Jennifer McMahon - Prisioneiros do Inverno


Jennifer McMahon - Prisioneiros do Inverno


Ano: 2014
Páginas: 350
Idioma: português
Editora: Record

Sinopse:
Muitos acreditam que a pequena cidade de West Hall seja mal-assombrada. Ao longo de sua história, vários casos de pessoas desaparecidas foram registrados na região, mistérios nunca desvendados. Alguns moradores inclusive juram que o espírito de Sara Harrison Shea, encontrada morta em 1908, ainda vague pelas ruas à noite.
A jovem Ruthie acredita que tudo não passa de uma grande bobagem. Porém, quando sua mãe desaparece sem deixar vestígios, ela começa a desconfiar de que aquela região guarda algum mistério, e suas suspeitas são reforçadas quando ela e a irmã encontram uma cópia do diário de Sara escondido em casa. Na busca pela mãe, Ruthie encontra respostas perturbadoras, e ela pode ser a única pessoa capaz de evitar que um grande mal aconteça.

ANALISANDO...

Um bestseller pós-moderno de terror que, finalmente, traz conteúdo e mistério

Cansada de tantos livros adolescentes de terrorzinho aguado (sim, até os sobrenaturais teen mais badalados são melosos demais) e um tanto enjoada dos clichês infindáveis - menina bonitinha e diferente encontra rapaz estranhíssimo e diferentíssimo que, a certa altura do livro, descobrimos tratar-se de algum vampiro, lobo-homem, anjo mau e seres que vieram diretamente dos contos-de-fadas, parei um pouco com as leituras sobrenaturais. Desde a minha última tentativa com Stephen King (A Dança da Morte) e me descobrir sentindo certa náusea com tantas cenas de mau gosto (no sentido literal mesmo, pois certas cenas de sangue, vômitos, sexo selvagem e grotesco nem precisavam estar ali), eu estava pondo de lado as leituras de fantasias sobrenaturais e terror, já que não estava com sorte.

Então me arrisquei a ler Meg Cabot, pois a série "A Mediadora" (lida em áudio há uns 2 anos atrás) me prendeu. Acho a autora ágil e descomplicada e então li o primeiro livro da série "Abandono" e até que não foi ruim, apesar de ter uma trama absolutamente corriqueira e previsível.

Lendo a sinopse de Jennifer McMahon, fiquei intrigada e resolvi me dar uma segunda chance para outro romance sobrenatural, temendo me deparar com outro romance meio-adolescente-meio-adulto do tipo aguado. Foi, porém, uma gratíssima surpresa! O livro não é nenhum clássico do gênero, claro, mas tem várias facetas e todas elas são bacanas, separadas e complementares. Lembra mesmo uma pedra semipreciosa lapidada, pois as múltiplas facetas brilham com seu mistério e suas cores vibrantes de terror, morbidez e, vejam só que contraste: com romantismo, passagens doces, nostalgia e até mesmo, lirismo.
Quadro de Mabel Rollins Harris, "Mãe"

O livro tem de tudo; para os fãs dos romances históricos, ele é um prato cheio, pois que traz uma narrativa múltipla, em duas épocas: Passado (história de Martin, Sara e Gertie) e Presente (Ruthie e Katherine). As narrativas são entrelaçadas e, apesar de aparentemente caótica, a ordem da narrativa é perfeita: a ambientação e descrição dos lugares e das pessoas é minuciosa, as personagens são densas (poucos clichês), o enredo é perfeito e a temática, embora tenha raízes nos milhares de livros e filmes sobre zumbis e/ou criaturas artificialmente criadas como o velho e inigualável monstro de Frankenstein, ainda assim tem toques de uma originalidade que recende a frescor e novidade.

Os personagens são cativantes. Não posso deixar de sublinhar os meus favoritos e que parecem aureolados por um amor e uma ternura infinitas, a família Shea: Martin, Sara e sua filhinha Gertie. Toda a trama, todos os mistérios, toda a carga de tensão, de adrenalina,  e também de emoção e amor, nasceram ali. Talvez um pouco mais para trás no tempo: De uma mulher meio índia, meio branca, meio feiticeira, meio mãe, que criara Sara como filha. Mas depois o legado (ou seria maldição?) da velha Titia passou para Sara.

