Stephen King - Duma Key


Sinopse:
Um acidente terrível em um canteiro de obras arranca o braço e a mão direitos de Edgar Freemantle e embaralha sua memória e sua mente. A raiva é praticamente tudo o que lhe resta enquanto inicia sua penosa recuperação. O casamento que gerou duas filhas maravilhosas termina de repente e Edgar começa a desejar não ter sobrevivido às lesões que quase o mataram. Seu psicólogo sugere uma "cura geográfica", uma nova vida longe das cidades gêmeas de Minneapolis-Saint Paul e da empresa que ele construiu do nada. E sugere que Edgar também retome o hábito de desenhar.
Ele troca, então, Minnesota por uma casa alugada em Duma Key, uma ilhota de beleza extraordinária e estranhamente subdesenvolvida na costa da Flórida. Lá, ele ouve o chamado do sol se pondo no Golfo do México e da maré chacoalhando as conchas na praia - e desenha.
Uma visita de Ilse, sua filha mais querida, o incentiva a abandonar a solidão. Ele encontra um amigo em Wireman - um homem que reluta em revelar suas próprias feridas - e, posteriormente, em Elizabeth Eastlake - uma idosa cujas raízes estão fincadas em Duma Key. Edgar passa a pintar - às vezes de modo febril -, e seu talento em combustão se revela tanto uma dádiva quanto uma arma. Muitos de seus quadros têm um poder que não pode ser controlado. Quando os fantasmas do passado de Elizabeth começam a surgir, descobrimos o perigo que suas pinturas surreais representam.
Ao nos revelar a tenacidade do amor, os riscos da criatividade, os mistérios da memória e a natureza do sobrenatural, Stephen King escreve um romance ao mesmo tempo sublime, cativante e assustador.

Ano: 2009 
Páginas: 664
Idioma: português
Editora: Objetiva

UMA PINTURA EM FORMA DE LIVRO

Uma capa mais bonita e condizente com a trama

Stephen King sempre revelando o seu talento, não importa o quão bizarra, estapafúrdia ou louca pareça a narrativa, o tema e a história: É bem escrita, ponto. E por ser bem escrita, tem suas mesclas de beleza com horror, de feio e tétrico, com o maravilhoso e o extasiante. Como disse T. S. Eliot: “a vantagem essencial de um escritor é não ter um mundo maravilhoso com que lidar. É ser capaz de enxergar além tanto da beleza quanto da feiura; ver o tédio, o horror, a glória”. Assim podemos falar de Stephen King, especialmente em determinados livros: "Duma Key" é um desses livros.

O livro é uma brilhante exposição de "pinturas" em letras, frases, parágrafos. É mais do que uma história de horror sobrenatural, mais do que uma sequência de cenas com suspense, drama, terror, sentimentos, emoções. É realmente uma espécie de "pintura linda do horrível", uma magnífica aquarela ou tela à óleo mostrando um mundo de coisas, em que o terror e as fortes emoções predominam.

Eu gostei imensamente de quatro pontos principais do livro:

1 - O drama, a forma como ele conta a história de um homem que perdeu um membro do corpo e, estranhamente, esse membro fantasma pareceu trazer a ele um dom novo; o drama de Elizabeth Eastlake, a simpática velhinha que, apesar de todo o sofrimento com o Alzheimer (e do seu passado terrível), dá uma lição de vida; o drama do incrível e querido Wireman.

2 - A forma como Stephen King mostra a evolução dos trabalhos de um artista, sua luta para expressar a arte, a beleza dessa mesma arte, a forma como ela é vista pelas pessoas em redor.

3 - O terror sobrenatural que é o que poderíamos dizer, num chavão popular, "King sendo King, o rei do terror sobrenatural".

4 - Amor, amizade, superação. Apesar de ser um livro de terror, drama e suspense, ele envolve tudo isso também, numa espécie de mágica tela onde se enxergam todos os matizes da natureza humana.


Pois bem, tendo dito isso, vou ao ponto que me desagradou no livro: Excessivas e exaustivas descrições. Em situações que eram dispensáveis. Como sei que esse ponto "negativo" pode ser uma das marcas registradas do autor, é de se relevar. Não tira a riqueza da boa narrativa, apenas amortece um pouco a fúria do leitor, que quer chegar logo a determinados pontos da história, como por exemplo, descobrir de uma vez por todas o que está em Duma Key, o que é a tal Coisa que dá poderes ou os tira dos artistas e que causa tanto medo em certos momentos, etc.

