Carlos Ruiz Zafon - Marina


Na Barcelona dos anos 1980, o menino Óscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 1940. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Oscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças – a macabra aventura que marcou sua juventude, o terror e a loucura que cercaram a história de amor.

Editora: Suma de Letras
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Número de páginas: 189

O QUE ACHEI:

Depois de ouvir uma tonelada de comentários favoráveis, e leitores e leitoras dizendo que "é emocionante demais", "obra-prima", "maravilhoso", achei eu devia ler, pois opiniões assim, unânimes, são mais ou menos raras no meio literário.

Para começar, descobri Zafón há uns dois anos, em um site de livros espanhóis, e pela resenha de alguns de seus livros, vi que se tratavam de obras mistas de fantasia-suspense-sobrenatural, um tema que me cativa de cara. Como leio pouco literatura estrangeira que não seja inglesa ou norte-americana, achei que era hora de conhecer a arte literária espanhola.

Comecei a pesquisar sobre outros livros, e decidi começar por "Marina".
O início é realmente curioso, e o estilo dele, recheado de lindas metáforas (que me lembram um pouco o estilo do saudoso gaúcho Simões Lopes Neto), dão relevo e brilho à narrativa. Você não só entra na história, mas "toca" objetos, cores e sensações.

Leia-se alguns trechos:
"Naquele dia, nos céus de Barcelona, o fantasma de Gaudí esculpia nuvens impossíveis sobre um azul que dissolvia o olhar. "
"Quinze anos depois, a memória daquele dia voltou para mim. Vi aquele menino vagando entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina se acendeu de novo como uma ferida aberta."
"Um som celestial invadiu as sombras do jardim como um perfume. Ouvi os contornos daquele sussurro desenharem uma ária acompanhada ao piano. Era a voz mais bonita que eu já tinha ouvido na vida."
A Fairy Tale, by MiniCarl - Deviantart.com


Óscar Drai vive num internato e um dia, sem querer, resolve percorrer as ruas desertas do bairro Sarriá - quase um bairro-fantasma, cheio de mansões abandonadas e conhece a jovem Marina, e seu pai Germán.
Através dela, Óscar vai conhecer um mundo completamente novo e diferente daquele em que vivia, entre as paredes mofadas do seu internato.

A narrativa tem um teor gótico, em que a Barcelona dos anos 70 é descrita como uma espécie de Londres do século XIX, úmida, sombria e cheia de velhas mansões, cemitérios, catedrais e ruas obscuras e perigosas. Esse tom e esse cenário se encaixam perfeitamente na temática principal, que seria o enredo sobrenatural da história.
Romantic terrace, cuenka


Dessa parte eu gostei, principalmente porque a dupla de jovens, Marina e Óscsar, irão dar uma de detetives, procurando descobrir o que escondem as sombras de um velho galpão cheio de criaturas saídas dos pesadelos... e nessa busca, vão viver uma aventura alucinante e terrível, que, porém, é pura fantasia.

O que não me agradou, foi o desfecho e as últimas páginas.

Deixando a temática principal - o sobrenatural - o realismo duro e frio que o autor irá desenvolver nas últimas páginas será uma espécie de ducha fria na imaginação dos leitores. Não gostei dessa última parte, embora não tenha deixado de me emocionar um pouco. Entretanto, quem procura por um livro de fantasia, quer fantasia, do começo ao fim, certo? Achei que o mix de fantasia pura e realismo duro, no contexto geral, foi inesperado e deixou um travo amargo, resultando em um desfecho desagradável, embora bonito (no sentido de ter sido "bem escrito").

Mas, eu sempre me pergunto: Para quê realismo nos livros, se a nossa vida já o tem o suficiente? É justamente para fugir disso que procuramos livros de ficção e fantasia, não é?

 
Então... acho que Zafón podia ter culminado a história de uma maneira menos realista e mais alegre, apesar de todo o 'terror' vivido pelos jovens na sua aventura no reino sobrenatural.

Mesmo assim, é um livro ótimo. Nota 8, e não fosse o realismo do final... seria 10.


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