A Curacanga - José Jorge Leite Soares

José Jorge Leite Soares

NOS CAMPOS e nos alagados de Pinheiro a Curacanga era temida por todos. Um fogo azul, avistado ao longe, deslizava feito pluma carregado pela brisa morna das noites de verão. Dito pelos mais velhos, era coisa do além. Diziam que quando uma mulher tem sete filhas, a última delas vira Curacanga. Sua cabeça sai do corpo e, à noite, assume a forma de uma bola de fogo que sai girando à toa pelos campos atemorizando a quem encontrar.

            O Fogo-fátuo dá origem a muitas superstições populares. Os mais antigos amedrontavam as crianças dizendo tratar-se de espíritos malignos que perseguem os viajantes. Há quem os considere como presságios de morte ou desgraças.

            Os cientistas (coitados deles, nunca viram uma Curacanga…) explicam o fenômeno do Fogo-fátuo como uma reação química espontânea, proveniente da queima do gás metano, gerado pela decomposição de substâncias orgânicas. É uma bola de fogo frio, de cor azulada, e intensidade fraca que se torna mais intensa, quanto mais escura for a noite.

            Vizinho à minha casa morava um velho chamado Mariano Chagas. Seu filho tinha um nome estranho: Prodamor. Quando lhe perguntavam o porquê daquele nome, era respondia que o menino era o produto do amor de Mariano e Maria Amélia, sua mulher.

            Tinha eu cerca de seis a sete anos, quando certo dia o velho Mariano Chagas amanheceu enforcado em sua própria casa. Muitos garantem que ele foi assassinado. Confesso que nós, seus vizinhos, não ouvimos nada de suspeito nessa noite fatídica.

            A partir desse dia, durante as noites, eu não passava, nunca, em frente à velha casa dele. Dava volta inteira no quarteirão. Morria de medo! E se a Curacanga aparecesse lá do fundo do quintal?

 

Fonte:

José Jorge Leite Soares

 http://herasmoleite-ph.blogspot.com

 

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