Agatha Christie - A Mina de Ouro

Uma coletânea de contos de suspense, que incluem tanto histórias detetivescas, como histórias com toques sobrenaturais. Sim, Agatha Christie também escrevia suspense sobrenatural!


O QUE ACHEI:
O livro inclui os seguintes contos:

A Mina de Ouro
O Mistério de Lorde Listerdale
A Moça do Trem
A Bravura de Edward Robinson
Jêine Procura Emprego
Um Domingo Frutífero
A Esmeralda do Rajá
O Canto do Cisne
O Cão da Morte
A Cigana
O Lampião
O Estranho Caso de Sir Andrew Carmichael
O Chamado das Asas
Flor de Magnólia
Não Fosse o Cachorro

Vou falar dos contos que mais chamaram minha atenção:
- A MINA DE OURO embora seja a que dá título ao livro, é uma historinha mais ou menos bobinha, que não me agradou. Tem um tom levemente humorístico, mas não prende muito.

-O MISTÉRIO DE LORDE LISTERDALE
Uma história bem melhor, com um mistério que faz jus à sua autora genial. Uma senhora da classe média inglesa, acostumada a uma vida próspera e digna, passa a ter de viver quase na miséria, com os dois filhos jovens. Um acaso do destino, porém, a leva a poder alugar uma mansão magnífica, pertencente ao célebre Lorde Listerdale, desaparecido há anos... o aluguel é uma bagatela, e nada tira da cabeça de Rupert, filho da senhora, que há sacanagem naquele negócio. Talvez o Lorde tivesse sido assassinado... será?

- A MOÇA DO TREM

Ben-Hur Baz - Elegant black gloves

A história de George Rowland, um "mauricinho" dos anos 50, que acaba de perder a tutela do tio rico e se encontra no maior miserê de sua vida. Até que encontra uma bela moça em um trem, que lhe pede para ocultá-la dentro de sua cabine. Pode parecer um conto previsível, mas não deixa de ter o toque genial da rainha do mistério, com o final inesperado de sempre.

- JANE PROCURA EMPREGO

Pintura de VictorTchetchet
 
Jane está desempregada, e folheia o 'Daily Leader' desanimada, quando um anúncio de emprego, depois de vários dias de infortúnio, lhe chama a atenção: 
"Você é moça de 25 a 30 anos de idade, tem olhos azul-escuro, cabelo bem louro, pestanas pretas, nariz reto, corpo esbelto, 1,67m de altura, talento para representar e sabe falar francês?"
Hoje em dia tal anúncio seria um verdadeiro outdoor para vagas a... garotas de programa, certo? Mas na época - anos 50 - talvez não fosse beeem assim. Tanto é que Jane lá se foi, alegre e lépida, tentar a tal vaga. O conto é num tom bem humorado, e até se pode dar algumas risadas com a má sorte de Jane. Muito bom!

- A ESMERALDA DO RAJÁ

James Bond, mais um personagem azarado e do tipo conformista, segue a namorada Grace até um balneário da high society, embora ele mesmo seja um pé-rapado, e tenha de se conformar com o hotel mais barato. Ela, a esnobe, estava deixando claro que preferia uma vida mais elegante, e chegou ao ponto de ignorar o namorado, para dar atenção a um novo admirador ricaço.
James vai passar por várias pequenas humilhações por causa dela, até que um incidente e uma aventura inesperada vai dar a oportunidade a ele de encontrar um caminho para a... aristocracia inglesa. Graças a esmeralda do Raja de Maraputna.

- O CÃO DA MORTE
 
Aqui começam os contos mais ou menos sobrenaturais, muito bons, por sinal. Nesse, Agatha Christie mostra todo o seu talento para criar bons enredos, que englobam tanto mistérios corriqueiros e comuns, quanto sobrenaturais.

Neste conto, William Ryan é um rapaz que, no final da II Guerra, conhece um convento na Bélgica, onde uma freira com poderes paranormais realizara um grande proeza. Ou milagre, como diziam os camponeses do lugar.

Anos mais tarde, em visita à sua irmã na Cornualha, William terá o privilégio de rever a religiosa, que segundo sua irmã, estava com "neurose de guerra". Através de um psiquiatra famoso, William ficará conhecendo um pouco mais do misterioso "cão da morte", a figura que ficou impressa nas paredes do convento, depois da intervenção da freira a um ataque, e de outros mistérios, tais como a "Casa de Cristal", signos, civilizações perdidas, etc. Um conto arrepiante.

- A CIGANA

É um curioso conto de amor sobrenatural, que li três vezes, e ainda hoje gostaria que virasse um filme de suspense. Daria um filme excelente, se fosse mais longo.
Macfarlane e Dickie Carpenter são dois jovens, amigos há muito tempo. E o primeiro vai ouvir a história do segundo, a respeito do lhe aconteceu e do por que ele sempre tivera aversão a ciganos.

Parece que uma cigana de lenço vermelho sempre estivera presente na vida de Dickie, desde sua infância. Ou era uma mulher morena, que lhe aparecera pouco antes de uma acidente - como um misterioso anjo a prenunciar desgraças - ou nos sonhos. Até que ele conhece Esther Lawes, uma belíssima moça, e se torna noivo dela. Entretanto... no mesmo dia em que ele revê a amada, conhecerá também outra mulher, uma loira de beleza etérea, chamada Alistair Haworth. E a partir daí, uma sucessão de eventos estranhos irão revirar a cabeça do jovem Carpenter.

