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Willo Davis Roberts - AS BRUXAS DE KENWOOD


As Bruxas de Kenwood - ( To Share a Dream ) - Willo Davis Roberts



MEGAN, CHRISTINA, ROXANNE. MULHERES COM O ESTIGMA DA MALDIÇÃO.

No final do século dezessete, a caça às bruxas estende suas negras asas sobre o mundo. Desesperadas, acossadas e acusadas de feitiçaria, as três irmãs Kenwood deixam a Inglaterra e fogem para o Novo Mundo. A América é a salvação, a esperança. E Massachussets é a terra da aventura e do romance, a chance de mudar o destino. Grandes paixões despertam e amadurecem à sombra de preocupações e ódio. Mas a perseguição às bruxas continua, implacável.

O QUE ACHEI:
Um livro que gostei de ler, embora o enredo não tenha tanta profundidade como era de se esperar, pela bonita capa e pelo título pomposo.

As jovens irmãs fogem de uma Inglaterra perigosa e vêem para a América, onde são acolhidas por uma família puritana. Porém, Megan que tem uma marca de nascença escura (o que era considerado sinal de pactos com o demônio) acaba sendo perseguida também.


Ilustração de MargarethTulloch

Uma espécie de "As Bruxas de Salem" literário, com menos impacto e mais açúcar.
O livro é interessante, à medida que mostra a realidade das mulheres e dos menos favorecidos no século dezessete, na Europa e Estados Unidos.


Um livro que eu classificaria como bom, pois tem um enredo mais ou menos dramático, realista, porém com desenlaces agradáveis, sendo que as cenas românticas não deixam a desejar.

F. Paul Wilson - O Fortim


                                                                 F. Paul Wilson - O Fortim


Quando um esquadrão de elite da SS alemã é enviado para solucionar as mortes de soldados de um destacamento do exército alocado num pequeno forte situado nos alpes da Transilvânia, seus homens descobrem algo terrível. Invisível e silencioso, o inimigo escolhe uma vítima por noite, deixando cadáveres mutilados e aterrorizando suas futuras vítimas. Apavorados, os nazistas desconhecem o terror que despertaram quando se estabeleceram no fortim. Assim começa o primeiro volume da série Ciclo do Inimigo, composta pelos livros O fortim, O sepulcro, O toque mágico, Renascido, Represália e Nightworld. F. Paul Wilson utilizou os recursos que o tornaram um dos melhores criadores de thrillers de terror e suspense – narrativa tensa, ambientes sombrios e personagens enigmáticos – para criar a saga de dois inimigos imortais que se enfrentam desde tempos imemoriais.

Francis Paul Wilson nasceu em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 1946. Formado em medicina, debutou no gênero do terror com o livro O fortim, publicado em 1981. Unhas roídas, frio na espinha e uma narrativa magnética. Estas são as marcas registradas de F. Paul Wilson, hábil na criação de tramas de suspense, dono de um estilo consagrado em livros como Represália, Renascido e Os escolhidos. O autor é considerado um dos mestres do terror, comparado a Dean Koontz e Stephen King. Em 1983, a trama de O fortim chegou às telas de cinema com o título A fortaleza infernal, dirigido por Michael Mann.

O QUE ACHEI:
Muitos leitores e skoobers que leram parecem:
1- Ter gostado do estilo de Wilson, de modo geral;
2- Ter gostado do início deste livro, notadamente até a metade, mais ou menos;
3- Não ter gostado do final.

Alguns outros leitores, pelo que andei lendo na net, foram mais longe, analisando o livro como um todo e classificando-o como "literatura trash", cafonalha dos anos 80, livro estilo "bolso e descartável", ou simplesmente, um livro que começa super bem e termina de maneira odiosa, decepcionante, grotesca e pretensiosa.

Não vi tanta coisa assim para usar esses adjetivos negativistas. É fato que a história tem um início promissor, e que de certa altura em diante deixa de lado, um pouco, o seu clima assustador e o suspense inicial. Claro que, quem esperava alguma coisa  no estilo de Bram Stoker (ou Stephen King, com quem ele foi comparado), um crescendo de suspense-mistérios-sustos, um romance totalmente gótico no seu clima e arrebatadoramente sanguinário, vai se decepcionar... pelo menos no que se refere aos personagens Magda e Theodor Cuza.

