Magali - Yasmina, a filha do Sheik

Yasmina, A Filha Do Sheik

Vivendo em Paris, onde reside em companhia da aeromoça Berenice, Yasmina vê ruir seu sonho de amor, ao ser seqüestrada e entregue, na Tunísia, aos braços de um homem cruel com quem fora forçada a casar e de quem fugira. Separada de Berenice, cujo noivo desaparecera juntamente com o avião que pilotava, Yasmina sente realizar-se, sob o sol do Oriente, um sonho de amor iniciado na França.

Título do original: "L'HOMME DES PISTES"
EDITORA TECNOPRINT S.A., 1976
Romances Coleção Rebeca - Ediouro

O QUE ACHEI: Eu sempre gostei dessas antigas coleções denominadas "Romances Rebeca", que eram meu sonho de consumo, na infância.

Comecei a ler aos 7 anos e não parei mais, e quando tinha cerca de 10 anos, conheci as coleções Ediouro: Livros dos mais diversos temas, em formato de bolso e preços acessíveis. Folhetos com fotos e sinopses de livros eram distribuídas nas escolas, para estudantes de primeiro grau, e eu, naturalmente, lia-as e sonhava em adquirir todos aqueles livros.

Consegui alguns, apenas... infelizmente. Na infância, foram pouquíssimos os dessa coleção de 'romances góticos' que cheguei a ler. Conseguia ler outros livros, como livrinhos de aventura da dupla "Bira e Calunga" ou da jovem "Diana detetive", mas nunca consegui adquirir um da coleção Rebeca.

Hoje em dia, graças à tecnologia e a internet, consegui localizar os livros que tanto quis ler na infância. E, para minha surpresa, todos os que li nada tinham de infantil. São romances leves, mas quase todos foram bem escritos, em linguagem muito moderna para os anos 60/70/80, e que podem se comparar, em qualidade, a qualquer moderno romance da Harlequin Books. Se não forem melhores ainda.

Esse livro da autora 'Magali', conta a história de Yasmina, uma jovem da Tunísia, que vivia emancipada na Europa. E de repente, se vê frente a frente com seu irmão Ahmed, um homem que não aceita os novos costumes e considera as mulheres como a maioria do povo árabe de então (e talvez de hoje): mero objeto de troca entre as famílias, escrava do homem.

Yasmina é levada de volta à Tunísia, e lá, entre o cenário familiar, as quentes dunas do deserto, camelos e fortalezas inexpugnáveis de sheiks obstinados, ela entrevê uma esperança... uma pequeníssima esperança de fugir de novo e retomar sua liberdade.
O livro é bem escrito, e nota-se que a autora escreve com conhecimento de causa. Veja esse trecho em que ela pensa, revoltada,  sobre o machismo oriental:

"Ali, naquela região protegida por seus djebels, suas montanhas, e suas dunas de areia, o homem permanece rei. Todas as mulheres da casa estão a seu serviço: sua mãe, sua esposa, suas irmãs e suas filhas.
As estruturas sócio-familiares que faziam da mulher escrava desde tempos imemoriais ainda estão terrivelmente presentes neste Sul onde a família e a tribo conservaram uma influência preponderante. Apesar da supressão oficial da poligamia, há chefes de tribo refratários à lei que continuam a manter um harém, a comprar mulheres como se compra um animal doméstico, e algumas famílias sentem-se muito honradas com este tráfico. Porque, para os conservadores obstinados e fanáticos, a lei imutável de Alá é a única que existe. Toda mutação os encontra insubmissos e recalcitrantes. Permanecem apaixonadamente ligados à velha sociedade tunisiana e a seus fundamentos ideológicos.
Mina pensou em todos esses problemas que de certa forma ignorou enquanto vivia livremente na França, como suas irmãs civilizadas. Eles lhe pareceram deprimentes, e o desejo de se libertar, de arrancar-se a essa dominação de uma outra época, de escapar ao irmão e à tribo, tornou-se mais vivo em seu coração atormentado.
Aícha veio para perto dela, e apoiou os cotovelos sobre o parapeito de pedra. Estavam sozinhas naquela parte da casa, pois os homens comiam e se divertiam no pátio, servidos por servos diferentes e apressados.
- Eles têm uma reunião esta tarde - confiou-lhe Aícha em tom de mistério. - Vi as mulas dos homens que desciam o djebel. Akdar talvez esteja entre nossos visitantes - completou ela, sonhadora.
Mina atirou-lhe um olhar onde o desdém se misturava a uma piedade indulgente.
- Você continua fascinada por esse personagem que jamais viu, sequer?
- Oh! Eu o vi, entre os outros. Tem um belo porte, vestido em sua gandoura, a blusa sem mangas que traz sob o albornoz, e um olhar de fogo.
- O que chama de um olhar de fogo?
- Bem... Ele tem os olhos brilhantes e um ar imperioso, cheio de autoridade. É um chefe.
- E você deseja tornar-se uma pequena coisa anuente e submissa, sob as ordens desse fanfarrão, contente de servir de presa a um tal tirano?
A pequena arregalou os olhos, surpresa, e considerou sua irmã com perplexidade.
- Você diz palavras que não compreendo. Como você é estranha, Yasmina. Não se parece com pessoa alguma daqui.
- Felizmente - resmungou Mina, envaidecendo-se como se acabasse de ouvir o mais belo dos cumprimentos.
- Você mudou tanto! - suspirou Aícha.
Mina voltou-se bruscamente.
- Todo mundo muda. E nosso país também deve mudar - acrescentou com ar resoluto."

Um belo romance, que traz, a um tempo, a magia das paisagens árabes e uma pitada de aventura, bem como uma exortação contra as antigas práticas da cultura onde o homem, fosse quem fosse, era sempre o rei.
Nota 10.






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