Ali Land - Menina Boa, Menina Má


Sinopse:
Os corações das crianças pequenas são órgãos delicados. Um começo cruel neste mundo pode moldá-los de maneiras estranhas.

Nome novo. Família nova. Eu. Nova. Em folha.

A mãe de Annie é uma assassina em série. Um dia, Annie a denuncia para a polícia e ela é presa. Mas longe dos olhos não é longe da cabeça. Os segredos de seu passado não a deixam dormir, mesmo Annie fazendo parte agora de uma nova família e atendendo por um novo nome — Milly.

Enquanto um grupo de especialistas prepara Milly para enfrentar a mãe no tribunal, ela precisa confrontar seu passado. E recomeçar. Com certeza, a partir de agora vai poder ser quem quiser... Mas a mãe de Milly é uma assassina em série. E quem sai aos seus não degenera...

Editora Record, 2018

O MUNDO DA PSICOPATIA NUMA VISÃO ADOLESCENTE
O romance psicológico tem um quê de suspense, narrando a vida da adolescente Annie - agora de nome trocado pala Milly - que denuncia sua mãe psicopata, assassina de crianças, passando a morar temporariamente com uma família adotiva: Mike, que é psicólogo e tentará ajudar a jovem em seus traumas, a mãe Saskia e uma "irmã adotiva" também adolescente, Phoebe.


A primeira coisa que incomoda nessa obra, é o uso excessivo de orações coordenadas assindéticas, o que dá uma espécie de bloqueio ou falha na compreensão do todo expresso. E a autora, Ali Land, começa com isso desde o primeiro capítulo:

'Nome novo. Família nova.Eu.Nova.Em folha.'

Além do uso em excesso desse tipo de oração, ela às vezes as inicia em novos parágrafos, como no exemplo acima: De minha parte, considero isso esteticamente desagradável, como se a narrativa fosse toda cheia de pequenos "vácuos", em que nossa leitura é interrompida e o fluxo de ideias, contido.

Praticamente o livro todo é composto desse tipo de oração assindética. São inúmeras as pausas, todas criadas por pontos ou mesmo, novos parágrafos, tornando toda a leitura irritante:

Abro a porta empurrando com as costas. Os braços cheios de pastas.
Eu me viro. Vejo imediatamente.
ENORME. Presa com fita adesiva na frente do meu armário. Minha foto da escola, tirada na semana passada, no meu primeiro dia. Sem jeito e insegura. Feia.

Se usados com parcimônia, tais recursos podem tornar o estilo original e ágil, mas o abuso vai tornar a obra uma coleção de pequenas orações "encalhadas" aqui e ali, que soam mais ou menos como as frases soletradas por alguém com soluços... Infelizmente, é o estilo da autora.

Diante de um defeito tão irritante, a narrativa torna-se sufocante, ainda mais porque é narrada em primeira pessoa: são os pensamentos de Annie (ou melhor, Milly), que vão revelar o mundo e o enredo, e para os leitores que esperam uma narrativa mais densa e abrangente, que apreciam o narrador onipresente - que vai mostrar vários ângulos e cenários diferentes, abrindo um leque de mentes e situações de todos os personagens envolvidos, o estilo de Ali Land é extremamente limitado.


Voltando ao enredo, teríamos aqui três diferenciais:

1 - Uma mulher psicopata (geralmente raras na literatura do suspense e do terror, onde a maioria dos vilões são homens);
2 - Uma adolescente extremamente fragilizada, contando ou melhor, expondo seus temores, seus traumas, de forma muito sutil porque afinal de contas, ela ainda se sente ligada à genitora - que é também sua algoz.
3 - Um psicólogo (Mike) que tentará passar por amigo, pai e analista da adolescente sofredora, que, entretanto, mal consegue gerir a própria família.

Três exemplos de originalidade do tema que foi mal conduzido por um estilo de escrita com excesso de orações curtas, diálogos rápidos e palavras isoladas. Se bem contada, a história seria muito interessante, já que aborda temas como psicopatia, bullying, desestruturação familiar, psicologia, maus tratos a crianças, etc. O que nos faz ler o romance até o final, é o suspense e a pergunta que não quer calar: É Milly uma psicopata, como a mãe? Mas se é, por quê não reage ao bullying praticado -- e de forma intensa e cruel -- pela filha de Mike, Phoebe?


O leitor irá, naturalmente, ficar esperançoso ao perceber que Milly parece "tentar" uma adaptação à nova família, parece ter certo apego a Mike, esperança essa que -- se prestar-se muita atenção às frases acima - desfaz-se. 

Um livro de boa temática, mas escrito com um formato terrível e cansativo. Como eu consegui ler? Bem, tendo o ebook, converti-o em áudio, eliminando alguns parágrafos, sem o que até mesmo para ouvir seria difícil.

Um livro que eu não recomendo, embora o tema do suspense psicológico e a crimes ligados à psicopatologia sejam sempre instigantes. 

Alejandra Pizarnik - A Condessa Sangrenta


Ensaio de terror inspirado na vida da condessa húngara Erzsébet Báthory, condenada pelo assassinato de 650 jovens mulheres com requintes de crueldade. Vários dos tormentos aos quais as jovens foram submetidas são descritos no livro. Primeira obra da autora publicada no Brasil. Posfácio de João Silvério Trevisan (autor de Ana em Veneza e Devassos no Paraíso). Belíssimas ilustrações do argentino Santiago Caruso.
Ano: 2011 / Páginas: 60
Idioma: português
Editora: Tordesilhas
UMA BIOGRAFIA POÉTICA, ESCRITA EM VERMELHO-SANGUE


Li esse pequeno livro, com ilustrações belíssimas (e muito perturbadoras) de  Santiago Caruso, em questão de meia hora.

Confesso que a edição da editora Tordesilhas é impecável e muito de acordo com a preocupação estética da poetisa argentina, Alejandra Pizarnik. O trabalho não é biográfico, não se enquadra dentro do gênero novelesco. 

É realmente um ensaio poético, onde é descrita a vida repugnante e mais ou menos mitológica da condessa Elizabeth ou como na grafia do livro,   Erzsébet  Báthory -- nascida na Hungria, em Nyírbátor,  1560 e morta em Csejte, 1614. 

O nome dessa notável e verdadeiro protótipo de bruxa de contos de terror, na língua eslovaca era Alžbeta Bátoriová. Nobre, filha do barão György Báthory e de Anna Báthory, sobrinha do príncipe András da Transilvânia, tinha também parentesco com os Habsburgos da Áustria.


O que surgiu ao longo do tempo - - tanto o que é tido como verdade, como o que foi tratado como exageros e superstições -- com relação a vida sombria e os crimes dessa mulher, serviram de sementeira farta para inspiração de obras góticas e de terror, ao longo do tempo.

Erzsébet  Báthory casou-se em 1575, aos quinze anos de idade, com Ferenc Nádasdy, que era militar.
  
Com as ausências contínuas do marido, em suas campanhas militares contra os turcos ( que nessa época haviam conquistado boa parte do território húngaro), a bela senhora tomava conta do castelo Nadásdy.

Diz a história que seus crimes iniciaram-se por essa época, quando ela -- senhora absoluta, tinha ao seu redor uma entourage de criadas, costureirinhas, cozinheiras, damas de companhia, moças da limpeza. Um mundo de mulheres, a maioria jovens, que despertaram na orgulhosa e vaidosa criatura que, dizem, era obcecada pela beleza e pela juventude, certos desejos sádicos e eróticos.

Se essa criatura era lésbica ou bissexual, os relatos da época, bem como as biografias escritas por autores húngaros e outros (posteriormente), parecem coincidir e indicar que sim. Um erotismo exacerbado pelo sadismo mais puro, sangrento, psicopático. 