Um conto lindo, onde o amor, o mistério sobrenatural e a crença na reencarnação se misturam. Esse trecho, principalmente, é muito interessante:

''Macfarlane ficou intrigado. Ela continuava olhando  fixamente para ele.
       — Pensei que compreendesse... Devia compreender. O senhor  dá impressão de que também tem...
       — Tenho o quê?
       — O dom... a maldição... dê-lhe o nome que quiser. Creio  que o senhor tem. Olhe bem para aquele buraco no meio das  pedras. Não pense em nada, só olhe... Ah! — exclamou, reparando  no leve sobressalto que ele teve. — Então... viu alguma coisa?
       — Deve ter sido minha imaginação. Por um instante me  pareceu que estava cheio de...  sangue!
       Ela concordou com a cabeça.
       — Eu sabia que o senhor tinha. Aquilo ali é o lugar onde  os antigos idólatras do sol sacrificavam as vítimas. Eu descobri  isso sem precisar que ninguém me dissesse. E tem horas que sei  exatamente a sensação que eles sentiam — quase como se eu mesma  tivesse presenciado tudo... E há qualquer coisa nesta charneca  que me dá impressão de que já estive aqui antes... como se  estivesse voltando para casa. Claro que é natural que eu tenha  esse dom. Sou uma Ferguesson. Existem casos de vidência na minha  família. E minha mãe foi médium até casar com meu pai.  Chamava-se Cristine. Era bastante conhecida.
       — A senhora entende por “dom” o poder de ver as coisas  antes que aconteçam?
       — É, antes ou depois... tanto faz. Por exemplo, eu vi o  senhor se perguntar por que me casei com Maurice... vi, sim! Não  adianta negar! Foi simplesmente porque sempre pressenti que  havia qualquer coisa horrível pairando sobre ele... Quis  salvá-lo dessa ameaça... As mulheres são assim mesmo. Com esse  meu dom, posso impedir que isso aconteça... se for possível...  Não pude ajudar o Dickie. E ele não quis compreender... Teve medo.  Era muito moço.
       — Tinha vinte e dois anos.
       — E eu tenho trinta. Mas não foi isso que eu quis dizer.  Há tantas formas de se dividir; pelo comprimento, pela altura e  largura... mas dividir pelo tempo é a pior de todas...
       Ficou muito tempo calada, pensativa.'

Um belo conto romântico, adorei.

- O LAMPIÃO


A Sra. Lancaster aluga uma casa que, pelo preço do aluguel, devia ter algum defeito, segundo ela pensava. E de fato, tinha: era mal-assombrada.
Como fosse uma mulher prática e materialista, a sra. Lancaster não deu ouvidos ao corretor de imóveis, quando esse lhe confessou que os antigos moradores se queixavam de ouvir um "choro de criança", devido ao que acontecera há tempos atrás. Aqui vai a narrativa:


— Uma criança?
— É. Não sei exatamente como foi a história — acrescentou, relutante. — Existe, lógico, uma porção de versões diferentes, mas parece que há uns trinta anos, mais ou menos, um sujeito chamado Williams alugou-a. Ninguém o conhecia. Não tinha empregados nem amigos e raramente saía durante o dia. Mas era pai de um garotinho. Quando já fazia uns dois meses que morava aqui teve que ir a Londres, e mal chegou à cidade, alguém o identificou como um homem “procurado” pela polícia, não sei bem sob que acusação. Mas devia ser coisa grave, porque ele preferiu se matar com, um tiro de revólver a se entregar. Enquanto isso o menino continuou morando aqui, sozinho na casa. Durante algum tempo teve o que comer, esperando diariamente que o pai voltasse. Infelizmente, haviam-lhe recomendado que jamais, sob qualquer hipótese, saísse ou falasse com alguém. Era uma criança fraca, doente, e nem pensou em desobedecer. De noite, os vizinhos, ignorando que o pai estivesse ausente, muitas vezes ouviam o pobrezinho soluçando na terrível solidão e tristeza da casa vazia.
Senhor Raddish fez uma pausa.
— E... e... o garoto morreu de fome — concluiu, com o mesmo tom com que poderia ter dito que tinha começado a chover.

Mesmo assim, a sra. Lancaster aluga a casa, sem imaginar as terríveis consequências que isso traria para ela, seu pai, e para... seu filhinho Geoff.

"O pequeno Geoffrey vinha descendo com passo lento e sereno, tomado de assombro infantil pela casa nova. Os degraus eram de carvalho envernizado e não possuíam tapete. Ele se aproximou e ficou de pé ao lado da mãe. Senhor Winburn teve um leve sobressalto. À medida que o menino atravessava o recinto, ouviam-se nitidamente outros passos na escada, como se alguém o estivesse seguindo. Passos arrastados, estranhamente penosos. Encolheu os ombros, incrédulo. “Deve ser a chuva”, pensou.


O final é arrepiante!
Enfim, o livro tem outros contos, mas esses acima são os que mais gostei. Nota 10!





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1 comentários:

Aris disse...

Aqui escreve uma viciada em Agatha Christie. Tenho quase todos os livros e alguns deles já li umas cinco vezes :-D
Bj, Aris.