Escrever fantasia "brasileira" pode dar certo?


Pois é, esse artigo veio após uma busca no infalível Google, atrás de alguns termos do nosso folclore e nossa mitologia. Deparei-me, então, com alguns artigos excelentes, do blog "Almanacaria" e escritos por Di Benedetto.

Como esse assunto dá pano pra manga e era algo em que eu vinha pensando há muito tempo, resolvi falar um pouco disso aqui.

Nos artigos, Di Benedetto expressa sua opinião e diz por que escrever literatura ou RPG baseado nos mitos brasileiros (Curupira, Saci, Mula-sem-cabeça) não funciona. Ele sugere que tais mitos de nosso folclore pertencem a um tempo e a uma realidade que não nos pertencem mais. São mitos rurais, pouco conhecidos, antigos, alguns inclusive, muito sem graça... Bem, eu não os considero exatamente assim. Mas vou transcrever na íntegra alguns trechos do autor, e sugiro que os autores interessados em fantasia tipicamente nacional visitem seu blog.

"Então por que parece que essa tal “fantasia nacional” não engrena? Por que alguns de nós tem a impressão que ela “não funciona”? Por que intelectuais de boteco enchem a boca pra defender o valor do tal Curupira e quando o bicho se anima todo e acha que tem esperança agem como umas verdadeiras vadias deixando-o de lado, recusando-se a brincar com ele?

Por que somos babacas “colonizados” que não valorizam o que é seu e só gostam do que vem de fora? (Pensamento extremo). Por que a nossa cultura é tosca e inferior à de outros povos? (Outro pensamento extremo).

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que em parte significativa dos casos não dá certo porque bandeira alguma, por mais nobre seja a causa, é desculpa para má qualidade. Não adianta só escrever fantasia nacional. O autor precisa ser competente e entender a lógica do público para o qual está escrevendo.

Munhoz, Draccon, Caldela e Spohr na 57a Feira do Livro de Porto Alegre. Todos exemplos de autores nacionais de fantasia que se preocupam em atingir seu público.

Em segundo lugar porque é preciso que o autor de fantasia e RPG que escreve bem e sabe se vender para seu público sinta TESÃO por escrever essa tal fantasia nacional. (Para empregar uma expressão que o autor Leonel Caldela utilizou nessa entrevista aqui.)

É simplesmente errado discriminar e recriminar ficção, tão somente partindo do princípio que ela não segue determinado preceito ideológico. Se as pessoas gostam de ler ou escrever sobre vampiros “numa Europa que vive um inverno eterno” ou sobre um “reino mágico inspirado na mitologia japonesa” qual o problema?

Não se obriga ninguém a escrever nada.  (Seduzir seria uma estratégia bem melhor.)

"- Mano, tive uma ideia sobre um reino no gelo. Aí um mal ancestral desperta e..." "- Desculpe cara! Isso é uma infiltração da cultura colonial européia. Não podemos falar de climas frios. Somos um país tropical!" - "?!"

O problema parece ser então, na verdade, a falta de excitação que muitos sentem para ler e escrever coisas pautadas na mitologia nacional.  O que não está dando certo nesse relacionamento?

Tenho uma teoria. Ele se desgastou. Nosso tal “folclore” foi engessado.

Mitos fazem sentido para as sociedades e culturas que os inventaram. Enquanto as mitologias alheias foram constantemente recuperadas, modificadas, filtradas e renovadas pela possante indústria do entretenimento, a nossa ficou presa num rincão institucional, empoeirada.

As maiorias desses mitos falavam de um Brasil agro-pastoril de uma outra época, que já não é mais a nossa realidade. E simplesmente querer pegar esses mitos e fazer com que eles funcionem em uma outra lógica, sem traduzi-los ou reinventá-los não funciona. Ainda mais quando essas narrativas não existem isoladas e temos toda uma outra gama de narrativas disponíveis. É tão difícil assim aceitar que alguém pode achar Loki, o deus da mitologia nórdica (mas pode ser a versão da Marvel Comics) honestamente mais legal que o Saci-Pererê?

O que fazer então? Como revitalizar essa mitologia? Torná-la atrativa tanto para o leitor, quanto para o autor?

Talvez, não fazer nada. Ninguém deve sentir-se coagido a encarnar o salvador da pátria, vestir o manto do herói nacionalista por um infundado sentimento de culpa. Ainda assim, se alguém quer escrever a tal fantasia nacional e essa é uma proposta sobre a qual ele deseja criar, qual caminho seguir?

Seriam caminhos, é claro. No plural. Não existe uma única trilha. Mas como não gosto de falar de um problema sem apontar solução pensei  (modestamente) em três abordagens que,  acredito, poderiam ser interessantes."
LEIA O ARTIGO COMPLETO E OUTROS RELACIONADOS, AQUI.

