Peter Straub - Os Mortos-Vivos [resenha]


Os Mortos-Vivos, uma fantasia moderna aos moldes góticos

A história se passa na pacata cidade de Milburn, e envolve um grupo de quatro amigos que foram a Sociedade Chowder: Ricky Hawthorne, John Jaffrey, Sears James e Edward Wanderly, que tem o costome de reunirem-se duas vezes por mês para contar histórias de fantasmas, acompanhados por charutos e bebidas. Não importa como as histórias aconteceram, o que importa é a forma em que é contada para o grupo.

Quando uma série de estranhos eventos começam a acontecer na cidade, eles resolvem pedir a ajuda de Donald Wanderly sobrinho de Edward. Donald é um escritor e seu último livro fora sobre ocultismo, por isso a Sociedade acredita que as pesquisas que Donald fez para o livro possam ajudá-los.

Donald chega na cidade e eventos ainda mais estranhos acontecem, alguns deles incluem uma ex-namorada de Donald, uma ex-moradora da cidade e alguns integrantes de uma das histórias de Sears James contada em uma das reuniões da Socidade.

Dados do livro:
Título original: Ghost Story
© Copyright desta edição, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo, 1987. Também há a edição do Círculo do Livro, cuja capa ilustra essa postagem.


O QUE ACHEI:
Por duas vezes tentei ler o livro, envolvida pela sinopse e parei logo após a aterrorizante (e envolvente) história de fantasmas contada por Sears James. Não por medo, mas por desgostar do início e do rumo que as coisas, aparentemente, tomavam.

O que me desagradou já de cara? O início do livro, onde Don é abordado em cenas caóticas, realizando uma ação aparentemente maluca, ao lado de uma menina mal vestida e desnutrida, órfão e aparentemente "esquisitinha" pelos seus modos de agir. O que significava tudo aquilo? Quem era Don Wanderley? Quem era a tal menina que, pelo que tudo indicava, não tinha família nem passado? Seria uma retardada mental? E o que Don queria com ela, se não era nenhum assunto criminoso do tipo infame (como pedofilia, por exemplo)? Teria ela o que a ver com fantasmas ou com o sobrenatural? 

Pois bem, por duas vezes tentei. Na segunda tentativa fui um pouco além do prólogo e do primeiro capítulo, além de "As histórias de outubro" e li a história de fantasmas de Sears James. Gostei, mas ao prosseguir, sem muita paciência, achei que o autor estava divagando demais, metendo novos rumos a uma história que tinha prometido ser legal, que os meandros tortuosos da narrativa estavam sendo exagerados, enfim... Pouca paciência de minha parte e não problemas do livro.

Mas desta vez resolvi pegar e ir até o fim, levasse isso para onde levasse. E não me arrependi. 

Após ler inúmeras resenhas positivas, apostei nesse livro de Straub e prossegui a leitura, relendo tudo desde o princípio (que é torturante pelas inúmeras dúvidas que surgem) e foi... E foi até muito rápido! Li em quatro dias o que a princípio imaginei que levasse um mês. 

O que realmente intriga e assusta um pouco o leitor mais acostumado aos enredos fáceis e leves da fantasia jovem-adulto ou das modernas loucuras de Stephen King, é que Straub usa de muita, muita sutileza ao nos conduzir pelo seu terror. Não é uma história simples ou uma mistura simplista tipo macabro-sangrento-sobrenatural. Tampouco se trata de um romancezinho sobrenatural como os água-com-açúcar de Stephanie Meyer. É uma coisa profunda, sutil, inquietante, que cutuca nossa mente e nos lança diversas questões no espírito. Em alguns momentos chegamos a parar a leitura por senti-la extremamente forte, sufocante até... Quando algumas mortes ocorrem sentimos a tentação de gritar e pedir socorro a um Deus que, em momento algum, Straub cita em sua história. Esquisito isso, pois ele vai tratar de seus fantasmas bizarros como se fossem entidades semidivinas sem, contudo, mencionar o nome de nenhuma deidade - de quaisquer religiões - ou anjos, ou protetores espirituais, etc., para auxiliar os pobres protagonistas que as enfrentam. É como em alguns filmes de terror que assistimos, onde as vítimas enfrentam o demo sem o auxílio espiritual, só usando de meios físicos. 


