Marion Zimmer Bradley - A chegada em Darkover


Marion Zimmer Bradley
A humanidade fugia de uma terra superpovoada para colonizar novos mundos, mas no caminho a nave sofreu um acidente e eles foram parar em um planeta misterioso, repleto de maravilhas, cuja descoberta provocaria terríveis choques.

O QUE ACHEI:

Esse livro é a introdução ao mundo de Darkover - mas geralmente, os fãs de Marion Zimmer podem começar com qualquer outro livro da série, e depois voltar a esse. Eu lembro de ter lido esse antes de todos os demais. Depois, li "A Corrente Partida", e "Estrela do Perigo", além de uma antologia, "O Melhor de Marion Zimmer Bradley". Essa antologia, ainda mais que os outros livros, me apresentou a algumas curiosidades desse planeta estranho, habitado inicialmente por pequenos humanóides peludos e pelo estranhíssimo povo etéreo, com aparência de fadas ou silfos. Um desses contos, "O Povo do Vento", conta algo muito semelhante ao que é narrado pelo primeiro livro da série, "A Chegada em Darkover": Uma mulher grávida, cujo amante morrera no acidente da nave espacial, será a única sobrevivente no inóspito e esquisitíssimo planeta.

Ela viveria ali por muito tempo, ali nasceria seu bebê, que ela iria criar sozinha. Sobrevivendo de frutos silvestres, ela acabou descobrindo que o planeta não era totalmente desabitado: Lá vivia um povo... uma raça... mas era tão pouco perceptível, tão fantasmagórica, que ela muitas vezes chegaria a duvidar da própria sanidade mental. Não chegava a vislumbrar com clareza a nenhum deles...
 
Seu filho iria crescer naquele planeta esquisito, mas jamais se conformaria em ser o único ser do sexo masculino e jamais se conformou em viver ali sem mais ninguem, sem nenhuma mulher - além de sua mãe, claro...
Quando Robin tinha quatorze anos, Helen contou-lhe a história de seu nascimento e falou da nave.

Ele era um rapaz alto e silencioso, forte e resistente, e não gostava muito de falar. Ouviu a história num silêncio quase total e depois fitou Helen em silêncio por um longo tempo. E, finalmente, disse, num sussurro:

- Você poderia ter morrido... renunciou a muita coisa por mim, Helen, não é mesmo?

Ele ajoelhou-se e pegou o rosto de Helen entre as mãos. Ela sorriu e recuou um pouco.

- Por que me olha desse jeito, Robin?

O rapaz não pôde de imediato traduzir seus pensamentos em palavras; as emoções não constavam de seu vocabulário. Helen ensinara-lhe tudo ó que sabia, mas sempre escondera seus sentimentos do filho. Ele acabou indagando:

- Por que meu pai não ficou com você?

- Acho que isso não lhe passou pela cabeça. Ele era necessário na nave. Perder-me já era bastante terrível.

- Eu teria ficado! - declarou Robin, veemente. Helen descobriu-se a rir.

- Ora, Robin, você ficou.

- Sou como meu pai?

Helen contemplou o filho solenemente, tentando encontrar as feições meio esquecidas de Reynolds no rosto do rapaz. Não, Robin não se parecia com Colin Reynolds, nem mesmo com a própria Helen. Ela pegou a mão do filho entre as suas. Apesar de sua excelente saúde, Robin nunca ficara bronzeado; sua pele era pálida, perolada, de tal forma que se fundia com a floresta na luz do sol esverdeada, tornando-se quase invisível. Sua mão pairava na palma de Helen como uma sombra. Ela finalmente murmurou:

- Não, você não é parecido com ele. Mas sob este sol, isso era de esperar.

- Sou como as outras pessoas - comentou Robin, confiante.

- As da nave? Elas... Robin interrompeu-a:

- Não. Você sempre disse que me falaria sobre as outras pessoas quando eu ficasse mais velho. E estou me referindo às outras pessoas daqui. As que vivem na floresta. As que você não pode ver.

Helen ficou olhando para o garoto numa incredulidade total.

- Como assim? Não há outras pessoas, apenas nós.

E depois ela recordou que toda criança imaginativa inventa companheiros imaginários. Sozinho, ela pensou, Robin está sempre sozinho, não há outras crianças, não é de admirar que ele seja um pouco... estranho.
 
 O final do conto é muito triste, porque o rapaz - nessa altura ele já é quase adulto - confunde tudo... realidade, com fantasia.
Porém esse conto nos dará a real dimensão de todas as facetas da ficção de Marion Zimmer: Ela criou, assim como J. R. R. Tolkien, todo um "universo" de mitos, raças, sub-raças, crenças, cosmogonias, culturas e histórias, que remontam todas ao pequeno grupo de terráqueos que, um dia, chegaria acidentalmente ali... justamente ao grupo cuja história é narrada nesse primeiro livro.

A história é ótima, eu a li duas vezes e, em ambas, foi rápida a leitura. É comovente, um pouco nostálgico, pois o grupo de sobreviventes vai tentar, por todos os meios, sair de lá, retornar à civilização. Notadamente, o comandante Leicester recusa-se à ficar ali, à mercê de um "retorno à barbárie", e vai querer consertar a nave semidestruída. Depois, vendo que isso não era possível, ele vai se apegar à sua tão amada tecnologia, e...

Enfim, teremos vários personagens fascinantes, como Rafael MacAran e Camilla Del Rey, um casal por quem a gente torce o tempo todo.


Entretanto, o retorno à civilização terrestre não aconteceria, tampouco o "retorno à barbárie", e o planeta esquisito iria mostrar muitas coisas fascinantes e assustadoras ao mesmo tempo, para o grupo de sobreviventes.

O final deixa todas as pistas de que, no futuro, Darkover seria uma fantástica civilização, embora para o leitor isso ainda vá soar com um tom nostálgico.

Um livro incrível, uma introdução ótima para o universo darkovano de Marion Zimmer.


Share:

0 comentários: