Catherine Gaskin - O Vaso Partido [atualização]


Tudo começou com o ruído inesperado de cristal esfacelado... "O Vaso Partido", resenha


Título original: Edge of glass

Catherine Gaskin

Ano: 1987

Páginas: 250

Editora: Record


Sinopse:

Tudo começou com o ruído de cristal esfacelado... Maura D'Arcy é jovem e bonita, com uma promissora carreira de modelo, e descobre ser a ultima descendente da família Sheridan, vidreiros famosos. Viaja então para Conclath com o fito de reclamar o vaso de cristal que fora roubado de sua mãe.
Em Conclath, Maura encontra sua avó, mulher forte e autoritária, Connor, seu primo, homem misterioso e sombrio, e Brendan Carrol, que exerce sobre ela forte atração... mas ela sente-se dividida... entre os dois irlandeses, sua vida em Londres, e seu compromisso com a família Sheridan.

A RICA HISTÓRIA DO VIDRO IRLANDÊS

O Vaso Partido é um mais do que um romance no estilo gótico -- como todos os dessa autora --, é também um pedacinho da história da Irlanda. Eu mal conheço (por meio de leituras e pesquisas) a velha Inglaterra, quanto mais a Irlanda. Sei, entretanto, que são terras habitadas por um povo bravo, corajoso e estranho, até certo ponto.

Esse livro eu comprei quando tinha quinze ou dezesseis anos, numa das livrarias mais badaladas de Curitiba, na Rua XV. Eu estava alegre porque tinha ganhado minha mesada e ia gastá-la comprando o que eu mais amava (e amo): livros. A capa linda, como a maioria das capas de romance da Editora Record (e até os de banca, naquele tempo), me chamou a atenção de imediato: Um casal charmoso, vestido à moda dos anos 1970, o homem com ar austero, a moça de longos cabelos castanhos-acobreados esvoaçantes, tendo ao fundo um castelo medieval, mergulhado nas névoas invernais do oeste europeu.

Uma cena belíssima e a sinopse, igualmente atrativa, me fizeram comprar o livro, que guardo até hoje.


Considero esses antigos bestsellers "retrô", como clássicos modernos. A história contada por autores como Catherine Gaskin, Daphne Du Maurier, Harold Robbins, Agatha Christie, Aldous Huxley, Boris Pasternak, Christian Jacq, Eileen Goudge, Frank G. Slaughter, F. Paul Wilson, George Orwell, Howard Fast, Irving Wallace, Judith Krantz, Ken Follet, entre outros, são atemporais: Suas descrições de lugares ou cenas históricas são ricas e bem detalhadas, os personagens são profundos, com conflitos psicológicos que nos fazem refletir sobre a conduta humana e seus debates entre moralidade e imoralidade, entre a ideologia falsa e a verdadeira, entre amores profundos e paixões passageiras. O que não ocorre hoje em dia, em tempos de "livros descartáveis" como certos livrecos sobre vampirinhos-do-bem, homens-lobo, adolescentes possuidoras de superpoderes, etc. Enfim, enredos que poderiam virar histórias em quadrinhos e entreter adolescentes -- com pouco a acrescentar, além de uma rápida distração.


Nesse romance, Maura D'Arcy é filha de uma mulher, cuja mãe a rejeitou no passado por causa de um problema familiar. A mãe de Maura já morreu, mas sua família ainda vive na remota Conclath, Irlanda. Ela descobre que é a última Sheridan (ou Tyrell, que é o sobrenome da antiga aristocracia da região), e será levada por acontecimentos inesperados a viajar para a velha mansão Meremount, em Conclath.

O enredo traz à tona dois homens: o primo de Maura em terceiro grau, Connor, moreno e sombrio e o jovem Brendan Carrol, loiro e descontraído. A vida em Meremount fará com que Maura mergulhe na história daquela decandente senhora, Lady Maude Tyrell, sua avó, e todos os desacertos, sofrimentos, aventuras e desventuras pelas quais ela passou, e junto com ela, todos que habitam a velha e arruinada mansão.
É uma trama sombria e maravilhosamente entretecida de pequenos recortes históricos da Irlanda, da história do vidro, sua fabricação, seu feitio manual, seus tipos, os homens que trabalham com ele (vidreiros), etc.

