Stephen King - A Coisa


Que coisa... que monstro... que criatura era aquela?

Nesse romance o mestre do terror nos leva de volta ao tempo em que acreditávamos mais em nossa imaginação, em nossos sonhos e também em nossos pesadelos... 
Junho de 1958. Derry, pacata cidadezinha do Maine. Início das férias de verão. Para Bill, Richie, Eddie, Stan, Beverly, Mike e Ben, sete adolescentes que, pouco a pouco, se tornam amigos inseparáveis, este será um verão inesquecível. Um tempo em que vão descobrir o doce sabor da amizade, do amor, da união. Uma época em que vão provar o gosto amargo da perda, do medo, da dor. Este será um ano inesquecível. Terrivelmente inesquecível. O ano em que vão conhecer a Coisa, a força estranha e maligna que vem deixando um rastro de sangue na calma Derry. O ser sobrenatural que apresenta um apetite especial por inocentes crianças.
Maio de 1985. O tempo passou deixando suas marcas em cada um deles. Já não são mais crianças. Mike Hanlon, o único que permanece em Derry, dá o sinal. Precisam unir novamente suas forças. A Coisa volta a atacar e eles devem cumprir a promessa selada com sangue quando crianças. Só eles têm a chave do enigma. Só eles sabem o que se esconde nas entranhas de Derry. Apenas eles podem vencer o poder maléfico da Coisa. 

O QUE ACHEI:
Resenhar um livro - ou melhor, dois livros - desse porte e complexidade, é um tanto difícil. Não demorei para ler, mas até concatenar as ideias, juntar os fatos destacados em minha mente e analisar a obra, separando joio de trigo para dar uma ideia geral, não foi rápido nem fácil. Aliás, a leitura de Stephen King não é fácil também, já que ele não engloba apenas elementos do terror moderno, dos medos ancestrais ou da ficção fantástica, pura e simplesmente. Ele junta muito mais, ele fala de cultura, da arte pop, de música, de literatura, do povo norte-americano com todas as suas tradições, sua arte, sua cultura, sua história.

Esse livro, "A Coisa" (título original inglês, "It"), com várias publicações no Brasil (a capa acima é da Editora Francisco Alves S. A.), é um dos mais complexos e portentosos, prenhe de ação, terror, aventura e originalidade já escritos por Stephen King. Não vou me atrever a dizer que foi o melhor que li, pois dele li e fiquei totalmente envolvida - mais envolvida - com "A Hora do Vampiro" - mas é um dos melhores na opinião de seus inúmeros leitores brasileiros, estando sempre no topo da lista dos melhores desse autor.

Mas, afinal, o que tem "A Coisa" de tão inquietante e fabuloso, vocês me perguntariam... Bem, temos de tudo um pouco. Não é um livro fácil de entender, pois nas entrelinhas fica subjacente uma ideia que, tenho certeza, passa batida para a maioria das pessoas: A verdadeira identidade de A Coisa


Para começar, a história inicia lá atrás (1958) e são sete amigos, 7, o chamado "número mágico", "número da perfeição", "número divino", segundo muitas tradições magico-esotéricas. Os sete jovens, cujas idades deviam variar entre 11 e 14 anos, vivam numa pacata cidadezinha do Maine, Derry, onde  assassinatos brutais de crianças lançam susto e terror nas famílias locais.

O protagonista da história é Bill Denborough e o início já traz à tona a presença de uma entidade sobrenatural que será a responsável por uma tragédia na vida deste menino.

Com o correr da história, somos ora levados a 1958, ora ao "presente", 1985, quando os sete amigos já são adultos. Somos então apresentados aos sete já separados, cada um vivendo em uma cidade diferente e totalmente esquecidos do terrível ano em que viveram juntos, unidos por uma bela e profunda amizade e, também, pelo medo constante... o ano em que a Coisa surgira para todos eles, ameaçando-os, destruindo sua paz, colocando-os frente a frente com o inimaginável, com o terror supremo, o medo da morte, o medo da vida, o medo da cidade, dos conhecidos e, em alguns casos, medo da sua própria família...

Aqui Stephen King se supera em originalidade. A narrativa, embora nem sempre seja atrativa pelo suspense constante, é mais ou menos equilibrada. Em alguns trechos poderíamos bocejar, pois as descrições de Derry, de seus habitantes modernos e dos antigos, da vida urbana, do cotidiano de algumas famílias (e os personagens são inacreditavelmente numerosos nesse livro), é um tanto quanto cansativa. Mas apenas em alguns trechos.