Voltando à história: Edgar se torna um pintor e é um momento fantástico aquele, chega a dar cócegas até mesmo nos dedos dos leitores, quando King descreve o processo criativo do protagonista e as belezas que brotam dos seus desenhos:

Eu fui para o andar de cima no auge estrondoso e brilhante da festança e — me sentindo um pouco como o dr. Frankenstein animando seu monstro na torre do castelo — desenhei Wireman, usando um bom e velho lápis preto comum. Quero dizer, até chegar ao finalzinho. Então, usei vermelho e laranja para as frutas na bandeja. Ao fundo, esbocei um umbral e, nele, coloquei Reba, minha representante no mundo do desenho. Talvez sí, talvez no. A última coisa que fiz foi pegar o azul-celeste para colorir seus olhos idiotas. Então, estava pronto. O nascimento de mais uma obra-prima de Freemantle."
A história se desenvolve com lentidão e essa é a única coisa que poderá, talvez, irritar o leitor sedento por cenas fortes e por descobrir o grande mistério. Mas essa parte chega, e também é fantástica, embora totalmente nonsense, lembrando um pouco o desfecho do livro "A Coisa" (também um livro enorme). É a fantasia de King e nesse livro, muito mais do que nos demais que já li do autor, há um toque lovecraftiano: a "Coisa" aqui também é uma coisa que brota do infinito perdido nas muitas eras... algo primevo, algo selvagem, algo antiguíssimo. Para nós cristãos, seria simples: um demônio? Talvez... Mas nada de generalizar ou simplificar, porque nada nos textos de King é tão simples assim.

Seu rosto estava lá, então ficava embaçado e desaparecia. Sua forma estava lá, então perdia a consistência para depois ganhar corpo novamente. Pedacinhos de aveias-do-mar mortas e fragmentos de conchas caíam das suas faces, do seu peito, quadril e pernas à medida que ela andava. O brilho da lua revelou um olho desoladoramente claro, desoladoramente dela."

Eu, como muitos outros leitores, não gostei muito do final. Não exatamente porque o final tenha sido mal escrito ou algo da temática não tenha se encaixado. Tudo se encaixa à perfeição, nada de pontas soltas ou finais em aberto. Acabou e ponto. Como o artista que dá a última pincelada e assina embaixo. O que eu não gostei foi dos destinos dados a certos personagens.

Como uma leitora conservadora, sou adepta dos finais perfeitamente felizes. Mas quem conhece Stephen King sabe que quase nenhum dos seus livros é perfeitamente feliz. No mais... É perfeito.


Daphne du Maurier - Minha prima Raquel


Uma mulher encantadora, doce, enigmática e... perigosa. Minha Prima Raquel - Daphne Du Maurier

"Há mulheres, Philip, até mesmo mulheres bondosas, que, sem terem qualquer culpa, atraem a desgraça. Transformam em tragédia tudo que tocam". A enigmática frase de Nick Kendall ao afilhado Philip, deixa claro o tom de dúvida e suspense que cerca o romance "Minha Prima Raquel", da inglesa Daphne Du Maurier.

Atenção, futuros leitores: Pode conter spam - não um grande spam, mas alguma coisa que pode ou não influenciar.

Esse trechinho de resenha acima foi tirado do único (ÚNICO!) blog que encontrei na net, falando desse incrivelmente belo romance de Daphne du Maurier!

Nem mesmo no Skoob, nosso companheiro de resenhas, sinopses e divulgação de livros, encontrei um leitor que quisesse falar algo a respeito do livro - um dos melhores romances de amor e mistério que já li dentro da literatura inglesa. Talvez comparável, em sua intensidade e estilo, ao inesquecível "O Morro dos Ventos Uivantes" da minha escritora favorita, Emily Brontë.

Claro está que Daphne du Maurier nem por isso se tornou a mim menos destestável, graças ao infame plágio de "A Sucessora" (da brasileira Carolina Nabuco) e que depois tomou o título de "Rebecca, a Mulher Inesquecível" (ganhador de um Óscar após ter virado filme). Igualzinho ao que aconteceu recentemente com o canadense Yann Martel com o plágio feito contra "Max e os Felinos", de nosso grande escritor Moacyr Scliar.

Mas voltando ao romance da "prima Rachel"... Phillip Ashley é primo bem mais novo de Ambrose, com quem vive em uma mansão pitoresca e mais ou menos rústica, na bela Cornualha. O jovem Phillip é quem narra a história e embora muitos leitores tenham certa resistência a esse tipo de narração, eu achei que caiu perfeitamente bem: Vemos e sentimos tudo sob a ótica do rapaz. Uma ótica masculina que Daphne du Maurier soube encarnar muito bem, diga-se de passagem.

