Literatura - Dicas para quem escreve - 1



Revirando minhas pastas mais antigas, onde eu mantenho um arquivo físico de manuscritos, páginas xerocadas e impressas sobre a arte de escrever, resenhas de livros, listas com títulos e até contos inteiros copiados, relacionados a temas do meu interesse, encontrei  14 páginas datilografadas por mim, decerto da época em que eu ainda estava no ginásio! Foram certamente copiadas de algum manual antigo, que eu desencavei em alguma biblioteca e que contém informações muito interessantes, para autores novos (e também profissionais).

É pena que eu não tinha o hábito (que falta de cuidado!) de colocar a bibliografia consultada. Mas como na época eu era apenas uma adolescente que gostava de criar historinhas e achava que os apontamentos só serviriam para mim mesma... não é de estranhar.

Não lembro de quais livros copiei, mas como os considero muito úteis, vou digitalizar aos poucos para vocês que gostam de escrever, ou seja, os escritores e aspirantes a escritores.

A primeira parte fala do gênero literário "conto". Vamos lá.


O CONTO

Gênero literário que limita o relato de derminadas situações com desfecho de caráter humorístico ou trágico. São inúmeros os contistas famosos no Oriente ou Ocidente: Tolstoi, Gogol, Dostoievski, Korolenko, Tchekov, Bocácio, Cervantes, Hoffman, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Gower, Somerset Maugham, Charles Dickens, Kafka, Pirandelo, Conan Doyle, Artur Azevedo, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, etc.

Conto psicológico
Tipo de conto de caráter psicológico. Como exemplo: "O Alienista", de Machado de Assis.

Apólogo: Narrativa alegórica e moral, geralmente dialogada, em que figuram animais ou seres inanimados. Não deve ser confundida com a fábula. Vide na Wikipédia mais informações.

Conto policial
O gosto pelo conto e o romance policial inicia-se com o famoso Sherloch Holmes, de Arthur Conan Doyle. Outros famosos autores policiais: Agatha Christie, Edgar Wallace, Edgar Allan Poe, Sax Rohmer, Red Todhunnter (criou Nero Wolf e Archie Goldwin); Maurice Leblanc (criou Arsène Lupin);Gaston Leroux; Ian Flemming (criou o impagável James Bond); Cornell Woolrich (criou o capitão Keene): Lester Dent (criou detetive Oscar Sail e fez o gênero do conto policial tipicamente americano, duro, selvagem, violento). Lawrence G. Blochman (criou o Tenente Ritter): Craig Rice (criou o detetive John J. Malone); Dorothy L. Sawyers (criou o detetive Peter Wisnsey); G. K. Chesterton, que criou o padre detetive, Brown; Ellery Queen, com o detetive de mesmo nome. E no Brasil dos anos 60 destacou-se o escritor Luís Lopes Coelho, que criou o famoso delegado Leite.

Considerado como um subgênero literário, o conto policial está aos poucos conquistando o seu espaço na literatura de estilo, e até mesmo no Brasil, onde não existe a investigação criminal, propriamente, como se conhece na Europa - o estilo tem muitos adeptos.

Conto de ficção científica
Modernamente muitos autores se dedicam a este gênero, como por exemplo, Arthur C. Clark. No Brasil se destacaram Jerônimo Monteiro, Gastão Cruls, Rubens Teixeira Scavone.(1)

Conto de aventura
Gênero também muito difundido e que conta com grandes escritores. Arthur Conan Doyle, Robert E. Howard (que escreveu as aventuras de Conan, o Bárbaro), Robert Louis Stevenson, etc.

Conto fantástico (2)
O gosto pelo gênero 'novela terrorífica' iniciou-se em 1764, quando Sir Horace Walpole, ricaço ocioso, amante de antiguidades, retirou-se para um castelo gótico, onde escreveu o "O Castelo de Otranto". Sua ação discorria na Itália medieval e estava repleto de lances, artífices, personagens inverossímeis - fantasmas e usurpadores, passagens secretas e terrores sobrenaturais, elmos mágicos e castelos arruinados.

Muitos outros imitaram seu exemplo: William Beckford, outro aristocrata, ergueu também sua abadia medieval e escreveu sua novela gótica "Vathek" (3), publicada em 1782, ainda mais fantástico e descabelado que "O Castelo de Otranto". Combinava, numa complicada receita, o horror gótico, o exotismo oriental e a ironia voltaireana.
 

Mas foi no fim do século XVIII que as histórias de terror encontraram a mais habilidosa e a mais célebre das suas culturas na pessoa da Sra. Ann Radcliffe. Seus conco romances góticos, dos quais os mais conhecidos são "O Romance da Floresta", "Os Mistérios de Udolfo" e "A Italiana", obedeciam a um esquema mais ou menos fixo - havia sempre a heroína ingênua, o vilão desalmado e o castelo fantasmagórico. Respeitando embora as leis da verossimilhança (todos os mistérios encontram explicação lógica no último capítulo), a Sra. Radcliff tinha uma rara facilidade para criar ambientes fantasmagóricos e momentos de suspense, temperando-os com uma sentimentalidade bem ao gosto da época. Os críticos não lhe pouparam elogios.

O sucessor legítimo da Sra. Radcliff foi Mathew Gregory Lewis, que aos 19 anos escreveu uma novela escandalosa: "Ambrósio ou o Monge". Os críticos não apreciaram esse livro, que tem uma mistura incoerente de ingredientes góticos e atabalhoadoas lembranças de leituras de Goethe. A história é uma paráfrase, algo sensual, de Fausto.

O próximo escritor de contos góticos foi Charles Robert Maturin, autor de "Melmoth, o Peregrino", outra paráfrase do mito faustiano. A última representante de peso da novela gótica inglesa foi a suave Mary Godwin Shelley, mulher de Shelley, com o seu "Frankenstein", narrativa pseudocientífica, uma precursora da ficção científica.


O conto fantástico é o herdeiro das tradições legadas pela progênie dos contos góticos. Segundo B. Ifor Evans, a "novela de terror ou gótica leva ao submundo da ficção de crime e horror". O leitor moderno, porém, é um freguês difícil de satisfazer. As revistas e artigos de divulgação científica, ensinando-lhe o respeito à verdade objetiva, indispuseram-no para as fantasmagorias exageradas do "roman noir". Agora, é preciso dosar a pílula da fantasia com cuidado para que ele aceite engoli-la.

O fim primordial do conto (ou romance) de fantasia é mostrar a "irrealidade da realidade", de vez que ao leitor de nossos dias aborrece tudo quanto não traga a marca do real e do verossímil. Para Ray Bradbury, fantasia pura e simples, é fantasia pobre. Só quando adere à realidade, por um processo de 'osmose literária' é que a fantasia alcança qualificação estética. Sobrecarrecango sua narrativa de inverossimilhanças, empilhando o inacreditável sobre o inacreditável, o novelista perde o contato com o leitor, a quem deve, antes conquistar pela "casualidade" dos seus enredos.

O fantástico e o real devem estar de tal maneira entretecidos no argumento, que seja quase impossível isolar um do outro. Por fim, adverte Bradbury que um contista fantástico não deve aspirar a outra coisa que não seja induzi no leitor a sensação da "irrealidade da realidade". Se procurar inculcar-lhe, ao mesmo tempo, qualquer mensagem moralizadora, estará desvirtuando um gênero cujo maior encanto reside, antes, na capacidade de divertir que na de ensinar.

 

Dessa forma, em geral os contistas fantásticos oscilam entre dois polos. De um lado estão os contos que, pela dose mais ostensiva de fantástico "puro", se inserem diretamente  na tradição da novela gótica. Como exemplo, temos os seguintes: William Hines, Walter Poliseno, Spencer Whitney, E. F. Benson, Lafcádio Hearn, Jacques Casenbroot, Maurice Leval, Stephen Vincent Bénet, Bram Stoker (4).

De outro lado, temos os contistas mais ou menos fiéis ao esquema de Ray Bradbury, que cuidam de emprestar maior verossimilhança ao fantástico, entretecedo-o numa trama de pormenores realísticos. Exemplos: Nelson Bond, Holloway Horn, Russel Maloney, Adrian Algington, J. C. Furnas, Geraldo Bullet, Cristopher Isherwood (5).

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(1) Naturalmente, levando-se em conta que esse texto foi escrito há cerca de 20 ou 30 anos atrás, é natural não constar nele nomes recentes. Para saber mais sobre os pioneiros da fc no Brasil, leia essa página da Editora Devir.

(2) Naturalmente, esse tópico foi mais longo. Minha pesquisa foi mais a fundo, já que esse sempre foi meu gênero preferido. Na época (anos 70 a 80) o termo "literatura fantástica" englobava todos os subgêneros que conhecemos hoje em dia, como o terror, o gótico, o suspense e a fantasia juvenil.

(3) Leia uma resenha de "Vathek", aqui.

(4) Inclua-se aqui ainda: H. P. Lovecraft, Algernon Blackwood, Stephen King, H. G. Wells, Marion Zimmer Bradley, J. K. Rawling, J. R. R. Tolkien,  Stephanie Meyer e toda a moderna leva de escritoras de romances sobrenaturais, do mais 'light' ao mais 'hot' (erótico). E no Brasil, André Vianco e Nazarethe Fonseca, por exemplo.

(5) Inclua-se também: Robin Cook, Julio Verne, Peter Benchley, Michael Palmer, Clive Cussler, Frank de Felitta.
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2 comentários:

Pat Kovacs disse...

Apenas não concordo com o ponto de vista do autor que diz que não se deve mesclar Fantasia com ensinamentos morais. Concordo se tais ensinamentos forem algo didático, de cunho religioso, mas não se o caso for a inserção de ensinamentos ao longo da história, do tipo "a união faz a força", "o amor sempre vence" etc, algo que mostre que o livro ou texto não está ali apenas para mero entretenimento, mas que se presta a algo maior, que a história tem algo a dizer e não apenas para fazer graça.
Sou contra usar qualquer tipo de arte para mero entretenimento, sem mensagem, sem conteúdo útil.

Amor e Livros disse...

De fato!
Ray Bradbury falava isso numa época em que a fantasia era puro entretenimento e nada além disso. Lembra das séries "Star Trek", "Perdidos no Espaço", 'Terra de Gigantes', "Túnel do Tempo", "A Feiticeira"? Talvez vc não lembre, Pat, por ser mais jovem, rss. Eu lembro mto desseas séries, pois assistia qdo criança.

Hoje em dia esse conceito dele está de fato ultrapassado.
Fantasia, principalmente juvenil, deve passar algum ensinamento moral, com certeza! É uma maneira de ajudar, instruir, passar mensagens otimistas, orientar. Acho isso fundamental.
;)