Entretanto, a história de Straub não tem um enredo linear, é apresentada na forma de várias pequenas camadas, algumas vezes avançando no tempo, algumas vezes retrocedendo para contar sobre o passado da pequena Milburn. Ou o passado de um ou outro personagem que, à primeira vista, parece nada ter a ver com o que nos intriga. E eu pensava: Mas o que esse fazendeiro caipira e doido tem a ver com a história dos fantasmas da Sociedade Chowder? Eu quero saber o que ocorre aos ilustres idosos que são protagonistas e não dos moradores - figurantes - da cidadezinha. E também havia o jovem Wanderley, sobrinho de um dos velhinhos que se suicidara e que surge no prólogo do livro. Qual será o papel de Don Wanderley, o único jovem da "Sociedade" - sem contar que mais tarde surgiria outro jovem - ? 

A primeira história que se ouve é a do Dr. Sears James, advogado e sócio de Rick Hawthorne e esta lembra muitíssimo "Os Inocentes" de Henry James (dizem que Peter Straub bebeu na fonte desse autor ao escrever esse livro). 

Por gerry and me, Deviantar.com

Porém, na continuidade do livro tudo muda de figura e o clima gótico desaparece, quando o inverno se torna rigoroso e uma nevasca literalmente infernal cai sobre a cidade, ilhando-a do resto do mundo. Nessa altura, o sobrinho do falecido Edward Wanderley já está na cidade e contará também a sua história de fantasmas, onde uma lindíssima mulher, Alma, teve um papel definitivo.


E daí em diante, as coisas serão só ação, suspense e um terror alarmante.

O livro transcorre com muita adrenalina para os leitores - e aviso aos leitores sensíveis, cuidado. Pois ficarão com certo medo ou, para ser mais clara, com uma sensação esquisita ao fim de cada capítulo. E, como num vício, sentirão mais necessidade de ler,  por maior que seja a sensação esquisita, porque a única solução para se sentir bem é... saber tudo. Saber todos os mistérios da cidade e dos quatro senhores da Sociedade Chowder, saber dos segredos de Don Wanderley e o que toda aquela cena alucinante do prólogo significa.

E o livro agradará os que gostam de boa fantasia, garanto. O final é fechado com chave de ouro. Um enredo que ganha força a cada página virada, embora o maior de todos os mistérios tenha ficado, afinal, sem uma explicação satisfatória. Mas vale cada linha lida. Recomendo!

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3 comentários:

Arismeire Kümmer Silva disse...

Primeiro eu vi o filme e gostei bastante. Revi o filme uns anos depois uma ou duas vezes e continuei gostando. Depois de ter visto pela primeira vez eu resolvi ler e confesso que não gostei. A forma de escrita de Straub não me agradou e não me interessei em ler mais coisas escritas por ele :-p
Claro, algum dia posso mudar de ideia e me arriscar, hehehehe.
Bj, Aris.

Jossi Slavic Genius disse...

Oi Aris!
Te entendo perfeitamente por não ter gostado, rs... Comigo também foi assim. É mesmo um livro estranho no início, é como quando você tem que subir um morro para depois enxergar a paisagem lá do outro lado: Até você "pegar o embalo" e subir (ler a primeira parte do livro) tudo é cansativo, deprimente, esquisito. Mas depois que você "embala" na história vai deslizando, rss... daí você consegue grudar no livro e ler com rapidez. Tente de novo, rss...

Giotto di Bondone disse...

Li nos anos 80, reli nos anos 90 e adorei o livro. É mesmo de meter medo em gente adulta. Certos momentos você pára, fecha o livro e diz "pqp, não acredito!" Daí vc volta e lê o trecho de novo. Nóossa, gostei muito, um dos livros de terror mais cabulosos que li. Não é sangrento como essas coisas de zumbi que vemos - é bem mais "real" e talvez por isso apavorante.
Certa vez vi o filme, é bacana tal e coisa, mas nem sequer chegou aos pés do livro. Claro, gente, quanto mais fértil a sua imaginação, mais interessante o livro fica. Não desistam do livro, vale a pena!