Kathleen Mcgowan - "O Legado de Maria Madalena", uma heresia moderna?



O Segredo do Anel - O Legado de Maria Madalena
Autor: Mcgowan, Kathleen
Editora: Rocco

Com a intenção de escrever um livro que faça justiça a personalidades femininas difamadas por razões políticas ao longo dos séculos, Maureen Paschal corre o mundo em busca de documentos raros que contradigam a História oficial. 

A protagonista do romance é a jornalista e escritora Maureen Paschal. Com a intenção de escrever um livro que faça justiça a personalidades femininas difamadas por razões políticas ao longo dos séculos, ela corre o mundo em busca de documentos raros que contradigam a História oficial. Sua pesquisa começa em Jerusalém, onde a jornalista pretende localizar documentos que a ajudem a escrever o capítulo que dedicará a Maria Madalena. Perambulando pelas ruas da Cidade Santa, a pesquisadora se sente estranhamente atraída por um anel, exposto num antiquário.

O QUE ACHEI:
Esse livro é um pretensioso absurdo, do ponto de vista  histórico, bíblico e religioso. É pretensioso, porque não é, na verdade, uma "ficção" segundo as crenças e convicções da autora, mas a história dela mesma, Kathleen McGowan. Quem ler todo o livro (quem conseguir) e chegar ao posfácio, lerá a confissão dela: Maureen, a personagem, não passa de uma "máscara ficcional" para a história da própria Kathleen, uma filha e herdeira de maçons (ou de outros membros de sociedades secretas, segundo ela mesma diz). E . segundo suas próprias cranças e folclores europeus que lhe foram passados através desses membros, de tais sociedades, ela, Kahtleen, encarna "a pastora", a herdeira de Maria Madalena e Jesus Cristo (que foram "casados" segundo o "evangelho" que Kathleen apregoa como real e verdadeiro).

Bem, todos esses absurdos me soam mais ou menos familiares, depois de ter lido Dan Brown e seus códigos, segredos e mistérios desvendados. O engraçado, é que todos esses livros que "desvendam segredos sobre Jesus Cristo" batem sempre na mesmíssima tecla. Ou seja, o desejo intrínseco de criarem um desengano nos leitores a respeito da verdadeira identidade do Salvador, de deturparem as verdades bíblicas e criarem novas "teorias", todas elas baseadas em "histórias verídicas" que, entretanto, não podem ser provadas.

A espertíssima McGowan, ruiva e com uma bela aparência europeia, faz seu marketing pessoal com esse livro. Jornalista como é, soube aproveitar sua experiência como pesquisadora e buscadora de grandes manchetes sensacionalistas para criar a personagem Maureen Paschal (que é também ruiva como ela, e "ruiva como a própria Maria Madalena", sei lá de onde veio essa ideia...).



O cúmulo do absurdo, porém, não é o fato de ela ter criado a fábula (ou reinventado a fábula, já iniciada com Dan Brown e outros antes dele) de que Madalena foi "casada" com Jesus. O cúmulo do absurdo é a pretensão de colocar Maureen (ou seja, ela mesma, Kathleen McGowan) como uma "descendente" da "linhagem" de Cristo. E mais, alegando que dessa linhagem, desse pretenso casamento vieram todas as grandes, famosas, nobres e riquíssimas famílias da Europa e dos Estados Unidos. Bem, claro, não é mesmo?
Se Jesus Cristo foi a pessoa mais importante da História Ocidental, nada mais natural, para os cérebros deles (desse pessoal das sociedades secretas), que se colocarem como descendentes Dele. Uma bobagem após outra, alegam que Maria Madalena primeiro foi "casada" com João Batista... e depois de enviuvar, casou-se com Jesus. Desses casórios resultaram três filhos, ancestrais das maiores, mais nobre e mais ricas famílias do mundo ocidental. Oh, claro. Não podiam, os "descendentes" do Salvador, pertencer à plebe... Imagine. Logo de Jesus, o mestre da bondade, nascido em uma manjedoura, filho de uma família pobre (cujo pai era um carpinteiro), aquele que nos ensinou a maior lição de humildade do mundo. 

Eis alguns dos trechos que falam nesse elitismo (embora, a certa altura, McGowan contradiga isso, de maneira dúbia):
"— Espere um instante. Está querendo me dizer que a busca pelo Santo Graal era na verdade a procura pela mulher de uma profecia?
— Em parte, é isso mesmo. O filho mais novo, Yeshua-Davi, foi para Glastonbury, na Grã-Bretanha, com o tio-avô, o homem que ficou conhecido na história como José de Arimatéia. Juntos, fundaram o primeiro povoado cristão na Grã-Bretanha. Foi ali que surgiram as lendas sobre o Santo Graal.
Sinclair gesticulou para outra estátua, a alguma distância. Parecia ser a de um rei empunhando uma enorme espada.
— Por que você acha que o rei Artur era conhecido como O Único e Eterno Rei? Porque descendia de Yeshua-Davi. Até hoje ainda temos a nobreza britânica que descende dele. E há muitos também na Escócia."
E aqui:

 "Ele conduziu Maureen até a estátua, que dominava tudo ao redor. Era de uma jovem esguia, com cabelos lisos e soltos. Maureen teve dificuldade para falar. Sua pergunta foi pouco mais que um sussurro:
— Essa é a filha?
— Posso apresentá-la a Sara-Tamar, a única filha de Jesus Cristo e Maria Madalena? A fundadora das dinastias reais francesas. E nossa antepassada comum, há mil e novecentos anos."

E por aí afora. Eles alegam que praticamente todas as famílias reais da Europa, como os Médicis, os Habsburgos, os Bórgias, eram descendentes de Jesus e Madalena.

Boa parte da trama se passará na França, na região de Languedoc. Única coisa poética e bela da história, essa região do Languedoc me deixou curiosa. Procurei na internet algumas imagens, e não me enganei, de fato, o lugar é lindo.


Deixando de lado o lado preconceituoso do romance, e falando mais da trama em si, posso falar com toda a sinceridade que: 1 - É um enredo cansativo, forçado, sem a agilidade graciosa de Dan Brown ou de outros autores que exploram o tema "mistérios bíblicos"; 2 - Não tem ação, com poucas exceções; 3 - Os vilões são parcos e fracos; 4 - O romance todo cansa, pelo excesso de referências históricas e por bater, a cada três parágrafos, na mesma tecla: Maria Madalena, a pureza de sua linhagem, a nobreza de sua linhagem, a força de seu caráter, a importância de sua pessoa... é quase como se, afinal de contas, ela fosse uma deusa. Não Jesus Cristo, o Filho de Deus, apenas ela. Um tema obsessivo, cansativo, piegas.

A autora demonstra claramente sua intenção de cativar os leitores para o seu modo de pensar, para as suas crenças pessoais, com uma catequesa duvidosa, embasada em alegações sem prova alguma.

Um livro que demorei para ler, por ser chato demais, enjoativo e demasiadamente pretensioso. Não vou ler a continuação, nem que me paguem para isso.



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1 comentários:

Ritinha Sese disse...

Se é uma "heresia" moderna, não sei. Mas que é uma história pra lá de estranha, isso é... :/