Os dois homens viviam tanquilos em seu belo e simples lar, onde nenhuma mulher tinha vez, sendo Ambrose Ashley um típico inglês solteirão, fleumático e cheio de pequenas manias. Phillip, que não conhecera direito os pais, tinha Ambrose como perfeito modelo paternal e imitava-o em tudo - julgando talvez que o mundo perfeito era o de Ambrose. E o ponto de vista do primo mais velho era lei para ele.

Quando Ambrose viajou para a Itália, para cuidar de sua saúde delicada e respirar ares mais "quentes", lá ficou conhecendo uma prima distante e começou a dar notícias a Philip de tempos em tempos, através de cartas. Este já antevendo, como que através de uma intuição poderosa que seu primo estava se deixando enredar pela tal "prima Raquel", ficou um pouco enciumado. Ambrose era como seu pai e como bom filho, Philip não queria uma madrasta interpondo-se entre eles.

Pintura de Sue Halstenberg 

Com o passar do tempo, as cartas de Ambrose foram rareando, até que nas últimas, algumas palavras misteriosas chamaram sua atenção: "Rachel, o meu tormento..." E nessas cartas, Ambrose demonstrava que sua tão "feliz" relação com a esposa Rachel parecia cada vez mais deteriorada e estranha... Pede que Philip o vá encontrar em Florença.

O romance traz à tona a maestria de du Maurier em criar efeitos de luz e sombra, de alegria e medo, de jardins floridos e ambientes escuros e assustadores. 

A bela Raquel chegará finalmente a conhecer Philip e este a achará, de princípio, uma mulherzinha miúda e sem graça. Depois, com o tempo e a convivência, ela irá mudar... E sua personalidade, ora alegre, simpática, ora triste, ora dura e fechada, se tornará uma verdadeira muralha para Philip, incapaz de decifrá-la. 

O romance tem o dom de nos deixar confusos, da mesma maneira que Philip se sente, porque Raquel é como o mar ou a lua. Ele vai se apaixonar, eles se apaixonarão mutuamente... Porém haverá sempre entre eles a terrível desconfiança, o mistério, a dúvida. Nunca, em momento algum do romance, Philip poderá dizer que conhece a alma daquela mulher estranha, fascinante, sedutora e enigmática.

Há a dúvida... Ambrose, seu fantasma e a dúvida sobre o verdadeiro motivo de sua morte. E há também outras coisas que deixarão o jovem Philip totalmente desequilibrado e capaz das piores loucuras...


O final é muito bom - no sentido literário do termo - porque vai resolver uma questão sem, entretanto, resolver o maior de todos os enigmas da história. Raquel amara Ambrose? Amara (ou amaria) de verdade  Philip? Seria ela uma vítima das circunstâncias ou uma criatura fria, calculista, uma predadora impiedosa? 

Cada leitor tirará, de acordo com suas próprias análises e reflexões, suas próprias conclusões. 

Um bom romance. Uma linda história da qual eu jamais esquecerei. 
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ATUALIZANDO:
Seguindo o comentário da leitora Júlia Araújo, fiquei sabendo do lançamento do filme - que no Brasil, não sei por que raios fazem isso! - será "Eu te matarei, querida"... Um trailer que, ao que tudo indica, mostra um filme que parece incrivelmente bom. Esperamos que sim, porque o livro É inesquecível e a história é comovente.


Belinda Bauer - O túmulo sob as colinas



Sinopse: Apesar de cavar buracos quase diariamente na charneca de Exmoor à procura de um cadáver, Steven Lamb sempre quis ser um garoto normal. Porém, decidido, ele deixa as brincadeiras de lado e segue com sua pá para tentar encontrar o corpo de seu tio Billy, assassinado há 19 anos. Embora nunca o tenha conhecido, Steven sabe que sua família só poderá ser feliz quando encontrar o corpo desaparecido. Para descobrir o paradeiro dele, Steven decide escrever ao prisioneiro Arnold Avery, principal suspeito do crime. É o ponto de partida de um arriscado jogo de gato e rato entre uma criança desesperada e um perigoso serial killer.

