelis usque ad mortem... Por fragmentos de conversa que ou­vira citar familiarizara-se com algumas ex­pressões prediletas de Alice e essas, inconscien­temente, iam-se introduzindo no próprio voca­bulário. Sem o saber, imitava Alice, como Laurita, Adélia e outras a haviam imitado em vida. A grande sedução de Alice, que Marina sen­tira primeiro por intermédio de Adélia, conti­nuava a exercer-se, mesmo através da estranha inimizade. Envolvia-a agora de todos os lados como um aroma irresistível. O prestígio exer­cido sobre sua meninice não fizera senão crescer com a familiaridade nova, com a avaliação do amor que Alice soubera inspirar a Roberto e da mestria com que ela se desempenhara dos deve­res que agora cabiam a ela, Marina. Não encon­trara ainda uma só voz divergente, no coro de elogios.Uma vez Marina perguntou a Adélia, mos­trando o retrato:— Você ainda conserva a mesma admira­ção por ela?— Por quem? Por Madame Steen? Con­servo. Acredito que, se eu a visse hoje, eu a acharia a mulher mais elegante que eu já vi e uma das mais bonitas.


O livro de nossa Carolina Nabuco, por menor ou menos loquaz, com uma trama mais simples ou o que for, terá sempre o privilégio de ter criado Marina e Roberto Steen, um dos casais mais charmosos da nossa literatura e, claro, da televisão brasileira, pela novela da Rede Globo, exibida no período de 09/10/1978 a 03/03/1979, da autoria de Manoel Carlos.
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