O início é muito denso e o contexto histórico (Segunda Guerra Mundial), parece perfeito. A inserção de dois personagens alemães, Woermann e Kaempferr, com seus ideiais nacionalistas bem diferenciados (Woermann é militar, mas não apoia Hitler, enquanto Kaempferr é nazista até a raiz dos cabelos), torna a narrativa interessantíssima. Ainda mais tendo como pano de fundo um castelo (ou melhor, fortaleza) sombria, em plena Transilvânia, onde mortes estranhas passam a acontecer.

 Quando comecei a leitura, fiquei hipnotizada pelo embate entre Woermann e Kaempferr: Estes, sim, tinham potencial para ir até o final da trama, sendo um deles o protagonista "do bem" e o outro, do "mal".
E passamos a temer pela vida de Woermann e seus homens, enquanto cogitamos sobre o que um nazista malicioso e cruel, cheio de terceiras intenções, irá fazer quando for confrontado com o "verdadeiro mal" - embora, sinceramente, essa coisa de "mal-contra-bem" seja um clichezinho explorado à exaustão em outros livros do gênero. Inclusive, com "Drácula" de Stoker, o que não desabona este grande clássico (na época, tudo isso era original). Hoje em dia, porém, em tempos de The Walking Dead, Stephen King com Carries Estranhas, Torres Negras, Carros-Monstros... e Dean Koontz com suas histórias que mesclam mocinhos-vilões e vilões-mocinhos, esse clichê "bem-conta-o-mal" está muito batido e sem graça.

E então, quando estamos no auge da ansiedade e à espera de alguma coisa fantástica e terrível, Wilson nos joga um balde d'água fria: Nos apresenta Magda e Theodor Kuza, que são judeus - e, consequentemente, odeiam nazistas e vice-versa.

O foco da trama sai do Fortim e do maligno ser que lá vive e recai na moça, a encarnação da perfita mocinha de romance água-com-açúcar. O pai, Theodor, é um homem maduro e vítima de uma doença que o tornou deficiente, quase aleijado. Seria um personagem magnífico, não fosse o excesso de açúcar que Wilson nos joga na cara, ao apresentar Magda e o posterior romance que ela viverá com outro personagem da história.



Enfim, o livro, no todo, pode ser classificado como bom - um bom entretenimento, uma leitura fácil (com alguns trechos intragáveis). Um livro para ser lido, porém, sem muitas expectativas.

No momento em que percebemos a trajetória que o autor traçou para os protagonistas (que, infelizmente, não são Woermann ou Kaempferr, mas Magda e Kuza) e no que isso vai dar, perde-se muito do encanto inicial. Entretanto, ainda dá "um bom caldo", entretenimento leve e divertido, sem nenhum tipo de emoção ou comoção, como em livros de Bram Stoker, Stephen King, Dean Koontz ou Lovecraft.

Mas ainda assim, dá para ler e distrair-se. Eu dou três estrelas.

John Darnton - O Experimento



                                             John Darnton, um experimento perigosíssimo...

Um thriller atual sobre manipulação genética, que mistura ciência de ponta com o suspense mais emocionante.

Tudo começou com uma experiência... Jude, um jovem jornalista e escritor que vive em Nova York, deve fazer uma reportagem sobre um cadáver mutilado, sem rosto e impressões digitais, que surgiu em circunstâncias estranhas. Logo depois, Jude descobre que o DNA da vítima é totalmente compatível com o de um juiz jovem que está em perfeita saúde. O caso desperta seu interesse, mas o mais incrível ainda está por vir, quando um dia, ao voltar ao seu apartamento, Jude descobre perto de sua porta um... rapaz maltrapilho, que é tão semelhante a ele que mais parece seu irmão gêmeo.

O QUE ACHEI:
Desde o dia em que li a sinopse desse livro, fiquei interessada. Adoro thrillers de suspense, com alguma adrenalina, ficção médica e científica e muito mistério. Esse livro de Darnton tem tudo isso. O autor é exímio narrador, se esmera em detalhes e capricha na caracterização de seus personagens, tanto dos mocinhos, quanto dos vilões.


No início, pode dar um certo desasossego, pois você quer logo saber tudo de uma vez. Quem é Skyler, que ilha é aquela, que tem ele a ver com Jude. E ainda tem a doutora Tizzy, namorada de Jude... ela vai se envolver na trama, sentindo-se atraída ora por ele, ora por seu "gêmeo", e o tempo todo Jude ficará enciumado, e nós leitores, cabreiros.

Durante certos trechos, há muita tensão, muita adrenalina, a ponto de você se perguntar: Puxa, quando é que esse mistério vai ser desvendado? Já enjoei de tanta correria, fuga, perseguição, quero a solução!


