Martha Argel - A Noite do Voyeur



A Noite do Voyeur
Martha Argel


     ELE ESTÁ LÁ.
     Ela se aproxima da janela, e erguendo os braços começa uma dança sensual, ao som da música que diz que cada coisa tem seu tempo. Mesmo daquela distância ela sabe que o coração dele bate mais forte. Ela conhece o homem que a vigia. Ela o compreende. Ele, seu brinquedo.

Ela fecha os olhos e deixa-se levar pela música para o centro da sala, onde pés descalços afundam no tapete espesso.

     Há semanas ela sabe que toda noite ele estará àquela janela, por trás da luneta, observando-a, sabendo-se percebido e sabendo que, assim como ela tem a atenção dele, ele tem a dela. Jogo à distância, dois jogadores com movimentos diferentes e objetivos diferentes, mas um só jogo.

 E há semanas ela brinca com ele. Veste-se para ele. Escolhe suas vítimas para ele. O homem gordo, o adolescente cheio de espinhas, o velho trêmulo, o mendigo andrajoso. Mais que petiscos, palavra que uma noite ela lhe sussurrou ao ouvido, eles são instrumentos. Qual o escandaliza mais? Qual o excita mais?

     Toda as noites ela tem dançado, corpo ondulando num ritual hipnótico, a mira mais nos olhos dele que nos do amante fugaz, nunca o mesmo, sempre igual.

     No meio do ato de sedução, em que a sedução em si é apenas parte da diversão, ela desafia o espectador distante, e o chama para si, venha, venha para a festa, sinta o prazer que apenas imagina, esteja aqui no momento do êxtase.

     Ele jamais aceita essa provocação.

     Ela se delicia com isso: de sua janela indiscreta, separado dela pela escuridão, noite após noite ele compartilha, na intimidade falsa criada pela luneta, o momento em que suas carícias atraem a vítima para o prazer final. Quando um beijo fatal marca o início do fim de mais uma vida anônima, e ela tem seu momento de prazer supremo, ela o sente devorando-a com os olhos, com a imaginação, com volúpia.

     E depois do prazer ela se ergue nua, banhada em sangue, e vai até a janela, onde se mostra a ele por um instante breve, sopra-lhe um beijo e puxa as cortinas. Fim do show.

     Toda noite.

     Nesta noite, enquanto dança de olhos fechados, invadida pela música, há o tempo de nascer, há o tempo de morrer, ela adivinha, mais que sente, quando o executivo de olhos nervosos e terno cinza, futuro cadáver, vai para o quarto, obedecendo sem saber ao comando irresistível dado por ela horas antes, quando eu dançar descalça, faça como ordenei.

     Ela adivinha com os olhos da mente o desespero do homem que a possui através da luneta, quando ele pensa ter descoberto que a vida dela corre perigo: o executivo escondendo uma estaca, veículo da morte para seres como ela, sua intenção trespassá-la no auge da paixão.

Ela adivinha, ainda, uma tentativa já prevista de alertá-la pelo telefone, tornada fútil quando, ainda por ordem sua, o aparelho é arrancado da tomada pelo executivo.

Ela sorri. Esta noite o homem da luneta aceitará seu convite.

~ o ~ o ~ o ~

     Golpes desesperados na porta, e ela está sorrindo ao abri-la, ao deparar-se com o homem ofegante que tenta dizer-lhe… Ela o impede pousando um dedo sobre seus lábios, e o puxa pelas mãos para dentro da sala, sabendo que o tem totalmente enfeitiçado. Por sua beleza, por seu perfume. E pelo desejo que brota dentro dele próprio, e que o faz tremer de excitação.

     Ele tenta dizer, há um assassino em sua cama!, mas ela o cala com um beijo profundo, e colando ao corpo dele o seu, ela o guia para dentro do ritmo da música. Ele se entrega, e ela sabe que para ele o mundo se vê reduzido aos lábios dela, ao perfume dela, à pressão do corpo dela.

     Ela nota o momento em que ele escapa do transe tempo suficiente para se lembrar, e não o retém quando ele se solta de seus braços, e corre para o quarto, e vê…
… o executivo, morto, com a estaca que ela lhe cravara no peito.


~ o ~ o ~ o ~


     Ela acorda no meio da tarde e se espreguiça, degustando a sensação boa que perdura depois de uma noite de prazeres perfeitos.

     O homem da luneta se foi há horas. Sem se lembrar, por arte dela, sequer de ter vindo. Na memória dele, esta terá sido mais uma noite de voyeur, apenas.

    Foi bom tê-lo. Ter dele o amor de um mortal. Resistir a tê-lo como aos outros.

   Conter-se, eis a brincadeira, o desafio excitante, conter-se nessas tantas noites em que repete a pequena encenação para ele, e o faz vir a ela tomado de pânico. Nas quais tira dele apenas beijos, abraços, carícias e orgasmos. Algum dia ela vai se cansar. E ele então vai se lembrar, mas por pouco tempo – apenas até que ela lhe tome, até o fim, seu sangue, e sua vida.

Martha Argel
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NOTA DA AUTORA: Este conto foi escrito em maio de 2001, com base no conto Lucila, a vampira, com o qual Adriano Siqueira homenageou meu personagem.

Na verdade, hoje em dia a Lucila não agiria dessa forma tão leviana, nem que estivesse maluca. Ela me contou que essa cena se passou na já distante década de 60, quando  ela ainda não se preocupava muito em esconder da polícia seus rastos. Mas logo a coisa já começaria a mudar, como se nota em Uma vampira em Curitiba, que se passa poucas semanas após esta história que você acabou de ler.
A noite do voyer está incluído em meu livro O vampiro de cada um, que reúne 13 contos de vampiros.

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 Fonte: 
Conto cedido pela escritora Martha Argel, conheça seus blogs e sites:

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