O destaque dessa família vai para o incomensurável amor de Sara pela filhinha Gertie, de oito anos. E de Martin pelas duas. Essa é uma descrição que traz o recorte da vida rústica do começo do século, na afastada e selvagem fazenda dos Shea:

"O sol começava a despontar por cima do morro, e a neve caía em grandes blocos felpudos. Ele afundou na neve fresca, que chegava até a metade de suas canelas, e percebeu que precisaria colocar raquetes de neve para ir até a floresta mais tarde. Seguiu caminhando com dificuldade, arrastando os pés desajeitadamente pelo jardim em direção ao celeiro, depois o rodeou e seguiu até o galinheiro. Alimentar as galinhas era uma de suas tarefas preferidas — ele gostava do modo como elas o cumprimentavam com pios e arrulhos, do calor dos ovos retirados das caixas que lhes serviam de ninho. As galinhas davam tanto e exigiam tão pouco em troca. Gertie dera um nome para cada uma: havia Wilhelmina, Florence a Grande, a Rainha Reddington e oito outras galinhas, mas Martin sentia dificuldade em acompanhar as historinhas estranhas que Gertie inventava para elas. Antes de uma raposa apanhar uma das galinhas, eles tinham uma dúzia completa delas. Em novembro passado, Gertie fez chapeuzinhos de papel para todas e lhes levara um bolinho de milho. “Estamos fazendo uma festa”, explicou ela a Martin e Sara, e os dois assistiram à filha encantados, rindo enquanto Gertie corria atrás das galinhas para tentar fazer com que o chapéu não caísse."

Mas a história também se passe nos dias de hoje, onde Katherine é uma mulher dividida entre uma vida insípida de viúva e mãe que perdeu o filhinho (também) e a mulher que quer sair dessa letargia. Descobrir o que aconteceu com seu marido, por que ele mentiu sobre sua última viagem, onde ele foi e por que.

Também temos a adolescente Ruthie, que mora na velha casa de fazenda em West Hall, a mesma casa onde moraram os Shea, com a mãe viúva e a irmãzinha Fawn. Outro mistério: A mãe de Ruthie desaparece e ela não conta à polícia, já que num caso desses poderia ser separada da irmãzinha. Mas os mistérios vão se acumulando durante a história toda...
Imagem: Pixabay

Onde estaria a mãe de Ruthie, talvez perdida entre os sombrios bosques que todos consideravam assombrados? Por que o marido de Katherine mentiu para ela e o que ele teria a ver com o mistério do Diário Secreto de Sara (um livro que fora publicado pelos parentes da falecida Sara Harrison)? Quem eram os dormentes, o que faziam, de onde vinham, o que significavam? Como todas aquelas histórias se entrecruzavam, o que tinham em comum?

Um livro que se lê com avidez, já que o mistério perdura e nos deixa intrigados. Também há uma carga de profunda nostalgia, que nos remete às tradições familiares, ao amor de um marido por sua esposa e filhos, e de como um homem pode ser capaz de tudo pela família que ama. 

Esse trecho é de uma carga emotiva intensa e dolorosa. Traz à tona uma reflexão sobre o papel do homem conservador e sua conduta de absoluta devoção à família, de absoluto amor à sua esposa e o qual, mesmo sem vislumbrar mais nada no horizonte, nenhuma esperança, nenhum pequenino raio de luz nas trevas que o engolfam, ainda é capaz de um sacrifício maior:

"Agora ia cambaleando, a respiração entrecortada enquanto arrastava-se pelo campo. Aquele maldito campo, onde nada jamais crescia. Ano após ano, ele havia arado, adubado e cuidadosamente semeado sementes que jamais vingavam, apesar de todos os seus esforços. [...]
Ele olhou para a casa que começava a surgir à sua frente, lembrou-se de quando carregou Sara porta adentro no dia de seu casamento. Do quanto estava apaixonado por ela. Sara, com seu cabelo ruivo rebelde e seus olhos brilhantes. Sara, que conseguia enxergar o futuro. Lembrou-se de quando ela, ainda garotinha, dissera a ele no pátio da escola: “Martin Shea, você é o homem com quem irei me casar.” De como ele lhe dera então aquela bola de gude boba. Ela ainda a guardava em uma caixinha junto com os dentes de leite de Gertie e um dedal de prata que havia pertencido à sua mãe.
Imagens da vida dos dois preencheram sua cabeça e seu coração: os Natais que passaram juntos; a vez em que foram dançar no salão em Barre e a roda da carroça quebrou no caminho de volta para casa, forçando os dois a passarem a noite dentro dela, aninhados embaixo de seus casacos, felizes. Havia lembranças dolorosas também. A perda dos bebês que Sara carregava dentro de si.[...]
— Sara — gemeu Martin enquanto passava pelo celeiro, os pés esmagando a neve. — Minha Sara. — Ele caiu e lutou para voltar a se levantar, deixando o chão branco manchado de vermelho, como um anjo de neve ferido."

Um livro que tem um desenvolvimento denso, tenso e comovente e um final cheio de suspense e revelações. Não imagine que será um final tradicional. 

É um final que surpreende, mas satisfaz plenamente, com a carga máxima de emoção e ansiedade, coisas raras num bestseller moderno.

Share:

0 comentários: