Gilberto Freyre - Assombracoes do Recife Velho



Assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre
Publicada pela primeira vez em 1955, Assombrações do Recife Velho é uma obra literária dedicada inteiramente ao tema do sobrenatural no passado da cidade. Trata-se de um livro no qual Gilberto Freyre reúne histórias de assombração, resultado de 20 anos de seu interesse pelos fantasmas que assombram a capital pernambucana.


O QUE ACHEI:

Uma obra-prima brasileira sobre mitos, causos e contos populares do velho Recife. Segundo José Geraldo Nogueira, no seu prefácio:

"Vez por outra esse universo de lêmures explode com violência ou aflora com delicadeza, fraturando seu mistério a superfície cômoda e monótona das coisas que fluem disciplinadas. Assim, todos nós, todos, na infância ou longe dela, experimentamos já algum dia na vida o incontrolado tremor que uma alcova sombria, um brilho inesperado na treva, o murmúrio desgarrado e sem nome numa noite sem lua são capazes de gerar mesmo em seres civilizados, circulando no asséptico universo decodificado e computarizado da informática.
A vaga, inconfessada suspeita de que o outro-mundo pode solicitar-nos, sepultada embora na camada mais subterrânea do inconsciente, sabe ainda importunar a mente psicanalisada com toda a imponderável carga de primitivismo que a trama do inconsciente coletivo articula: vertentes pré-lógicas de um animismo que nos irmana ao selvagem e que a lucidez raciocinante apenas chega a exorcizar no adulto.
Fenômenos desse naipe em certo momento captaram a argúcia de Gilberto, levando-o a elaborar este roteiro dum Recife mágico, para sempre perdido. A maneira mesmo de relacionar-se com o inefável reino dos mortos é elemento da sociologia cultural: o fantasma de um castelo medievo da Escócia não pode ter costumes idênticos à alma penada que freqüenta um sobrado colonial brasileiro. Pois foi justamente o traço específico das assombrações recifenses que orientou Gilberto Freyre à recriação de tradições fantasmais acumuladas ao longo de três séculos.
Assombrações da colônia, do burgo ibero-católico-judaico-flamengo, da capital de província no Império, na 1ª República, refluem esses mitos populares e eruditos aos parágrafos encantados deste livro, acervo destinado a agregar-se a "le matin des magiciens".


Nesse livro de valor incalculável para o acervo de nossa História e cultura popular, e - por que não dizer - nosso misticismo, Gilberto narra os casos mais assustadores, famosos e curiosos de assombros, fantasmagorias e criaturas mágicas ou encantadas da antiga cidade do Recife.
 

 Confesso que li esse livro aos 20 anos, mas sem resistir, tive que reler agora, pois a primeira impressão fora ótima. Entretanto, para resenhar esse livro incrivelmente bem escrito e recheado de uma História do Brasil diferente (a do Brasil sobrenatural), precisei reler. E como da primeira vez, fiquei encantada - só um pouquinho assustada, devo confessar...

Os casos narrados por Gilberto foram pesquisados por ele, são casos contados por moradores antigos da cidade, amigos, conhecidos ou publicados em jornais antigos. São histórias que podiam ser transformadas - cada uma delas - em um outro livro ou filme, pois são muito originais e com o toque de terror primitivo e urbano do Brasil colonial ou do início do século.

Para terem uma ideia, aqui vai um trechinho:

"Uma rua inteira mal-assombrada

Da chamada avenida Malaquias, que liga as estradas de Dois Irmãos e do Arraial, e é hoje uma rua banal, já se disse que teve fama de ser ela inteira mal-assombrada. Ainda a conheci com suas velhas e grandes jaqueiras e mangueiras e quase sem uma casa por trás dos muros altos, onde de dia os moleques se divertiam traçando calungas e sinais obscenos. Os mais doutos, escrevendo palavrões de arrepiar a própria gente grande. Parecia a chamada avenida um resto de mata, fantasiado de rua; e a rua, uma caricatura de avenida.
Mais de um homem incauto foi assassinado à sombra daque-las jaqueiras tristonhas e gordas. Ficou célebre o assassinato do chefe da estação de Ponte d'Uchoa. Uma cruz de pau recorda ainda hoje esse crime.
No tempo da iluminação a gás, a chamada avenida Malaquias era o pavor dos acendedores de lampião. Mais de um acendedor correu gritando como um menino com medo, apavorado com as-sombração na avenida. Vultos brancos debaixo das jaqueiras ou espojando-se na lama: talvez lobisomens cumprindo o fado. Bichos estranhos às carreiras: talvez mulas-sem-cabeça. Mulas-de-padre, vindas do lado Capunga. E vozes. Vozes estranhas. Vozes do outro mundo. Uma, certo acendedor de lampião ouviu-a bem ao pé do ouvido. Obrigou-o a fala fanhosa de duende a correr como um doido para a padaria do Castor, sem mais querer saber de apagar lampiões naquele ermo.
Dizia a voz: "Não me deixes no escuro!" O que contraria quase tudo que se sabe a respeito de fantasmas. Os ortodoxos são amigos do escuro e inimigos das luzes de lampião e até de lamparina".



O livro fala das mais variadas assombrações. Em termos de literatura sobrenatural brasileira, eu colocaria esse livro de Gilberto Freyre como o nº 1, o primeiro e o melhor. Sem mencionar o fato de que além do mais, as narrativas são parte da História - a princípio, fatos reais. Assustadoramente reais...


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2 comentários:

Pat Kovacs disse...

Para mim foi nostálgico, embora não tenha vivido de fato nesta época (acho que não, rs). Como cresci ouvindo essas histórias de um Brasil rural que desaparece dia-a-dia, é com um gosto de saudade e melancolia que leio coisas do tipo... penso nas cidadezinhas que estão bem longe de nós, dessa "sifilização" que estamos imersos, nos tornando cada dia mais iludidos com modernidades artificiais e mais descrentes das coisas da natureza.
Esse livro de Gilberto Freyre (e outros) é mesmo uma preciosidade que, aposto!, não é mais editado. Para conseguir, só com sorte em sebos ou através de uma boa alma que o possua e digitalize para nós.
Quem sabe não possamos resgatar essas antigas lendas?

Amor e Livros disse...

É verdade, Pat. Não se fazem mais "assombrações" (literárias) como antigamente... esses causos e contos precisam ser resgatados, com urgência, antes que as nossas futuras gerações percam tudo isso, engolfadas pelo mar de informações e culturas estrangeiras. Hoje em dia, quem lembra dessas histórias, a não ser os mais idosos (ou cultos)? É hora dos autores novos começaram a usar esse grande cabedal de informação que nos foram legados pelos antigos. ;)