Eu pedi permissão ao autor para citar seus artigos aqui, porque de fato fiquei muito curiosa com os artigos. São chamativos, interessantíssimos, principalmente agora, nessa época em que a fantasia e o sobrenatural parecem ter renascido no mundo da arte, da literatura e dos jogos. E como ele mesmo, eu me fiz a pergunta. Por quê a nossa fantasia nacional não engrena, não deslancha? Por que os autores brasileiros precisam recorrer aos mitos tradicionais e internacionalmente conhecidos, como vampiros ou lobisomens, ou mesmo a mitos estrangeiros - fadas, elfos, bruxos, magias 'arturianas', 'avalonianas', 'merlinianas', europeias, enfim?

Eu estava preocupada com isso, há muito tempo. Sou uma amante dos nossos mitos. Sempre fui fascinada pelas histórias do folclore brasileiro, e ao contrário da maioria das crianças, procurava nas bibliotecas livros sobre mitos e causos. Ouvia atenta as histórias de fantasmas, contadas por meus pais e avós. Li o que pude de Luís da Câmara Cascudo, Sílvio Romero, Monteiro Lobato e outros folcloristas. Até digitalizei um livro antiguo, "Do Bicho-Papão ao Lobisomem" e disponibilizei na net (está em domínio público). Enfim... eu goooosto de mitologia e sempre devorei livros e livros, tantos de contos como livros de enfoque mais didático ou erudito. O que importava, era conhecer.

E hoje em dia, vendo que os velhos mitos brasileiros estão sendo, pouco a pouco, substituídos por mitos estrangeiros (Avalon, Halloween, fadas, brownies e tals), comecei a ficar seriamente preocupada. Tanto que, para fazer a minha parte e colocar a minha "pecinha" nesse grande quebra-cabeças que é a literatura fantástica brasileira, escrevi diversos contos, todos baseados em nossos mitos mais tradicionais.

Eles falam, respectivamente, da lenda dos muiraquitãs ("O Muiraquitã") e consta no livro "Poções, Encantos e Assombrações", do Clube de Autores e Agbooks. O outro, sobre o Curupira  ("O Chamado da Floresta"), também incluso no mesmo livro.

Nessa arte digital, fiz um Curupira de acordo com a minha concepção do mesmo. Não um indiozinho verde, mas um "índio" de ar feroz e cabelos ruivos. Acredito que esse era o Curupira visto por Mariana, no meu conto "O Chamado da Floresta".

Outro enfoque das lendas brasileiras, fiz no livro inédito "Cainã no Reino dos Encantados", que ainda está em busca de uma publicação tradicional, mas que ganhou uma capa exclusiva, feita pela desenhista e escritora Pat Kovacs. O Saci ficou tão lindão, que ela o colocou como ilustração do seu blog, "Projeto Encantados" (sua própria série de fantasia, que não tem nada a ver com meu livrinho do Cainã, pois é uma série de fantasia adulta, enquanto a minha história é infanto). Vejam como é o Sacizão... ;-)

E eis a capa do livro, que a Pat fez para mim. Se a publicação não sair por uma editora tradicional, sairá a autopublicação para breve. :)

Enfim, estou colocando minhas "pecinhas" no jogo. E mais do que eu, outros autores brasileiros estão lançando suas "peças" e obras de excelente qualidade estão surgindo no Brasil.

Mas esse já é assunto para outros posts... nos quais falarei em breve.


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5 comentários:

Tenshi Aburame disse...

Muito interessante o artigo. Muito interessante mesmo.
Me fes lembrar um pouco da antiga série de TV que passava na Cultura, Catalendas... Já ouviu falar ou assistiu algum episódio? Não lembro muito bem porque eu realmente era pequena, mas eu gostava e muito.
E isso também me ajudou a resolver aparecer mais alguns personagens do nosso folclore em alguma série/livro meu... O Boto-cor-de-Rosa já apareceu xD Com licença poética, mas apareceu xD Depois de ler esse artigo, estou sentindo os outros gritarem para serem descobertos em alguma dimensão longínqua... É isso! Vou procurar Catalendas por aí pra lembrar todos os nomes e assim pesquisar mais para usá-los de modo legal...
E acho que já sei em qual história utilizá-los *-*
Abraços, continue vindo com artigos bons \o/

Jossi Borges disse...

Oi, Tenshi! Infelizmente não conhecia esse série de TV, talvez porque não tenha sido transmitida pra cá (em moro em Curitiba). Mas acredito que todo e qualquer material, seja televisivo, impresso, virtual, etc., que trate dos nossos mitos e lendas, é super válido.

