Taylor Caldwell - Médico de Homens e de Almas


Sinopse:
A Bíblia apresenta São Lucas como o médico de coração generoso, bem instruído e autor de um dos evangelhos e do Livro de Atos. Lendas antigas o descrevem como uma pessoa fora do comum, a quem são atribuídos milagres e prodígios antes mesmo de sua conversão ao cristianismo. Em 'Médico de homens e de almas' Taylor Caldwell combina estas duas imagens de um dos mais importantes da igreja cristã primitiva, caracterizado pela constante preocupação com o sofrimento de enfermos, oprimidos e pobres. A autora pesquisou a vida e as obras de Lucas durante anos, e as descreve de forma romanceada num livro rico em detalhes históricos e de narrativa emocionante.

Ano: 2012
Páginas: 699
Idioma: português 
Editora: Record

UM ÉPICO HISTÓRICO E CRISTÃO
Hoje farei uma resenha que foge um pouco ao tema desse blog: romance histórico, que vale a pena conhecer.

Lucas ou Lucano, era um médico grego, nascido em Antioquia - antiga Síria

Como vou descrever o que senti, durante a leitura desse profundo, poderoso, colorido e comovente drama histórico? Será que posso classificar esse livro enorme e muitíssimo bem escrito, como bestseller? Até posso, com uma observação: A maioria dos romances de Taylor Caldwell foram, há décadas, classificados assim, mas hoje podemos dizer que se encaixam entre os clássicos. Já estou me preparando para pegar outro drama histórico, "O Grande Amigo de Deus" (a história romanceada de Paulo, o apóstolo). 

A autora capricha nas descrições, que são vívidas, palpitantes, quase melódicas, quase pinturas, tal é a impressão de nitidez e de tal forma somos transportados para dentro da história! É como sentíssemos na pele as aflições de Lucano (ou Lucas, o evangelista), durante os seus anos de ateísmo, depois de incredulidade e, finalmente, do homem que encontra o que sempre buscou. É como se em cada página, rica de episódios comoventes, se desenhassem as cenas de um filme cuja intensidade e profundidade nos prendessem a elas. Vejam essa descrição:


Antioquia, como sempre, era um turbulento lodaçal de cor, calor e fedentina. Novas frotas vindas do Oriente e de outras terras estranhas mantinham-se no porto azul e fulgurante, suas velas brancas e vermelhas palpitando contra o céu. As ruas estreitas, curvas e empinadas, retumbavam de vozes estrangeiras, e em todas as portas, em todas as passagens e becos calçados de pedras, apareciam rostos morenos e vorazes, soavam palavreado profano, gritos, risos e exclamações. As lojas fervilhavam. Os gritos dos mercadores deixavam os demais ensurdecidos. Camelos queixavam-se, bigas passavam em disparada ruidosa. Asnos zurravam, e havia um cheiro quente de carne assada, vinhos, acidez, e de especiarias em bolsas aquecidas, ao longo das ruas. Judeus, sírios, sicilianos, gregos, egípcios, tessalonicenses, negros, gauleses, bárbaros de várias procedências  e metidos em roupagens estranhas caminhavam ou esbarravam uns nos outros por todas as ruas, levantando nuvens de espessa poeira tranca que a luz do sol tocava. Havia, aqui e ali, discussões acaloradas e brigas e edifícios pálidos e brilhantes salientavam-se no ar. Crianças brincavam nos caminhos de veículos e animais, xingavam os que os conduziam ou montavam, e pediam esmolas, suas faces impertinentes bronzeadas de sol.
Lucano gostava da cidade fulgurante e ela o excitava. Viu homens e mulheres entrando em pequenos templos de coluna, com pombas e cabritinhos sob o braço. Viu as flâmulas brilhantes e sentiu o cheiro do feno aquecido e a pugência do pó. Teve esperança de que Keptah o levasse à taverna favorita do médico, mas este passou por ela sem sequer lhe dirigir um olhar. Soldados romanos namoricavam moças vestidas de cores vivas, e sentiam-se particularmente atraídos pelas que usavam véu no rosto. Pilheriavam com as jovens, e olhos escuros relampagueavam à luz do sol. O ruído era uma presença palpável no ar quente e picante, que trazia em si um odor de alho e excrementos.
'