Ela chega aos poucos, mas até a última página você não vai querer parar de ler. Lerá tudinho, talvez pulando uma ou outra página, mas vai gostar (pelo menos, eu gostei, e há gostos e gostos) se for amante de thrillers tensos.

Pela trama com pitadas generosas de suspense médico e ficção científica (ficção científica/biológica para ser mais exata)... pelos momentos de susto e horror (quando chega-se a certos picos de clímax, quando revelações são feitas)... pela tensão crescente, até atingir o máximo e esse máximo realmente valer a pena - pois as surpresas são interessantíssimas - eu daria cinco estrelas. Digamos que prefiro dar quatro estrelas, por causa de alguns momentos de muita indefinição na história, momentos em que a ação sofre paralisações, coisa que deixa a leitura meio lenta e cansativa. No mais, foi um livro muito bom.


Promocao Dia dos Namorados 2013



A união dos blogs Patriciado e Romance Sobrenatural (o nosso aqui), resultou nessa promo super legal, bolada pela amiga Pat Kovacs - que está sempre com promoções novas quase todos os meses.


O texto abaixo, com todas as regras, é do blog da Pat:


Regras de Participação:

Para participar, é necessário ser um seguidor público dos Blogs PatriciaDo (este aqui :P) e Romance Sobrenatural, através do Friends Connect do Google. Atente para este quesito, pois ele é imprescindível no sorteio, cabendo eliminação caso não seja cumprido. Sendo um seguidor, basta se inscrever no Formulário de Participação.

Números Extras para o sorteio:

Cada inscrição inicial valerá apenas 1 número no formulário (que é contado à partir da linha 2). Caso queira mais chances de ganhar, siga esses Blogues aqui:


A cada um desses blogues seguidos, você terá o direito de fazer uma nova entrada no formulário, então terá 1 chance inicial + (N) chance(s) a mais de ser sorteado.

Está fácil de participar, não está? São 7 prêmios para 7 participantes. Apenas não haverá repetição de sorteados. Isso ocorrerá apenas e SE houver menos de sete participantes na promoção.

A Promoção de 2013 para o Dia dos Namorados se inicia hoje, dia 21 de maio, e se encerra às 23:59h do dia 11 de junho, com o sorteio a ser realizado no dia seguinte, dia 12, no próprio Dia dos Namorados.

Os Prêmios:

1º Sorteado - Livro Sussurro (Livro 1 da Série Hush Hush), de Becca FitzPatrick;
2º Sorteado - Livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera;
3º ao 7º Sorteados - Livros: Encantado, de Nora Roberts; Missão Mackenzie, de Linda Howard (ambos clássicos da Harlequin Books); A Cigana, de Alexandra Benedict;Armadilhas do Amor, de Elizabeth Thornton; e O escândalo da rosa negra, de Debra Mullins (estes últimos três são clássicos da Nova Cultural).


Uau, gente, vamos participar? Você tem até o dia 11 de junho, quando as inscrições se encerram.





William H. Hodgson - A casa sobre o abismo



Uma viagem no tempo pelos tenebrosos caminhos do sobrenatural...


A CASA SOBRE O ABISMO, como a obra é chamada nas raras traduções para o português, foi escrita em 1908 pelo britânico Willian Hope Hodgson. Embora não seja tão conhecida como outras obras do gênero, serve de influência para todos os autores do gênero sobrenatural, seja pelo texto intenso e bem escrito, pelo horror realmente perturbador que traz ou pela estética inovadora, que mantém a obra bastante atrativa, ainda nos dias de hoje. Lorde Gault, sua irmã Mary e o cão Pepper mudam-se para uma estranha casa – que, na superstição local, foi erigida com ajuda do Demônio –, rodeada por jardins adornados por estranhas estátuas, construída a beira de um abismo e sobre uma caverna que parece não ter fim (bem como o poço no porão).
Descrição AQUI.


O QUE ACHEI, resenha de "A Casa sobre o Abismo":
Um livro não muito grosso, com uma excelente história gótica, em um ambiente de terror ao melhor estilo Lovecraft e August Derleth. Acho que livros com a qualidade desse, deviam ser reeditados no Brasil, o que, infelizmente, não tem acontecido. Muitos bons escritores do século XIX se perderam por aqui, e são mal e mal conhecidos através de alguns livros antigos, que se encontram em sebos ou nas mãos de colecionadores.



O escritor José Geraldo Gouvea fez uma nova tradução para o português, muito bem adaptada às expressões mais modernas, e você pode conferir tudo sobre essa edição AQUI, no site do tradutor: A Casa no Fim do Mundo.

