O novo ateísmo e a destruição do idílio e do sonho


Eu estava hoje me recordando de algumas coisas, bastante comuns e muito em voga nos gloriosos e saudosos anos 1980: O misticismo, a crença em espíritos da natureza e em anjos.

Não digo que não sou cristã, sou e sempre fui, mas era difícil para uma adolescente de seus doze a dezessete anos ficar indiferente à magia da chamada “Nova Era”, iniciada nos anos 1970 e se estendendo até meados dos anos 1990.

Nova Era ou New Age como ficou conhecido, era um movimento cultural-filosófico nascido dos antigos movimentos da contracultura, dos anos 1960 e que foi se tornando mais e mais popular pela adesão de diversos artistas e bandas pops, como os Beatles. O movimento teve uma fusão de diversos elementos: budismo, hinduísmo, terapias alternativas, meditação, yoga, traços da Teosofia de Mme. Blavatsky, tarô, métodos de adivinhação os mais variados, etc. Mas o que “pegou” mesmo como febre, foi a moda dos ‘espíritos da natureza’ – duendes, gnomos, fadinhas, elfos, silfos, anjos, etc.



De toda a parafernália new-ageana, acredito que os brasileiros se afeiçoaram mais aos “pequenos seres do mundo mágico”, hoje somente conhecidos das atuais gerações através de alguns filmes ou livros de fantasia teen, ou do clássico e imorredouro “O Senhor dos Anéis”. Na minha adolescência, entretanto, gostar de duendes rendeu programas na televisão, filmes e desenhos, camisetas, adesivos onde se lia “Eu acredito em duende”, lojas especializadas em material “místico” (que vendia desde gnomos de pano e cerâmica, até o básico incenso...



Agora digam-me, como uma adolescente, louca por livros e romances de fantasia (e sobrenatural), que começava a pintar suas primeiras aquarelas (sim, eu pintei e desenhei muitos duendes e gnomos!) e ansiosa pelo conhecimento místico variado, poderia resistir a todo esse modismo colorido, exotérico, fascinante?

Como toda jovem rebelde, eu assimilava a um nível subconsciente os ensinamentos cristãos – passados na sua maioria por minha mãe, evangélica e muito devotada à sua fé – mas ao mesmo tempo queria conhecer o mundo “paralelo” da moda new age... E isso me rendeu alguns sermões de minha mãe, não nego. Mas fazer o quê, se minha curiosidade era maior que minha obediência? Pelo menos minha rebeldia não ia além do querer conhecer através de livros e estudo. E conhecendo os dois lados, ia separando o joio do trigo. 



Mesmo transgredindo a conduta conservadora de minha família – que, digo desde já, era do tipo carinhosa, nunca opressora como querem significar alguns ideólogos modernos a respeito da família cristã – eu fui lendo tudo a respeito de todas as modalidades do movimento. E sequer sabia que aquilo era um movimento cultural! Como artista plástica, participei até mesmo de um grupo artístico que criou, nos idos de 1994, o Movimento Pararrealista deArtes Plásticas.[1] 



Meus quadros? Óleo sobre tela, algumas aquarelas com figuras místicas e cenas espiritualistas/religiosas. Um dos meus quadros, exposto em Curitiba e Matão, representava um grupo de criaturinhas bizarras reunidas em torno de um homem mais alto, de chapéu pontudo e roupas à moda duende. Claro, o nome do quadro tinha que ser “O Rei dos Duendes”. Infelizmente foi vendido e na época (sem internet e sem máquinas digitais) não se pensou em fotografá-lo! Tenho uma única foto, mas não sei onde a guardei. Ficou dele uma poesia idílica e fofa, como diriam as jovens de hoje. Está publicada aqui.


E hoje, vinte e poucos anos passados, o que restou dessa época tão idílica e colorida? Onde está aquele pessoal cheio de entusiasmo e desejo de unir-se ao Logos, ao Eu Superior, aos poderes do misticismo e das energias dos chakras?[2] Onde estão as lojas Alemdalenda, que criaram tantos sonhos alegres nas cabeças dos jovens dos anos 80 e 90? Pelo que percebi, a artista plástica Heloisa Galves continua trabalhando, escrevendo livros infantis e esotéricos. Mas o charme e a magia do refrão “Eu acredito em duendes”, as histórias (ou estórias) contadas por tanta gente – inclusive artistas e celebridades – sobre encontros com os “pequeninos”, desapareceu.



O que terá acontecido? Tenho aqui comigo minhas convicções, e uma delas refere-se ao neo-ateísmo, que ressurgiu com inusitada violência nos últimos anos, não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Preocupado em destruir a ideia de Deus e do Cristianismo, o ateísmo veio destruindo também todas as demais formas de espiritualidade, ainda que essas formas fossem meras sombras de uma conexão mais profunda com a Divindade. Entre essas formas, não-cristãs de união com o mundo extrafísico, estavam justamente as ideias da Nova Era ou do movimento New Age.

Naturalmente, não fico triste por terem desaparecido os pequenos bonecos de resina ou as alegres lojinhas de quinquilharias místicas (apesar de eu gostar muito de frequentá-las). O que se perdeu foi algo além: Não a fé no espírito, essa vai permanecer inalterada em mim e em todos os que tem sua convicção firme e souberam separar o joio do trigo. Fico triste pelo desaparecimento do lado idílico daquele tempo, do lado sonhador e dos sonhadores também: Todo aquele pessoal que comprava feliz um livro sobre “elementais” e acendia uma vela no altar pessoal para o “duende da casa” ou deixava uma maçã em um cantinho qualquer. Era um sonho? Era superstição? Era um ato de fé e esperança? Sim... Talvez fosse tudo isso junto. Os duendes não existem, exceto nos filmes e livros infantis? Sim, talvez... Talvez não... 


Mas não é disso que falo; refiro-me a toda uma cultura que se deixava embalar pela alegria e beleza de um mundo mágico. Pelo menos, esse mundo mágico – fosse ou não real – era muito mais belo que o mundo árido, violento e sem graça que os ateus e os marxistas hodiernos criaram.


[2]http://www.personare.com.br/desvendando-o-significado-dos-chakras-m2073

[1] http://www.adepr.org.br/?pagina=jornal&id=4


Bibliografia

FERGUSON, Marilyn. A Conspiração Aquariana: Transformações Pessoais e Sociais nos Anos 80. Rio de Janeiro, Record, 1995.

Froud, Brian. Fadas e o Mundo dos Seres Encantados. Siciliano, 1992.

Galves, Heloisa. Heloisa Galves. 2008. janeiro de 2015 .

Gelder, Dora Van. O Mundo Real das Fadas. Pensamento, 1992.
Magnani, José Guilherme Cantor. “O Neo-esoterismo na cidade.” Revista USP (1996): 15.


Share:

1 comentários:

Pat Kovacs disse...

Só fui me ligar nessas coisas agora, depois de velha. Quando criança não sabia nada de nada, é uma pena, pois certamente a minha imaginação teria sido mais rica.
O que vemos agora, mais específico após a virada do milênio, é o culto ao corpo e à matéria, exatamente quando deveria ser oposto: com as pessoas preocupadas em desenvolver coisas do espírito e se desapegar da matéria.
Eu, por minha vez, hoje, acredito em tudo, pois se é verdadeira as barbáries que os humanos comentem, então também é verdadeiro um mundo em que seres místicos existem.