Ano: 2013
Páginas: 320
Idioma: português
Editora: Record
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O QUE DIZER desse livro, que é uma comovente mistura de suspense e drama familiar? Eu comecei a lê-lo despretensiosamente, sem esperar muita coisa. No início, a trama toda me pareceu insípida, com personagens tão cinzentos, frios e insossos quanto as tais charnecas geladas e úmidas onde se passa a história. Steven é um menino de 11 anos que, ao contrário dos demais da sua idade, anda pelas charnecas com uma pá na mão, buscando, buscando, buscando sempre. O quê? O corpo - o esqueleto, talvez - do seu "tio Billy", ou William Peters, irmão de sua mãe que desapareceu há 19 anos, deixando um grande buraco na pequena família, e sua avó, a assim chamada "Pobre Sra. Peters", inconsolável.

De repente, Steven resolve que precisa se comunicar com o assassino de seu tio, o psicopata e pedófilo, Arnold Avery: aqui a história começa a ficar tensa.


Não é exatamente um romance de suspense como a maioria dos livros em que há a um mocinho e um bandido, este é focado principalmente nos pontos de vista do menino, Steven (e sua busca pelo corpo do tio Billy) e do assassino - que está preso no início da história. Mas há uma boa dose de medo e tensão: A narração varia entre os desejos, sonhos, pensamentos e objetivos dos dois, mas quando mergulhamos no drama psicológico da criança é que nos sentimos tristes, ao sermos arrastados para o seu pequeno mundo composto pelo irmãozinho mais novo (favorito da mãe), esta e a avó, a "Pobre sra. Peters". A vida do pequeno Steven combina com o lugar onde mora: a tal charneca de Exmoor, gotejante de umidade, fria, batida por ventos e quase deserta, exceto pelas relvas cinzas, urzes e tojo.

Steven é pobre, usa roupas surradas e meias tricotadas pela avó. Quase sempre suas roupas melhorzinhas são de segunda mão e os lanches que leva à escola, são simples sanduíches sem gosto. Ainda assim, é perseguido por um bando de garotos maldosos, como se não bastasse já todo o sofrimento que ele carrega pela decomposição de sua família: não tem pai, sua mãe o ignora, sua avó vive para o passado e no passado. Seu irmão mais novo é seu amiguinho, mas faltam muitas peças nesse quebra-cabeças de dramas familiares para que Steven se sinta feliz.



Afinal, ele decide que se "encontrar o corpo do tio" fará com que sua avó volte à realidade, consiga "enterrar" de vez suas lembranças e pare de se debruçar à janela, onde todos os dias parece esperar o filho desaparecido retornar à casa. O que Steven não previa, é que nessa busca pelo corpo do tio vai é se deparar com o próprio demônio, o diabólico psicopata Avery que, com suspiros de prazer, receberá suas cartas na prisão.

A história é composta de dois mergulhos: um, na cabecinha inconformada, inocente e desesperada de uma criança, que quer de qualquer jeito ter uma família "normal". Quer sua mãe carinhosa. Quer sua avó como a maioria das avós, terna, meiga, preocupada com seu bem-estar. Quer um pai. Quer arrancar de vez a mácula do drama, da morte e da perda do seio deles. Outro mergulho, é na cabeça vil do psicopata. Aqui, o texto é mais denso, repulsivo como o pus escorrendo de uma ferida infeccionada.

Não é difícil ficarmos presos à trama pela simples esperança de ver os sonhos de Steven se realizarem, embora isso se torne mais e mais longínquo a cada página. Entretanto, esta é a boa sacada da autora, que tece uma história de muito suspense mesclada ao drama de uma família infeliz, à qual queremos ver unida e recomposta -- após algum desfecho de solução fácil.

A solução e o desfecho, porém, são complicados...


Um ótimo livro para quem está cansado de histórias detetivescas clássicas e se comove com dramas psicológicos.


Coelho Neto - Apólogos - contos para crianças


João persignou-se e, subindo para a carreta, tocou o animal fugindo daquele sítio malsinado, lembrando-se do ambicioso desejo do vizinho, que Deus satisfizera: «Tanto ouro, tanto! Que ele e a sua gente, dia e noite, contando-o, não chegassem, ao fim da vida, a saber a soma exata da fortuna.» E ali tinham eles o ouro: poeira, somente poeira." 

Obs.: Por enquanto, o domínio público (site do governo federal) só disponibiliza o PDF em imagem da maioria das obras do grande escritor Coelho Neto. E nem mesmo em sebos encontramos seus livros. 

Portanto, infelizmente o arquivo que aí temos é no português do século XIX, sem revisão. Uma lástima, já que Coelho Neto é um dos nossos maiores escritores e foi um dos prosadores mais lidos da sua época. O PDF que se segue é uma magnífica coletânea de pequenas histórias para crianças e um tesouro de textos que poderiam ser lidos e utilizados por pais e professores.