'A Casa Sobre o Abismo' que li, das coleções Fantásticos Newton, é um clássico do terror sobrenatural, onde o clima sombrio, os mistérios e o horror inimaginável permeiam cada página.

O tal abismo - ou o poço - não tem fim, e pouco a pouco, com suas sombras e espectros, vão rodear a casa e destruir a vida de Lorde Gault.


Gault vive um verdadeiro pesdelo na casa maldita, até que coisas ainda mais inacreditáveis acontecem. Um livro imperdível, um clássico do terror, escrito com uma maestria e um toque de cores escuras e sinistras que só mesmo um autor inglês consegue imprimir.



Marion Zimmer Bradley - A chegada em Darkover


Marion Zimmer Bradley
A humanidade fugia de uma terra superpovoada para colonizar novos mundos, mas no caminho a nave sofreu um acidente e eles foram parar em um planeta misterioso, repleto de maravilhas, cuja descoberta provocaria terríveis choques.

O QUE ACHEI:

Esse livro é a introdução ao mundo de Darkover - mas geralmente, os fãs de Marion Zimmer podem começar com qualquer outro livro da série, e depois voltar a esse. Eu lembro de ter lido esse antes de todos os demais. Depois, li "A Corrente Partida", e "Estrela do Perigo", além de uma antologia, "O Melhor de Marion Zimmer Bradley". Essa antologia, ainda mais que os outros livros, me apresentou a algumas curiosidades desse planeta estranho, habitado inicialmente por pequenos humanóides peludos e pelo estranhíssimo povo etéreo, com aparência de fadas ou silfos. Um desses contos, "O Povo do Vento", conta algo muito semelhante ao que é narrado pelo primeiro livro da série, "A Chegada em Darkover": Uma mulher grávida, cujo amante morrera no acidente da nave espacial, será a única sobrevivente no inóspito e esquisitíssimo planeta.

Ela viveria ali por muito tempo, ali nasceria seu bebê, que ela iria criar sozinha. Sobrevivendo de frutos silvestres, ela acabou descobrindo que o planeta não era totalmente desabitado: Lá vivia um povo... uma raça... mas era tão pouco perceptível, tão fantasmagórica, que ela muitas vezes chegaria a duvidar da própria sanidade mental. Não chegava a vislumbrar com clareza a nenhum deles...
 
Seu filho iria crescer naquele planeta esquisito, mas jamais se conformaria em ser o único ser do sexo masculino e jamais se conformou em viver ali sem mais ninguem, sem nenhuma mulher - além de sua mãe, claro...
Quando Robin tinha quatorze anos, Helen contou-lhe a história de seu nascimento e falou da nave.

Ele era um rapaz alto e silencioso, forte e resistente, e não gostava muito de falar. Ouviu a história num silêncio quase total e depois fitou Helen em silêncio por um longo tempo. E, finalmente, disse, num sussurro:

- Você poderia ter morrido... renunciou a muita coisa por mim, Helen, não é mesmo?

Ele ajoelhou-se e pegou o rosto de Helen entre as mãos. Ela sorriu e recuou um pouco.

- Por que me olha desse jeito, Robin?

O rapaz não pôde de imediato traduzir seus pensamentos em palavras; as emoções não constavam de seu vocabulário. Helen ensinara-lhe tudo ó que sabia, mas sempre escondera seus sentimentos do filho. Ele acabou indagando:

- Por que meu pai não ficou com você?

- Acho que isso não lhe passou pela cabeça. Ele era necessário na nave. Perder-me já era bastante terrível.

- Eu teria ficado! - declarou Robin, veemente. Helen descobriu-se a rir.

- Ora, Robin, você ficou.

- Sou como meu pai?

Helen contemplou o filho solenemente, tentando encontrar as feições meio esquecidas de Reynolds no rosto do rapaz. Não, Robin não se parecia com Colin Reynolds, nem mesmo com a própria Helen. Ela pegou a mão do filho entre as suas. Apesar de sua excelente saúde, Robin nunca ficara bronzeado; sua pele era pálida, perolada, de tal forma que se fundia com a floresta na luz do sol esverdeada, tornando-se quase invisível. Sua mão pairava na palma de Helen como uma sombra. Ela finalmente murmurou:

- Não, você não é parecido com ele. Mas sob este sol, isso era de esperar.

- Sou como as outras pessoas - comentou Robin, confiante.

- As da nave? Elas... Robin interrompeu-a:

- Não. Você sempre disse que me falaria sobre as outras pessoas quando eu ficasse mais velho. E estou me referindo às outras pessoas daqui. As que vivem na floresta. As que você não pode ver.