As descrições são minuciosas, tanto as físicas como as psicológicas e isso, para um leitor apressado ou que prefere digerir o 'fast food' da literatura descartável de hoje, poderá ser "cansativo". Não considerei o livro cansativo, em nenhum momento, já que a autora sabe dosar períodos de intensa atividade das personagens, com pequenos dramas familiares ou grandes catástrofes sociais e/ou naturais. Também polvilha a narrativa com sua graciosa maneira de embelezar tudo: Tudo para Taylor Caldwell tem sua beleza, quase todas as mulheres são belas à sua maneira. Os homens tem seu lado cativante ou que atrai o leitor, com exceção do personagem de Herodes Antipas, que ela faz questão de mostrar em toda sua fealdade, física e espiritual. Até o controverso Pôncio Pilatos ou o imperador Tibério, descrito por historiadores como irascível e brutal, nas tintas de Taylor Caldwell parece mostrar-se em toda sua fragilidade humana, com defeitos compreensíveis (ao esperto Lucano, quando conversa com o imperador) e até algumas qualidades.

Enfim, um dos principais personagens na história, quase um segundo protagonista, é Jesus de Nazaré -- o Deus Desconhecido encarnado, como diria o professor de Lucano, Keptah. Jesus não irá surgir na história de súbito, nem Lucano tampouco terá a felicidade de conhecê-lo pessoalmente, mas sim aos poucos, através das narrativas de personagens secundários: Primeiro, será o Deus Desconhecido, a quem os antigos gregos sempre homenageavam ou faziam libações, um Deus misterioso, que ninguém conhecia direito, quase uma névoa espiritual; porém sempre e sempre presente. Depois, Lucano ouvirá falar que "o Deus misterioso dos antigos iria nascer no mundo dos homens", depois ouvirá relatos estranhos de gregos, sírios, romanos sobre um misterioso 'rabi' nascido entre os judeus... E continuará descrente e sentindo-se vazio e incompleto. Até chegar o dia em que o conhecerá, mesmo que através de narrativas, dentre essas, a da própria Maria, mãe de Jesus.


Outro personagem cativante, grandioso e por quem o leitor sente intensa simpatia, é o tribuno Diodoro Cirino, pai de Rúbria, o primeiro amor de Lucano e senhor (ou 'patrão') de seu pai, o liberto Enéias. Diodoro encarna a velha estirpe dos romanos sérios, viris, cujos princípios morais estão à frente de tudo, inclusive e principalmente, dos apetites mais baixos próprios dos homens "fracos e afeminados", como ele diz, da época.

Esse trecho, quando Diodoro fala diante do Senado romano, é especialmente atemporal e parece ter sido escrito por algum autor brasileiro: Substitua-se a palavra "Roma", por Brasil; "romanos", por brasileiros; "césares", por "líderes de partidos", "império" por "república" e "Palatino", por "Brasília":