O autor traça um perfil do norte-americano pobre dos anos 50, quando narra a vida dos sete amigos crianças, contando não só a história deles, mas a dos seus antepassados, pais, avós, bisavós. É um rico mosaico de cultura pop e história de cidades interioranas, de como viviam as famílias em suas casas humildes, sítios, fazendolas. O que mais me comoveu no livro foi o cuidado com que Stephen King tratou de duas temáticas interessantíssimas (que correm paralelamente ao tema central, o terror causado pela Coisa): O poder do amor-amizade e a história do racismo norte-americano.


Mike Hanlon é o menino negro do grupo dos "Perdedores", como eles são chamados (devido à rivalidade com o grupo de perseguidores maiores e mais fortes da escola, liderados por Henry Bowers). E a história da Coisa vai além da infância de Mike, quando seu pai lhe conta como era a vida dos negros americanos e do implacável ódio racista contra eles, nos anos 1930, 1940... Em alguns trechos precisamos fechar o livro, parar, refletir. Eu, sinceramente, me surpreendi: Nunca imaginei que o racismo lá (e no mundo inteiro, como sabemos que existiu e ainda existe) foi tão brutal. 

— Tivemos alguns problemas no início — contou meu pai, em outra ocasião. — Havia pessoas que não queriam negros na vizinhança. Nós sabíamos que ia ser assim — eu não tinha esquecido o Ponto Negro — e então nos limitamos a ficar quietos, a esperar. Surgiam crianças que jogavam pedras ou latas de cerveja. No primeiro ano, tive que trocar vinte janelas. Aliás, alguns dos que vinham por aqui nem eram crianças. Certo dia, quando nos levantamos, vimos uma suástica pintada na lateral do galinheiro e todas as galinhas tinham sido mortas. Alguém pusera veneno em sua comida. Foram as últimas galinhas que tentei criar.

“O xerife do condado, no entanto — naquele tempo, em Derry ainda não havia chefe de polícia, porque não era uma cidade grande o suficiente — começou a trabalhar no caso, e trabalhou duro. Eis aí o que quero dizer, Mikey, quando falo que aqui tanto há bons como maus. Para aquele xerife Sullivan, nenhuma diferença fazia a cor de minha pele e meu cabelo encarapinhado. Ele se pôs em campo meia dúzia de vezes, falou com pessoas e finalmente descobriu quem tinha feito aquilo. E quem você acha que foi? Pode tentar três nome, e os dois primeiros não contam!

— Não sei — respondi.
Meu pai riu até as lágrimas lhe saltarem dos olhos. Tirou então um grande lenço branco do bolso e as enxugou.
— Ora, mas foi Butch Bowers, quem mais poderia ser? O pai do garoto que você diz ser o maior brigão de sua escola. O pai é um monte de bosta e o filho é um peidinho.
— Alguns garotos da escola dizem que o pai de Henry é maluco — falei.
Creio que na época eu estava no quarto grau — tempo suficiente para já ter sido chutado algumas vezes por Henry Bowers, entre outras coisas... e agora que penso nisso, a maioria dos termos pejorativos para “negro” ou “preto” que já ouvi, saiu da boca de Henry Bowers, entre o primeiro e o quarto graus.
— Bem, pois eu lhe digo — falou meu pai, — que a ideia de Butch Bowers ser doido não está muito longe da verdade. Dizem que ele nunca mais foi o mesmo, ao voltar do Pacífico.  Butch esteve nos Fuzileiros. De qualquer  modo, o xerife  o  levou sob custódia e Butch berrava que aquilo era uma trama contra ele, que todos não passavam de um bando de apreciadores de negros. Oh, ele ia processar todo mundo. Parece que tinha uma lista de nomes, tão grande que se estenderia daqui à Rua Witcham. Duvido que Butch possuísse uma única ceroula de fundilho perfeito, mas ia processar a mim, o xerife Sullivan, a cidade de Derry, o condado de Penobscot e só Deus sabe quem mais.
“E quanto ao que aconteceu em seguida... bem, não posso jurar que seja verdade, mas foi como ouvi de Dewey Conroy. Dewey disse que oxerife foi ver Butch, na cadeia de Bangor. E o xerife lhe disse: ‘É hora de você fechar a boca e pensar um pouco, Butch. Aquele sujeito de cor, bem, ele não quer apresentar denúncia. Não quer enviá-lo para Shawshank. Ele só quer o valor das galinhas que perdeu. Ele acha que duzentos dólares compensariam.’
“Butch responde ao xerife que pode enfiar seus duzentos dólares onde o sol não brilha. O xerife Sullivan lhe diz então: ‘Eles têm uma mina de cal lá na Shank, Butch, e me disseram que depois do cara trabalhar nela dois anos, fica com a língua tão verde como uma bala de limão. Agora, você escolhe. Dois anos na mina ou duzentos dólares. O que acha?”
“Nenhum  júri   do  Maine   me  condenará’,   responde   Butch,   ‘não   por   matar  as galinhas de um negro!”