Helen ficou olhando para o garoto numa incredulidade total.

- Como assim? Não há outras pessoas, apenas nós.

E depois ela recordou que toda criança imaginativa inventa companheiros imaginários. Sozinho, ela pensou, Robin está sempre sozinho, não há outras crianças, não é de admirar que ele seja um pouco... estranho.
 
 O final do conto é muito triste, porque o rapaz - nessa altura ele já é quase adulto - confunde tudo... realidade, com fantasia.
Porém esse conto nos dará a real dimensão de todas as facetas da ficção de Marion Zimmer: Ela criou, assim como J. R. R. Tolkien, todo um "universo" de mitos, raças, sub-raças, crenças, cosmogonias, culturas e histórias, que remontam todas ao pequeno grupo de terráqueos que, um dia, chegaria acidentalmente ali... justamente ao grupo cuja história é narrada nesse primeiro livro.

A história é ótima, eu a li duas vezes e, em ambas, foi rápida a leitura. É comovente, um pouco nostálgico, pois o grupo de sobreviventes vai tentar, por todos os meios, sair de lá, retornar à civilização. Notadamente, o comandante Leicester recusa-se à ficar ali, à mercê de um "retorno à barbárie", e vai querer consertar a nave semidestruída. Depois, vendo que isso não era possível, ele vai se apegar à sua tão amada tecnologia, e...

Enfim, teremos vários personagens fascinantes, como Rafael MacAran e Camilla Del Rey, um casal por quem a gente torce o tempo todo.


Entretanto, o retorno à civilização terrestre não aconteceria, tampouco o "retorno à barbárie", e o planeta esquisito iria mostrar muitas coisas fascinantes e assustadoras ao mesmo tempo, para o grupo de sobreviventes.

O final deixa todas as pistas de que, no futuro, Darkover seria uma fantástica civilização, embora para o leitor isso ainda vá soar com um tom nostálgico.

Um livro incrível, uma introdução ótima para o universo darkovano de Marion Zimmer.



Viriato Padilha - A Casa Mal-assombrada [conto]


 

 A casa mal-assombrada

Viriato Padilha


DE UM momento para outro o alferes de milícias de Vila Rica, João Rufino, apresentou-se cheio de dinheiro, naquelas Minas, bem enroupado, melhor montado, com armas garantidas, e a fazer uns gastos tão em desacordo com a sua anterior pobreza, que punha toda a gente de boca aberta.

            Onde fora ele desentranhar dinheiro? Heranças não recebera, pois bem conhecida era toda sua família, paupérrima; no jogo, também não era possível, pois nunca o tinham visto com semelhante defeito; para se dizer que passara algum contrabando de ouro ou diamantes, também não se podia admitir, pois João Rufino na verdade era um indivíduo muito alegre e folgazão, porém de conduta irrepreensível.

            O certo foi que os pacatíssimos mineiros não atinaram com aquele mistério, e João Rufino continuava a assombrá-los com as suas incomparáveis despesas.

            No entanto o dinheiro de João Rufino, a acreditar na lenda que ele próprio se encarregara de divulgar, viera por bom caminho. E assim, depois de se ter divertido durante algum tempo com a curiosidade dos patrícios, deliberou contar-lhes tudo, escolhendo para isso uma noite em que dava a cear a diversos amigos.

* * *

            Achavam-se os seus convivas na sobremesa, tendo já devorado uma excelente canja feita de três galinhas que rachavam de gordas, uma bem tortada leitoa e outras coisas suculentas, tudo regado com excelente vinho, quando João Rufino, dirigindo-se a eles, lhes falou deste modo:

            – Senhores, reservo uma surpresa para rematar esta modesta ceia. Em geral os meus amigos e conhecidos e quase a população de Vila Rica têm-se admirado da minha rápida fortuna e sobre ela feito comentários os mais variados. Em verdade é para merecer reparo uma transformação tão rápida, e por isso não podiam espantar-me, por mais extravagantes que fossem, mesmo quando fossem lesivos à minha reputação. E, se até esta data não vos fiz sabedor do que me sucedeu, é porque há coisas tão espantosas que a mente recusa acreditá-las. Todavia não tenho o direito de prolongar por mais tempo a vossa justa ansiedade, e hoje vos informarei dos extraordinários acontecimentos que me conduziram à opulência.

            Este exórdio de revelação encheu os convivas da maior satisfação, pois a curiosidade era geral e rumores aprobativos fizeram-se ouvir em toda a mesa.


            João Rufino, então, passando os convidados para uma outra sala, onde fez servir perfumoso café, narrou a sua aventura, em meio da mais circunspecta atenção.
           