"Abriu a túnica no peito, e a armadura tombou ao solo, retumbando:
- Olhai para as minhas cicatrizes, para a evidência dos meus ferimentos! Vós, senadores, vós, canalhas, vós, mentirosos perfumados, olhai para os meus ferimentos! Vós, velhacos e ladinos, que vos deitais sobre sedas ao som das liras e sob o murmúrio das mulheres prostitutas e dissolutas, e das concubinas compradas... Olhai para os meus ferimentos! Estão eles em vossa carne lisa? Há ferimentos semelhantes em vossos corações que traem Roma a cada movimento respiratório e levam-na para o inferno com cada lei?
Virou lentamente seu peito nu e coberto de cicatrizes, para que todos o pudessem ver. Era uma visão terrível, e alguns dos senadores mais velhos cobriam os olhos com as mãos.
A voz de Diodoro ergueu-se e estava mais profunda em gravidade e força:
- Tais feridas estavam na carne do senador que enviastes à morte naquele dia. Não com uma espada honesta, não com um estoque embotado, mas com mentiras e condenações, com ostracismo e com silêncio. Porque ele ousara amar sua pátria, e ousara tentar salvá-la de traidores, assassinos, ambiciosos e mentirosos! Seu coração partiu-se e não houve conforto para ele.
“Poderíeis vós confortá-lo, vós que traístes vossa pátria e sustentastes vossos traiçoeiros césares? Ousaríeis confortá-lo, vós, cujas línguas envenenaram seu próprio sangue e o levaram à morte? A ele, o único que amava seu país e inocentemente acreditava que também vós amásseis vosso país?
Diodoro tornou a bater na estante, e agora pareceu a alguns senadores que o próprio Marte produzira aquele som em seus ouvidos.
- Deixai-me comover vossos corações! Exclamou ele. – Ainda não é tarde demais! O curso do império conduz apenas à morte. Senadores, olhai para mim! Ouvi com vossos corações, e não com vossas mentes malévolas. Voltai à liberdade, à frugalidade, moralidade, à paz, a Roma. Não penseis mais nos que vos elegeram naqueles cujos ventres exigem, para se satisfazerem, o próprio sangue de Roma, a própria carne de Roma, o ouro duramente ganho de Roma. Não vos inclineis mais diante de falsos Césares que desabando nossa própria Constituição, lançam mandatos contra o bem-estar de Roma e colocam-se acima da lei que nossos pais formularam, e pela qual ganharam suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra.
“Roma foi concebida com fé e justiça, e na veneração de Deus, e em nome da varonilidade do homem. Devolvei esse país ao governo da lei e derrubai o governo dos homens. Restaurai os tesouros. Retirai nossas legiões dos países estrangeiros que nos odeiam, e que nos destruirão num relance, assim que isso sirva aos seus interesses. Repeli os impostos que esmagam os que trabalham dura e industriosamente. Dizei às multidões que devem trabalhar ou morrer à fome. Arrancai do próprio Palatino as massas de parasitas, aproveitadores e ladrões! Arrancai do Palatino os mesquinhos libertos que dizem "sim, sim" a César, e se inclinam diante dele como se fosse um deus e não um ser feito de carne humana! Limpai este local dos velhacos, charlatães e demagogos que declamam frases arredondadas, dizendo que o bem-estar do povo está dentro de seus corações, mas que realmente querem dizer é que farão a vontade das turbas em troca de seus aplausos, poder e suborno! "

Enfim, o livro é um grande épico. Comovente em todos os episódios da vida e da busca incessante de Lucano, o jovem médico grego, filho adotivo de um tribuno romano, que se tornou cristão e um dos mais famosos e amados santos da Igreja Católica.


Jay Anson - 666, no limiar do inferno

Sinopse:
O casal Keith e Jennifer volta pra casa após curtas férias e, atrás de seu quintal percebe uma casa que não estava lá antes: um casarão vitoriano que foi transportado até lá enquanto viajavam. Acontece que a casa não é necessariamente abençoada: ao investigá-la, Keith descobre que o antigo morador assassinou a amante e o cunhado lá dentro. Mas a casa causa certas sensações estranhas nele, justificadas conforme o desenrolar da história. Uma série de acontecimentos estranhos se inicia.

Resenhando...
O livro é de terror, o clássico terror à la anos 80. Notei alguns comentários pela internet, aqui e ali, reclamando que o livro de Jay Anson "666" não era "tão bom quanto Horror em Amityville", ou que o autor segue um caminho muito bonitinho, retinho, que leva a um final brusco e previsível, lembrando os velhos filmes de terror dos anos 80. Oras, mas se o livro FOI ESCRITO na década de 70, como poderia ser diferente? O que querem os leitores, se o autor, além disso, era roteirista de cinema? É natural que sua escrita seja homogênea, simples, rápida, sem estilo mesmo, exatamente como um roteiro de filme. Aliás, nem tão "simplista" assim, porque o livro é bastante agradável de ser lido, justamente porque lembra -- ou nos faz imaginar as cenas de -- um filme. 


Outra característica que os leitores atuais depreciam, é a temática do livro (que julgam ser muito 'batida'): a história de uma casa assombrada, famílias sofrendo com o assédio demoníaco, um mistério, crimes, tudo isso envolto por uma atmosfera 'cine-terror', do tipo que mete medo, mas a conta-gotas. 

Pois justamente por tudo isso é que a história é facilmente compreendida, daí tornando a leitura fluída, rápida e viciante: você começa a ler e de repente, está às voltas com uma casa, um chalé estilo vitoriano (bem igual aos dos filmes clássicos de terror) e que é transportando, ou seja, tirado de uma cidade e levado em cima de algum gigantesco veículo, para outra cidade. O número 666 é o número da casa fatídica. Quando Keith entra no tal chalé, começam os incidentes, o mistério se adensa; outros personagens começam a participar da história. Em pouco tempo, o leitor "desliza" pela trama com tal facilidade, com tal leveza, que é impossível não se sentir na pele dos protagonistas.


