Louisa Reid - Corações Feridos [resenha]


Corações Feridos - Duas irmãs gêmeas. Uma linda, a outra desfigurada. Divididas por um terrível segredo... - Louisa Reid
Sinopse:
Hephzibah e Rebecca são irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Enquanto Hephzi é linda e voluntariosa, Reb sofre da Síndrome de Treacher Collins — que deformou enormemente seu rosto — e é mais cuidadosa. Apesar de suas diferenças, as garotas são como quaisquer irmãs: implicam uma com a outra, mas se amam e se defendem. E também guardam um segredo terrível como só irmãos conseguem guardar. Um segredo que esconde o que acontece quando seu pai, um religioso fanático, tranca a porta de casa. No entanto, quando a ousada Hephzibah começa a vislumbrar a possibilidade de escapar da opressão em que vive, os segredos que rondam sua família cobram-lhe um preço alto: seu trágico fim. E só Rebecca, que esteve o tempo todo ao lado da irmã, sabe a verdadeira causa de sua morte... Hephzi sonhara escapar, mas falhara. Será que Rebecca poderia encontrar, finalmente, a liberdade?

O QUE ACHEI:
Tenso, comovente, assustador. A autora pensou até mesmo no simbolismo dos nomes das meninas: Hephzibah (do hebraico: "meu prazer está nela"), foi uma rainha bíblica. Rebecca, nome também hebraico e bíblico, foi a mãe de Jacó e Esaú (irmãos e gêmeos, um amado por ela, outro pelo pai).

Enfim, o livro é surpreendente! Quantos livros de autores mais afamados e aclamados pela mídia nos decepcionam e nos fazem perder o interesse. Enquanto outros, de autores quase desconhecidos nos fazem "viajar" na pele das personagens!


Esse é outro daqueles livros que encerram, se não uma lição "moral", ao menos um esboço bem feito sobre a vida, sobre como os crimes e pecados ocultos um dia podem ser postos à luz, sobre como o preconceito e o fanatismo são venenos que matam os próprios que os destilam. Mas sobretudo, é uma narrativa comovente sobre a realidade da esperança e sobre a força que cada ser humano tem dentro de si, apesar do embrutecimento que parece corroer, a cada dia mais, a humanidade.

Ultimamente posso categorizar os livros que tenho lido em três tipos:

1- Clássicos da literatura, úteis para um perfeito conhecimento da arte da escrita, da filosofia de vida e do estilo de cada autor.

2- Livros para mero entretenimento, encaixando-se entre esses alguns livros de suspense, fantasia, policiais, aventuras, romances água-com-açúcar, terror tipo bestseller, etc. São aqueles livros que você gosta de ler apenas para espairecer, para esquecer um pouco as tensões diárias e "viajar na maionese" da fantasia.

3- Livros para entretenimento, mas com bom conteúdo: São todos os livros que nos levam a refletir sobre questões preocupantes da vida e do ser humano. Livros que, embora sejam escritos em linguagem leve, singela e para entreter, também trazem à baila vários assuntes relevantes. Entre esses, eu colocaria também clássicos como "David Copperfield" de Charles Dickens, "O Manto de Cristo" , de LLoyd C. Douglas. E muitos bestsellers modernos, como "O Jantar" de Herman Koch, "No Escuro", de Elizabeth Haynes, "O Jardim Secreto", de Frances H. Burnett, "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lionel Shriver, etc. E agora, coloco também o livro "Corações Feridos".

Louisa Reid explora aqui o universo sombrio e, muitas vezes desconhecidos do resto do mundo, de algumas famílias cheias de segredos, abusos e perversidades.

 

A história das gêmeas, uma linda e perfeita, a outra com o rosto deformado pela Síndrome de Treacher Collins, é como uma ferida aberta dentro de um livro, mas uma ferida que nos ensina sobre a dor e sobre como curá-la, pouco a pouco.

Rebecca, a irmã "imperfeita" é das duas quem mais sofre nas mãos de um pai fanático religioso e uma mãe omissa: Incrível como a autora conseguiu passar para os leitores todo o mundo abismal e negro em que um ser humano consegue mergulhar e, também, como a força de vontade e a coragem são preciosidades ímpares para sair desse abismo.

A história é narrada pelas duas meninas (com 16 anos), embora só uma tenha sobrevivido ao horror, justamente Rebecca. Sofrendo o desprezo dos pais, depois olhada com horror, quase com nojo, por vizinhos e colegas de escola, ela só pode contar com o amor e amizade da irmã... Mas como toda adolescente, Hephzi também é rebelde às vezes. E apesar do amor pela irmã, ela se mostrará muitas vezes omissa, dando de ombros quando os colegas da escola debocham ou "zoam" com a aparência de Rebecca. Apesar disso, ambas são vítimas da crueldade e perversidade do homem a quem chamam, reverentemente e com amargura, de "Pai". Um pai que não mede esforços para destruir, machucar, torturar as duas.

A história não é longa, mas pela profundidade do tema abordado, vale como um relato intensamente longo. Em certa altura sentimos medo, depois horror, depois repulsa e ódio do mundo que nos cerca: Como pessoas preconceituosas  e perversas como aquelas podem coexistir no mesmo universo em que pessoas normais e sensatas? Por que Rebecca não toma uma atitude? Por que Hephzi não abre a boca e conta tudo ao rapaz?

Enfim, a Síndrome de Treacher Collins era algo que eu não conhecia. Mas sendo mostrada aqui no livro, passará com certeza a ser mais divulgada e conhecida e muitos preconceitos poderão ser minimizados. Afinal, o que é a aparência física diante da resplandecente beleza da alma humana?


Louisa Reid escreveu um livro raro, com uma temática surpreendente pelo realismo, pelo impacto, pelo suspense. E principalmente, pela lição que cada um de nós pode tirar daquela história.

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2 comentários:

Fabrica dos Convites disse...

Cada página virada era uma punhalada por saber que muitos vivem esta tortura.
Bjs, Rose.

Jossi Slavic Genius disse...

Pois é, Rose. Esse livro é bom, pois nos prende à leitura. Mas é muito, muito realista e duro. A leitura é um treinamento de resistência à tristeza.