 Assim falou João Rufino:

            – Senhores, a fortuna que hoje desfruto chegou-me por vias honestas; e, se é certo que a não alcancei pelo trabalho e por uma rigorosa economia, durante longos anos, devo-a no entanto à minha coragem, e, por conseguinte, é com toda a justiça que a gozo.

            Sabeis perfeitamente que um dezembro do ano passado, isto é, há quatro meses, fui encarregado pelo comandante do meu regimento de milícias de ir ao Rio de Janeiro comprar fardamento para a tropa e arreios para a nossa cavalhada. Parti daqui na antevéspera de Natal, e no dia de Reis já me achava muito além de Matias Barbosa, apesar do péssimo estado dos caminhos. Nunca havia feito tal viagem, e assim era fácil desviar-me da verdadeira estrada. Foi o que me aconteceu.

            Pouco adiante de Matias Barbosa, deixei o verdadeiro caminho à direita e tomei à esquerda. Por ele andei cerca de três horas, e já ia anoitecendo, sem encontrar pouso, quando deparei alguns viajantes que vinham para Matias. Disseram-me eles que me achava errado, mas que não me era preciso voltar atrás para ganhar a estrada; dali à distância de légua e meia, existia um caminho à direita que ia desembocar na referida estrada. Informando-me mais se existia alguma casa que me servisse de pouso, responderam-me que a primeira pousada era para mais de quatro léguas puxadas. Em todo esse percurso só havia uma casa, completamente isolada, onde ninguém pernoitava por ser considerada mal assombrada.
             
Voltar para Matias, com os viajantes, não me era possível; retroceder ao ponto em que havia errado o caminho, nada adiantava. Assim, só me cumpria prosseguir na direção que levava.
           
 Perguntei-lhes, então, em que consistia a assombração da única casa que ficava à beira da estrada, e eles disseram-me que ali vivera outrora um indivíduo extremamente avarento; e que, desde o dia de sua morte, alguns viajantes perdidos, que por acaso pernoitavam na sua habitação, ouviam à noite ruídos estranhos: arrastar de correntes, som de passos pelas salas, bem como eram visitados por visões assombrosas.

            Agradeci aos viajantes todas essas informações, e despedi-me deles, disposto a viajar toda a noite a fim de reganhar a estrada real.

            Caminhando, ia pensando nos mistérios da casa assombrada, nos quais, para dizer com franqueza, pouco acreditava. 

            O sol entrava na sua agonia sanguinolenta do ocaso. Já nos pontos em que o caminho serpenteava por baixo de moitas sentia-se a invasão das sombras crepusculares, e os insetos noturnos davam os primeiros chilros prenunciadores da grande harmonia da noite, quando senti que o meu cavalo começava a ganhar-se de suor frio, e da andadura ia pouco a pouco descambando para o passo pesado. E essa?! O pobre bicho ia afrouxando, e naquele andar não deitaria mais de meia légua. Conheceis perfeitamente o meu tordilho, não? Era um animal valente, mas desde Vila Rica eu ia puxando por ele, em marchas diárias de seis léguas, e naquele dia já havia vencido sete. Não era, pois, de admirar que o pobre animal desse de si.
     

      
 Isso, no entanto, contrariou-me extraordinariamente, mas continuei a caminhar.

            Daí a um quarto de hora cheguei à porteira de um largo pasto todo gramado, em cujo centro existia uma grande casa silenciosa. Era a casa mal-assombrada! Nem uma voz humana, nem o latir de um cão, nem o pio de uma ave doméstica! Tudo parecia morto ali!

            O sol acabava de sumir por trás das grimpas da Mantiqueira, e a noite aproximou-se.

            Pus-me a pensar: O meu cavalo estava quase frouxo; avançar mais, seria arriscar-me a estragar o animal, sem nada adiantar; ali, pelo contrário, estava um bom pasto para o pobre bruto, e uma casa que me daria guarida durante a noite. Por que, pois, desprezar tão providenciais comodidades, somente com medo de fantasmas, coisas naturalmente criadas pela imaginação do vulgo ignorante e supersticioso?

            Eu nunca fui medroso, graças a Deus! Dispus-me, pois, a passar a noite ali mesmo. Estava bem armado, que podia, temer, portanto?! ... 