O que posso resumir da escrita de Jay Anson? Ótima para quem gosta de terror, principalmente para quem prefere o terror clássico e a linguagem simples, direta, porém sem perder o tom sombrio e os arrepios típicos desse tipo de literatura, que eu classificaria como bestseller gótico. 


Nenhuma das sofisticadas reviravoltas de Stephen King aqui, nada do old gothic de Edgar Allan Poe ou dos terrores ancestrais de Lovecraft: Mas não deixa de ser um prato cheio para quem gosta de um bom terror, com direito a casa assombrada, casal ou família simpática como protagonistas, um bom padre que quer ajudar e um tremendo, horrendo, Mal que supera a todas as expectativas.

Coelho Neto - O Morto


Memórias de um fuzilado...
Livraria Chardron, Porto, 1912.

O AUTOR: Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta.  Usou entre outros os  seguintes pseudônimos:  Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés. 

Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado.

 

Coelho Neto - A tapera [conto]


Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor (cronista, folclorista, romancista, crítico e teatrólogo), político e professor brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras onde foi o fundador da Cadeira número 2.

Foi considerado o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", numa votação realizada em 1928 pela revista 'O Malho'. Apesar disto, foi consideravelmente combatido pelos modernistas, sendo pouco lido desde então, em verdadeiro ostracismo intelectual e literário.

Nas palavras de Arnaldo Niskier: "A vitória do modernismo se fez como se houvesse necessidade de abater um grande inimigo, no caso, Coelho Neto."
Fonte: Wikipédia

Em boa parte de sua prosa ficcional, atualmente pouco lida ou estudada, percebem-se elementos góticos, como nas narrativas em que descreve o sertão como palco de eventos violentos, aterrorizantes e sobrenaturais.


Seu conto “A tapera”, publicado na Revista Brasileira (1895) e, posteriormente, no seu livro Sertão (1897)". Fonte: sobreomedo.wordpress.com


Stephen King - O Iluminado


Stephen King - O Iluminado
Ano: 2005
Páginas: 581
Idioma: português 
Editora: Objetiva

Danny Torrance não é um menino comum. É capaz de ouvir pensamentos e transportar-se no tempo. Danny é iluminado. Será uma maldição ou uma bênção? A resposta pode estar guardada na imponência assustadora do hotel Overlook.
Em 'O iluminado', quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da família parecem estar solucionados. Não mais o desemprego e as noites de bebedeiras. Não mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny livrar-se das convulsões que assustam a família.
Só que o Overlook não é um hotel comum. O tempo esqueceu-se de enterrar velhos ódios e de cicatrizar antigas feridas, e espíritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel é uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente à disseminação do mal.

ANÁLISE...
Um livro que tive que ler duas vezes, porque é tanta coisa a ser absorvida, tantos pequeninos detalhes a se encaixarem no mosaico imenso que compõe o drama Overlock x Iluminado, que uma só leitura nos deixa ainda meio perdidos, algumas coisa podem ficar obscurecidas (embora importantes no todo) por outras, algumas cenas podem ser esquecidas (quando mais para frente, no livro-continuação, Doutor Sono) serão relembradas. Muito bem, é um baita livro de terror.

Danny Torrance é uma criança adorável, um menino por quem sentimos empatia imediata: doce, gentil, de uma graciosidade e obediência aos pais, que nos toca o coração. O fato de ele ser praticamente o protagonista e um dos que mais sofrem (nesse livro e no próximo, como já disse: Doutor Sono), é muito compreensível.
Dan Lloyd, quando criança, interpretando Danny Torrance, e hoje, adulto