Esse é apenas um pequeno trecho, em que o pai de Mike conta a ele parte da sua história - que se confunde com a história do incêndio no Ponto Negro (bar onde os negros da época se reuniam, pois eram proibidos de frequentar bares e casernas dos brancos). É claro que a história de Butch e Henry Bowers tem a ver com a Coisa... Tudo o que mau, ruim, perverso em Derry tem a ver com a Coisa.

Mas o livro vai além. S.K. conta a história dos sete, revivendo a certos pontos a história da cidade de Derry, seus "monstros humanos", pessoas más, assassinos, bandidos, homicidas. E também conta a história particular de cada um dos sete amigos, de como eles se gostavam, se respeitavam e juraram combater aquilo - aquela Coisa - que passou a persegui-los, embora nenhum deles tenha sido ferido mortalmente por ela.

Esse é um dos maiores mistérios do livro: Como os sete Perdedores conseguiram passar por aquele período terrível, sofrendo perseguições naturais e sobrenaturais, sendo acossados pelo psicopata Henry Bowers e seus sequazes, sem conseguir contar com a ajuda dos adultos (que pareciam não notar ou não enxergar o que eles enxergavam)? E agora, adultos, conseguiriam destruir a Coisa definitivamente?

O final é soberbo, embora nas entrelinhas a gente possa perceber que a Coisa é o Mal do Universo. Também há  uma alusão - muito tênue, na verdade - a Deus e em como ele usou os sete para enfrentar a Coisa, mas tal alusão é única, quase no final da história... Só uma leitura muito atenta poderá mostrar onde está Deus - o Pai Criador - e em como Ele age na trama. Uma alusão mínima e sutil, talvez para não envolver uma trama de fantasia na temática religiosa.

Um livro clássico do terror sobrenatural, que não vai decepcionar os amantes da literatura fantástica, com certeza!




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6 comentários:

Arismeire Kümmer Silva disse...

Comecei a ler Stephen King este ano (os que nunca havia lido) e reler alguns que já tinha lido. Estou mergulhada na febre Stephen King, hehehe. Sugiro Insônia. Acho que você vai gostar. Ainda não fiz reviews para a maioria deles, mas quem sabe ainda faço isto neste semestre ;-)
Bj, Aris.

Jossi disse...

Olá, Aris.
Eu também peguei essa febre, heim? Mas é boa, rss... Estou agora me dedicando a mais duas obras desse gênio moderno do terror: "Novembro de 63" e "Saco de Ossos"... ambos os livros são enormes... mas é fácil ler SK.

Vou colocar 'Insônia' na minha estante para ler, mas ai, a pilha a cada dia aumenta mais!
:)

Arismeire Kümmer Silva disse...

Eu considero Insônia um dos melhores livros dele :-)
Lendo IT no momento.
Saco de Ossos é outro favorito. Acho que Saco de Ossos, Insônia e depois Duma Key.
Bj, Aris.

Jossi Slavic Genius disse...

Já li! Agora estou com uma dúvida: "Insônia" já está decidido, mas você já leu "Rose Madden"? Eu comprei esse, mas depois das primeiras páginas tomei raiva... não sei por que, mas histórias em que mulheres e crianças são machucadas, espancadas e torturadas não consigo ler. Me deixa tão deprê. É claro, não gosto desse tema em livros, de modo geral, mas mulheres e crianças por serem fisicamente frágeis parecem sofrer mais. E já li resenhas super favoráveis para esse livro...

O que você diz de "Rose Madden", Aris?
:D

Arismeire Kümmer Silva disse...

Olha Jossi, nunca li e nem tenho em e-book, mas vi o filme. Não me chamou muita atenção...geralmente não me interesso muito pelos livros "sérios" do Stephen e Rose é um deles. O único, além de Rose, que arrisquei ver deste estilo foi Um Sonho de Liberdade e só pq meu marido jurou que o final era feliz ^^
Semana passada assisti Misery e confesso que o filme perde feio para o livro. Deveria ter visto o filme antes, assim não teria ficado tão frustada com as mudanças idiotas que fizeram.
Bj, Aris.

Jossi Slavic Genius disse...

OK... mas alguns comentaristas do Skoob disseram que Rose Madder não é totalmente sério e tem boas pitadas de sobrenatural, ou seja, fantasia.

'Misery'? Não li também... pois é, eu sempre fico na dúvida sobre o que ler do SK. Não sei me arrisco com Rose Madder, mas talvez, que sabe... com SK a gente vai de um extremo a outro, ama ou odeia, rss.

Bjs