            Tomada essa deliberação, abri resolutamente a porteira e penetrei no pasto. A porteira rangeu no enorme gonzo, e fechou-se em seguida, esbarrando com orça no batente de cabiúna. Logo após, ouvi um grande gemido, muito prolongado e alto, partido não sei de onde, mas que me produziu um arrepio em todo o corpo. O meu cavalo espetou as orelhas e estacou nas patas dianteiras, mas não esmoreci: quando tomo uma resolução, tenho por costume levá-la até o fim, custe o que custar.

               Assim, dei uma chibatada no animal e orientei-o para a casa.

            Antes de chegar ao terreiro, era preciso transpor a porteira de um curral. Abri-a, e, exatamente como sucedeu com a primeira, logo se fez ouvir outro gemido, mais soturno e mais prolongado ainda do que o anterior. Os cabelos tornaram a arrepiar-se-me, e o cavalo bufou. Não me importei. Apeei-me e tratei de tirar a sela do pobre animal, pois queria passar minuciosa revista na casa, antes que anoitecesse de todo.


            Fiz isso. Depois de soltar o bicho no pasto, carreguei os arreios nos braços, e subi com eles a escada de uma varanda já um tanto carcomida, que havia na frente da casa, e penetrei na primeira sala da habitação, cujas janelas e portas estavam abertas de par em par. Mal apenas colocara eu o pé na soleira da porta, um outro gemido, ainda mais lúgubre e duradouro que os outros, fez-se ouvir, e parecia tão lancinante, tão magoado, que bem contra a vontade senti o sangue esfriar-me no corpo, e os arreios caíram-me das mãos trêmulas! O meu tordilho, que já então se espojava satisfeito no pasto, ao ouvir essa coisa medonha, ergueu-se de um salto, e disparou, dando a prova mais cabal de se haver também assustado.

            Todavia eu tinha que dormir naquela habitação, quer fosse mal assombrada, quer não; havia feito tal propósito, e nada me poderia demover dele. Por isso tirei dos coldres as pistolas, e enchendo-me de ânimo devassei toda a casa; atravessando salas, quartos, corredores e nada encontrei. Tudo estava silencioso! Quando voltava, porém, para a frente da habitação, vi em um dos cantos da primeira sala um frango pelado, de pernas muito compridas, que ali procurava aninhar-se, como se tivesse aquele costume.

            Admirou-me ver aquela ave, pois quando atravessara a primeira vez a sala não a tinha percebido. Contudo não me preocupei por muito tempo. Seria, pensei eu, algum pinto perdido por qualquer pombeiro, e que entrasse enquanto me ocupara em revistar a casa.

* * *

            Devia ser isso mesmo, e nem podia ser outra coisa. Quanto aos gemidos, não os regougam tão tétricos as corujas grandes? Conduzi para dentro da sala os arreios; tirei de um picuá o resto do meu almoço; comi-o tranqüilamente, e, depois, estendendo a manta, o bairetro e o capote, fiz deles um leito em que me deitei, confiante em Deus e na minha coragem, tendo antes posto ao alcance das mãos as pistolas e o meu facão de viagem.

            Deitei-me, porém não adormeci, embora estivesse bastante cansado. Contra a minha vontade, rolavam-me no cérebro coisas fantásticas, e, à medida que a noite se adiantava, cada vez mais me visitavam tais pensamentos.

            Devia de ser mais de onze e meia, e ainda eu me conservava acordado, quando pouco e pouco vi a sala ir se enchendo de uma claridade dúbia, quase insensível no começo, mas que mais e mais ia aumentando. Não podia perceber de onde vinha essa luz estranha, amarelada, lívida, pois não era noite de luar.

            Tanto cresceu a claridade, que a sala ficou toda iluminada, e então presenciei uma cena da qual nunca mais me lembrarei sem que se me arrepiem as carnes.

            O pinto magro, pelado, que dormia no canto da sala, saiu para o centro. Batendo asas e suspendendo o pescoço, cantou desentoadamente, com um esganiçar irritante, pronunciando estas palavras que ouvi arrepiado de horror:

            – É meia-noite: não vens hoje? – E recolheu-se ao canto.
            Imediatamente do teto da casa partiu uma voz assombrosa que gritava:
            – Gaspar, eu caio!
            O pinto lá do seu canto respondeu:
            – Não caias!
            A voz tornou a gritar:
            – Gaspar, eu caio!
            E o pinto outra vez respondeu:
            – Não caias.
            Ainda uma terceira vez a voz falou:
            – Gaspar, eu caio!
            E eu, cheio de impaciência e ao mesmo tempo apavorado com o que estava presenciando, exclamei:

            – Pois, caia!




            Mal havia proferido tal frase, quando vi despenhar-se do teto da casa um braço humano e cair no meio da sala com um ruído abafado.