Ah, você é escritora? Nos deixe links dos seus sites, blogs ou perfis sociais, ok? Queremos conhecer seus trabalhos! E se vc escreve sobre mitos brasileiros, uhuuu! Melhor ainda! Temos que reviver nosso folclore e ressucitar nossos mitos.

Tenho digitalizado um livro antigo sobre folclore brasileiro, se quiser, deixe seu email, que lhe envio.

Abraços! :)

Tenshi Aburame disse...

Oie, Jossi ^^
Uma pena, realmente, porque parece inclusive que a série foi exibida em outros países... u.u'
Realmente, são todos válidos!

Bem, o único livro completo está sendo postado no meu blog www.teoriasdeconspiracao.blogspot.com . Ainda não terminei de postar porque estou assinando as páginas pra registrar na BN, mas como tambem foi de fato o primeiro livro que escrevi e muitas ideias me foram surgindo enquanto o escrevia, apesar de gostar muito dele, sei que tem muito pra eu evoluir à partir dele. E é nele que os Botos-cor-de-rosa aparecem xD E ele é mais uma mescla de vários mitos... Não sou muito de me concentrar apenas em uma mitologia... Meu melhor amigo fala (brincando) que eu fumo alguma parada muito louca, por causa das ideias que aparecem xD

Opa! Aceito sim! manda pra esse email aqui, belinhabiele@hotmail.com

Já estou pensando no roteiro do livro que vai usar mais ainda os mitos brasileiros. ^^

Abraços!

Pat Kovacs disse...

Oi, Jo!
Compreendi o que o autor dos artigos quis dizer e tenho que admitir que concordo com ele, embora a primeira vista, sem considerações, ele pareça estar desmerecendo o nosso folclore.
De fato, não vivemos mais um país rural. As lendas daquela época se mostram tolas aos dias de hoje.
E o que falta?
Realmente falta a reciclagem. E é necessário, para reciclar, ousadia e criatividade. E escrever, criar, sem estar preocupado se X ou Y vai gostar.
Também concordo com ele quando diz que ninguém deve escrever de tal forço por coação. Escrever, que é um ato de criação e geração, como tal, tem que ser feito com tesão, senão não rola.
Os nossos seres fantásticos, os nossos causos de terror e fantástico, muito bem podem ganhar novas roupagens, feitas com graça e talento, e ficar mano-a-mano com qualquer outra criação de fora.
Youkai são demônios horrendos da mitologia japonesa, mas hoje eles são seres belos e, alguns, até bondosos nas mãos de autores contemporâneos.
Vampiros e lobisomens são bestas horrendas, mas hoje estão glamurizados, seduzindo meninas!
Pois é isso. Seu autores não tiveram melindres ao recontar e recriar os mitos.
E se decidimos cair dentro do folclore brasileiro, igualmente não devemos nos melindrar e nos aguilhoar aos conceitos de cada criatura fantástica ou cada lenda. Devemos RECRIAR.
Já vi um desenho de Saci em que ele usava uma perna mecânica... e aí, não é o Saci repaginado?
Bjoxxx!

Amor e Livros disse...

Oi, Pat!
Sim, você falou tudo! Como o amigo do site "Almanacaria" disse, podemos usar os nossos mitos mas de uma maneira modernizada. E você disse bem: Reciclar. Não precisamos nos ater aos antigos contos das vovós, sobre as Cucas e Bruxas, rs (apesar de que, na verdade, eu a-do-re esses contos fantásticos, do jeitinho que minha mãe e minha avó contavam, rs). Tem uma série americana de tevê (claro, tem que ser estranja, porque nossos cineastas e autores de novela só escrevem o nhenhenhe de sempre, esposas traídas, malandragem e jogos de gato-e-rato, onde nem se sabe mais quem é vilão, quem é mocinho...). A tal série chama-se "Grimm". É toda baseada nos contos de fada dos Irmãos Grimm, e cada episódio "reconta" uma das fábulas. O primeiro episódio é sobre "Chapeuzinho Vermelho e o Lobo", mas a série é totalmente moderna, e não existe uma só "menininha", mas várias jovens vítimas, todas usando roupas vermelhas... É uma maneira de modernizar velhos contos.
Podemos usar as lendas e nossos mitos, aliás, como você fez no seu excelente "Projeto Encantados", onde você situa os mitos no contexto atual, vários dentro de grandes metrópoles brasileiras. E faz, inclusive, um mix, usando mencionando as religiões afro-brasileiras e seus deuses e outros mitos, brasileiros alguns, universais outros. Tudo isso com ótimos resultados!

Bjos, amiga!
:D