'— Imagine só — disse ele. — Plínio conta a história de uns mercadores que, milhares de anos antes de Cristo, acamparam nas areias do rio Belus. Eles colocaram as suas tigelas quentes de comida sobre alguns pedaços de natrão que estavam levando, e de manhã viram que o calor dos potes havia fundido a areia e a soda, formando vidro. É uma história boazinha, mas acho que a comida deles devia ter ficado bem estorricada para que os potes ficassem tão quentes. Isso é vidro feito pela mão do homem. Mas tem também o vidro que vem da natureza, obsidiana negra; há montanhas inteiras desse material. As tribos antigas do México barbeavam-se com isso, e sacrificavam as suas vítimas para os deuses com facas feitas desse material. Mas foram os egípcios que fizeram o primeiro vidro de que temos notícia. Eles tinham todos os ingredientes necessários: areia, soda e combustível dos bosques de acácias, e pessoas ricas o bastante para pagar por um material tão caro. No começo faziam vasilhas e garrafas formando uma fusão de sílica e soda em volta de um centro de argila e areia, que podia ser retirado quando a fusão já tivesse esfriado e endurecido, ficando um recipiente oco de vidro opaco. Eles continuaram a usar esse sistema por muito tempo, até que alguém descobriu que a fusão líquida poderia ser colocada na extremidade de uma haste oca de ferro e soprada, fazendo uma bolha, e que esta bolha poderia ser soprada em moldes para que formas idênticas pudessem ser feitas. Isto era uma espécie de produção em massa, e o vidro tornou-se relativamente barato. Reaquecendo a bolha fundida todas as vezes, que ela começava a esfriar e endurecer, eles descobriram que podiam mantê-la em um estado que permitia que trabalhassem nela, e poderiam fazer com ela o que quisessem: esticá-la, apertá-la, amassá-la, cortar, rasgar... Veja só...'
Também mostra dramas pessoais que dividem os personagens, como o drama vivido por Connor e Lotti, o drama vivido no passado por Blanche D'Arcy e o rompimento entre ela e a austera Lady Maude, os habitantes de Conclath, entre outros.
 

'— Não! — eu disse. — Isto é que é mentira! Todos os anos em que eu permaneci uma estranha foram por culpa sua, Lady Maude. Eles não precisavam ter existido. A senhora teve 23 anos para fazer de mim uma neta. Preferiu não fazê-lo.
— A sua mãe me traiu! Você acha que eu iria querer você enquanto a influência dela estava lá para destruir e corromper todo o bem que eu iria fazer? Sim, corromper! Blanche não era melhor do que esta outra, a sua filha, Herr Praeger. Blanche me traiu e a todo o futuro dos Tyrell por causa de um homem. Então esta outra veio e não apenas corrompeu o que havia de bom aqui, mas tentou roubá-lo de mim. E agora a minha neta... Mas ela já pertencia à sua laia; quase nem precisou ouvir as mentiras antes de acreditar... Eu errei em ter esperanças. Eu errei em pensar que, por ser uma Tyrell, ela seria diferente da mãe, diferente de todas essas moças estúpidas, corruptas e egoístas que há aí hoje em dia.
Ela descansou as duas mãos na bengala. Era uma bengala de homem, comprida, mas não grande demais para a sua altura, com uma cabeça de leão de prata no castão. A cabeça leonina e a velha pareciam fazer parte do mesmo mundo, selvagens e orgulhosas, agarradas à vida.
— Bom, chega de alimentar esperanças Esta foi a última vez que me traíram. Onde não há esperança, há pelo menos paz. [...]
Nenhum de nós se moveu ou falou. Havia uma tristeza terrível naquela cena: a sua subida vagarosa pelas escadas; e, contudo, era também uma cena maravilhosa. Fiquei pensando, de pé, sem ousar ir ajudá-la, sabendo que iria logo dar de cara com o seu desprezo, a sua rejeição final, que esta seria a última vez que veria esta velha demente, vivendo ainda como uma aristocrata quando todo o código que orientava a sua vida havia sido transformado em nada no correr deste século. Senti, também, uma tristeza por mim mesma, uma vaga sensação de perda, contudo era a perda de alguma coisa que eu nunca conhecera. Ela estava certa. Eu não dera nada a ela; ela não me devia nada. Ela também saía perdendo. '
Um livro rico em todos os sentidos: uma narrativa ágil, simples e, ao mesmo tempo, perfeita em retratar uma época, a história de uma aristocracia falida e de um estilo de vida que já não existe nos dias de hoje: Nostalgia, muitas reflexões, é o que esse livro proporciona. Além de um bom suspense, é claro.
Se você gostou da resenha, poderá adquiri-lo somente em sebos, já que não há reedições, o que é uma pena.

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4 comentários:

Arismeire Kümmer Silva disse...

Tenho este livro, mas o meu favorito dela é A Governanta :-)

Jossi Borges disse...

Oi, Aris! Temos gosto parecido. Eu também A-DO-REI "A Governanta"! Um romance de amor, suspense, drama e aventura. Lindo!

Arismeire Kümmer Silva disse...

Hehehehhe, pois é, temos gostos parecidos sim. Além destes dois eu gosto de Herança Maldita e Um Falcão para a Rainha :-)
Bj, Aris.

Jossi Borges disse...

Então, Aris! Também li "Herança Maldita", e "Um Falcão para a rainha" está na fila, hehehe. Estou lendo agora "A Herança Tilsit", e a resenha tá saindo do forno. É uma ótima autora, com poucos livros que eu deixei de gostar. A maioria deles é bem escrita e são muito profundos, com lances psicológicos bem bolados!
:)