            O meu coração batia de modo que parecia querer estalar. Um suor frio inundava-me a fronte, e pela primeira vez na minha vida tive medo deveras.

            Daí a alguns minutos a voz tornou a gritar:

            – Gaspar, eu caio!

            De novo o pinto pelado esganiçou-se e suspendendo o pescoço repetiu:

            – Não caias.

            Segunda vez a voz falou:

            – Gaspar, eu caio!

            Na terceira, eu berrei:

            – Pois caia!

            Caiu outro braço.

 
            A mesma cena repetiu-se por quatro vezes; e eu que vencendo o terror me achava possuído da mais viva curiosidade pelo desenlace daquela comédia horrenda, ia mandando que caísse.

            Assim, caiu primeiramente junto aos dois braços uma perna, depois outra, em seguida o tronco e finalmente uma cabeça, que, mal chegou ao soalho, reuniu-se aos diversos pedaços. .. E surgiu à minha vista um fantasma, envolto num longo sudário negro e com os braços cruzados obre o peito!...


            O medo que tal aparição me causou não se pode descrever com palavras. São dessas coisas que se sentem, mas não se definem. No entanto, tive forças para empunhar o meu facão de viagem e pôr-me logo em guarda, esperando um ataque. Mas o espectro, estendendo para mim um longo braço descarnado, pronunciou estas palavras com voz sepulcral:

            – Nada temas, viandante; não te pretendo fazer mal; a tua coragem salvou-me.

            Então balbuciei:

            – Quem és tu?

            E a aparição respondeu-me:

            – A alma-penada de um miserável avarento que, desde o dia que deixou os vivos, vagueia errante, em conseqüência da misérrima paixão que tanto o atormentou em vida. Fui rico e levando meu amor ao ouro até a hora da morte, enterrei uma grande quantidade dele no pasto desta casa. Foi a minha perdição. Minha alma acha-se presa a estes sítios e deles não se apartará, enquanto o dinheiro ali se conservar. Tu tiveste coragem de afrontar o assombro desta habitação. Vou fazer a tua fortuna e libertar-me deste fadário. Quando o dia romper, irás à porteira do pasto, e na direção de quatro braças ao nascente do batente da mesma porteira, cavarás até a profundidade de quatro palmos. Aí encontrarás um cofre de moedas de ouro em boa espécie. Toma-o para ti e manda dizer sete missas pela alma do finado Gaspar, na igreja que quiseres.

            E ao dizer estas últimas palavras tudo desapareceu: fantasma, pinto pelado, luz amarela e tudo.

            Os meus nervos não podiam suportar a furiosa tensão a que os havia forçado: afrouxaram repentinamente, e eu, caindo prostrado no leito improvisado, adormeci de sono pesado, sem sonhos, que se prolongou até às 7 horas da manhã do outro dia.

            Logo que acordei, pouco me lembrava das terríveis cenas da noite, porém, pouco a pouco elas me foram chegando à memória, e pus-me a pensar se tudo aquilo não seria um delírio da minha imaginação escandecida pela narração dos viajantes e pelo desolado aspecto da habitação.

            Todavia procurei uma enxada que logo encontrei no porão da casa e dirigi-me à porteira do pasto. Aí chegado, medi quatro braças ao nascente do batente e pus-me a cavar.
            O meu cavalo, que pastava tranqüilamente, a poucos passos distante de mim, levantou a cabeça e pôs-se a encarar-me, e eu me ria comigo mesmo pensando que talvez estivesse representando um papel tão ridículo que até o próprio cavalo dele se admirava.
           
 Contudo continuava a cavar, e de uma das enxadadas senti que o ferro batera em outro ferro. O meu espírito alvoroçou-se com isto; amiudei as pancadas, e dentro em pouco tempo ficou a descoberto um cofre de ferro, tendo por cima um grande argolão. Puxei por ele e o cofre saiu para fora. Estava descoberto o tesouro!

            Corri imediatamente os fechos da peça e escancarando-a encontrei-me diante de um monte de belas e reluzentes moedas de ouro. Introduzi-as no picuá e no capote e segui a desempenhar a minha comissão no Rio de Janeiro.

            Eis, senhores, como do dia para a noite fiquei rico. Devo esta ventura à minha coragem e ao meu sangue frio.
* * *
            De então por diante nunca mais se falou em Vila Rica sobre a fortuna do alferes João Rufino. Pois não era tão natural que ele encontrasse um tesouro enterrado? 


FONTE:
Padilha, Viriato. O livro dos fantasmas.
Rio de Janeiro, Spiker, 1956, p.71-81




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