Almiro Caldeira - Pinheiro, velas e fogueiras de Natal



HÁ QUARENTA ANOS se tanto, a árvore de Natal não tinha parte nos festejos natalinos do Brasil e de Portugal: seu uso era restrito aos povos germânicos. Acentue-se, contudo, que a tradição teuta do pinheiro de Natal  representa antiqüíssima herança de primitivos cultos às árvores, possivelmente comuns a todas as raças. Ainda que assim não fosse, ingrata seria a campanha de alguns folcloristas, brasileiros e portugueses, intransigentes defensores do nosso patrimônio de tradições, no combate que movem ao "pinheiro", tachando-o de esquisitice indesejável, estrangeirismo prejudicial à pureza e preservação dos nossos costumes. Porém, que são e como se formam os costumes? São eles estáticos ou dinâmicos? Não nascem, desenvolvem-se, cruzam-se, disseminam-se, abosorcem-se? O que hoje é nosso, legitimamente nosso, será ainda nosso, exclusivamente nosso, daqui — digamos— há duzentos, quinhentos mil anos?

E o que hoje cultuamos, reverentemente, como se encarnasse o próprio espírito da nacionalidade, não terá pertencido, algures, em tempos de que não ficou memória, a outras civilizações? Não procedem, pois, os motivos alegados em desfavor do pinheiro em nossas festas de Natal. Nem tão pouco as palavras de melancólico amargor com que portugueses vêm-no prestigiado entre os povos de cultura lusa.


O pinheiro

As árvores sagradas pertencem ao folclore universal desde o aparecimento do animismo. Para o homem primitivo, todos os seres que lhe pareciam viventes deveriam ter uma alma sujeita às mesmas necessidades e paixões do ser humano. Diante da inferioridade que naturalmente sentiu ao comparar sua própria força e virtude com as de certas espécies vegetais, ele se inclinou ao respeito, à veneração e ao culto desses seus "irmãos presos ao solo".

Segundo Frazer, de uma investigação feita por Grimm sobre as denominações teutônicas, deduz-se como provável que, entre os germânicos, os mais antigos santuários foram os bosques naturais. De qualquer modo — frisa — o culto da árvore está bem comprovado em todas as grandes famílias do tronco ário. Mas não lhe é privativo.

Tem-se notícia de rituais semelhantes em quase todos os povos primitivos. Os carvalhos, as pereiras e os pinheiros eram e continuam sendo considerados sagrados em muitos países, estando sua liturgia vinculada às festas solstícias. Celebram-se, comumente, a fecundidade e o vigor e aspira-se a obter a proteção do espírito da árvore contra todos os males, doenças, misérias, calamidades.
 
Talvez a mais remota homenagem do homem ao pinheiro refira-se ao costume chinês de plantá-lo nas catacumbas. O permanente viço da árvore em contraste com a
decomposição do cadáver sepulto a seus pés, possivelmente induzisse o mongol a um propósito de compensação ou reparação. Entretanto, é na lenda e no ritual do deus
Atis (Ásia Ocidental), o espírito corporificado no pinheiro, que vamos encontrar o maior paralelismo entre as cerimônias pagãs e cristãs em torno "da árvore nobre".

Os louvores a Atis tinham lugar nos festejos da primavera e é provável que, por sincretismo, passasse a figurar nas comemorações solsticiais, mais tarde encampadas pela festa do Natal. É de notar, de um modo ou de outro, a perfeição com que o Cristianismo se apropriou do culto pagão ao pinheiro, transformando-o em símbolo de Cristo. As qualidades que se celebravam o pinheiro — o viço permanente em oposição à inclemência hibernal, a inusitada força vencedora das mesmas leis naturais que subjugavam e feriam as demais árvores — foram transferidas ao Redentor de maneira exata e sem artificialismo: Jesus venceu o mundo e o poder do mal, mantendo-se puro e bom enquando a seu redor a impureza e a maldade maculava todos os homens, tal como o pinheiro, no inverno, conserva o seu verdor emmeio à devastação de todo o reino vegetal.

Velas e fogueiras

A igreja, sobrepondo às festividades pagãs em honra ao sol (solstício de inverno) a comemoração do nascimento de Cristo, teve em mira, ao que parece, matar a heresia
sem desagradar aos hereges: tudo estaria muito bem desde que, em vez do culto ao sol ou da adoração a divindades estranhas, o cerimonial celebrasse o advento do
Messias. É provável que, habilidosamente, houvesse declarado aos catecúmenos: "Não há mal em que continuem, nesse dia, a festejar o nascimento do sol (retorno), mas
o "novo sol", doravante, será o Cristo Redentor que Deus levantou dentre os homens para aquecê-los com o lume da justiça, purificá-los com o fogo do amor e guiá-los com a tocha da salvação".


E persistiram os fogos, os archotes, as fogueiras, já não há mais acessos com o fito de reverenciar o sol e ajudá-lo a espevitar a chama em declínio, mas em regozijo pela Nova Alvorada da Natividade Divina.

FONTE: Almiro Caldeira, em Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, ano 5, nº17-19, Florianópolis, dezembro de 1953, p.12-16.
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