O pai, Jack (interpretado no filme O Iluminado de Stanley Kubrick, por Jack Nicholson) não causa empatia, de início e são vários os motivos: é uma pessoa complexa, com temperamento instável, ex-alcoólatra, embora esteja em fase de recuperação e seja sinceramente apaixonado pela família. Esse fato, aliado ao seu empenho em conseguir um emprego bom, que garanta a segurança e futuro de seu pequeno Danny e sua amada Wendy, é ponto a seu favor: no livro há toda uma ênfase nesse lado generoso e dedicado de Jack, em que ele se esforça para esquecer a bebida. Ao seu parecer, trabalhar num grande hotel na temporada de inverno, em que o mesmo fica isolado entre as montanhas e totalmente sozinho com a esposa e o filho, é uma maneira de ganhar seu dinheiro, dar tempo a si mesmo - principalmente para esquecer o maldito vício - e se dedicar a escrever um livro.
Jack Nicholson, como Jack Torrance no filme 'O Iluminado'

Wendy é uma personagem mais neutra que os dois primeiros, embora todas nós, mulheres, mães e esposas, nos identifiquemos com ela. É uma mãe que adora seu pequeno menino, que tem "aquele dom": Dom este que Jack, mais frio, mais calculista, menos sensível, não percebe. Mas mãe é mãe, e Wendy sente mais do que nunca o cordão umbilical da sensibilidade materna, sussurrando-lhe ao ouvido sobre os dons paranormais de Danny. Ela sabe que Danny é especial, lê pensamentos, sabe coisas, prevê coisas. E quando o hotel e toda a sua carga maligna de fantasmas, de terrores passados que retornam, se ergue diante deles, ela também sabe que só Danny poderá enfrentar tudo aquilo.

O personagem do Sr. Hallorann também é empatia imediata: adorei essa personagem é o cozinheiro do hotel, um homem negro, alto e simpático, que imediatamente sente que o pequeno Danny, afinal, é como ele: outro "iluminado".
"Hallorann observava com seu largo sorriso aos poucos murchando.
Não creio que haja alguma coisa aqui que o possa ferir.
Não creio.
Mas, e se ele estivesse errado? Sabia que esta fora sua última temporada no Overlook, desde que vira aquela coisa na banheira do quarto 217. Fora pior do que qualquer desenho em qualquer livro, e, olhando daqui, o menino correndo parecia tão pequeno...
Não creio.
Seus olhos voltaram-se para os arbustos em forma de animais. Ligou o carro bruscamente, engrenou-o e saiu, tentando não olhar para trás. E é claro que o fez, e naturalmente a porta estava fechada. Tinham entrado. Era como se o Overlook os tivesse engolido."
Entretanto, havia sim, algo que poderia feri-los no terrível hotel, com um passado sangrento. 
O estilo de King, na descrição da lenta, muito lenta e muito assustadora mudança de personalidade de Jack, das visões de Danny, dos fantasmas e da 'maldição' que habitava aqueles corredores suntuosos, os quartos e suítes de luxo, os jardins com seus animais de topiaria -- vivos? E a violência insuflada por "aquelas coisas".

Durante todo o desenrolar da história ficamos na dúvida: Afinal, o que seriam aquelas "coisas" todas? Gente viva, gente morta? Fantasmas perdidos por causa de sua maldição e sua miserável vida na terra e que agora queriam uma desforra? Ou o próprio edifício -- paredes, argamassa, tijolos, lajotas, móveis, chão, telhados -- enfim, aquela entidade física que se tornara quase viva?


O final é aterrador, como todos os livros de King. E vale a pena cada linha!

Detalhe: O filme que já citei acima, de Stanley Kubrick (1980) não chega aos pés do livro. Comecei a assistir e fiquei desalentada com a interpretação de Jack Nicholson, com aqueles olhos de drogado psicopata e aquelas cenas nonsense, em que ele abraça sem nenhuma ternura o filho. 

Detestei a atriz Shelley Duvall, nesse filme aparece como uma típica modelo anoréxica dos anos 70, desengonçada e com uns dentões que hoje, assustariam o mais compreensivo dos dentistas... 
Aliás, ela parece mais assustadora que o próprio psicótico Jack, principalmente quando abre os olhões de jabuticaba gigante e sorri com aquela dentadura de cavalo, ooops... perdão pela má palavra, mas a atriz foi o detalhe mais desalentador de todo o filme. Sem entrar no mérito de que, enfim, quase toda a história foi modificada no filme. 

O pequeno ator Danny Lloyd foi a salvação e a beleza que compensava todo o resto: Um rosto de anjo.
Mas, em todo caso... Fiquem com o livro!