O texto de Piznark é um relato curto, mas repleto de uma reberberação vermelho-escura, e sua prosa sombria parece acompanhada de uma música profunda, com soluços de uma flauta ao longe e o ribombar de tambores, acompanhando a trágica e horrenda narrativa. Às vezes sentimos um arrepio, ao ler trechos que nos fazem pensar no Mal -- no Mal Absoluto, aquele que vem das entranhas da Terra, como um sopro de chamas infernais, ao ler trechos como esse:


Salvo algumas interferências barrocas - tais como “a Virgem de ferro”, a morte por água ou a gaiola —, a condessa aderia a um estilo de torturar monotonamente clássico, que se poderia resumir assim:Escolhiam-se várias moças altas, belas e resistentes — sua idade oscilava entre os 12 e os 18 anos — e arrastavam-nas à sala de torturas onde esperava, vestida de branco em seu trono, a condessa. Uma vez maniatadas, as criadas as flagelavam até que a pele do corpo se dilacerasse e as moças se transformassem em chagas tumefatas; aplicavam-lhes os atiçadores em brasa; cortavam-lhes os dedos com tesouras ou guilhotinas; espetavam suas chagas; praticavam-lhes incisões com navalhas (se a condessa se cansava de ouvir gritos, costuravam suas bocas; se alguma jovem se desvanecia rápido demais, ajudavam-na fazendo queimar entre suas pernas papel embebido em óleo). O sangue emanava como um gêiser e o vestido branco da dama noturna tornava-se vermelho. E tanto, que tinha que ir ao seu aposento e trocá-lo por outro (em que pensaria durante essa breve interrupção?). Também as paredes e o teto se tingiam de vermelho.Nem sempre a dama permanecia ociosa enquanto os demais se afanavam e trabalhavam ao redor dela. Às vezes colaborava, e então, com grande ímpeto, arrancava a carne - nos lugares mais sensíveis - mediante pequenas pinças de prata, enfiava agulhas, cortava a pele de entre os dedos, aplicava às plantas dos pés colheres e placas em brasa, fustigava (no curso de uma viagem ordenou que mantivessem de pé uma moça que acabara de morrer e continuou fustigando-a embora estivesse morta); também fez morrer várias com água gelada (um invento de sua feiticeira Darvúlia consistia em submergir uma moça em água fria e deixá-la de molho a noite toda)."
A virgem de ferro, uma espécie de manequim em ferro, que "abraçava" os corpos nus das jovens vítimas e depois as esfaqueava brutalmente, foi o instrumento de tortura preferido de Báthory em seus rituais demoníacos.
Após a morte do marido, em 1604, Báthory foi viver em sua propriedade de Beckov e no solar de Čachtice - onde ocorreram seus maiores e mais tenebrosos crimes. Uma de suas companheiras de crimes foi uma feiticeira, provavelmente uma camponesa com as mesmas inclinações psicopáticas que ela, chamada Anna Darvúlia. Como explica Andrew Lobaczewski, em seu livro "Ponerologia - Psicopatas no Poder", um psicopata parece 'pressentir' o outro. Eles se atraem como 'almas gêmeas'. Assim, a dupla Báthory-Darvúlia foi constante em seus festins macabros, até que a bruxa morreu. Foi logo substituída por outra. 


Enfim, o ensaio poético de Pizarnik é bonito, as ilustrações são belas e o posfácio, que compara a barbárie da psicopata húngara a tantas outras da era moderna: "A condessa sangrenta é um sintoma com ecos na idade moderna, que elevou a tendência assassina à escala coletiva. Basta lembrar as explosões atómicas no Japão e o holocausto nazista, mas também ditadores como Stalin e Pol Pot, que mataram milhões de pessoas."

Um livro curto, mas leitura importante para os que se interessam pelo personagem sangrento e toda a mitologia que dele se originou; sem falar da cultura popular e literária. Aproximadamente duas ou três dezenas de obras, sendo algumas delas tão famosas como "Carmilla", de 1872, escrito por Sheridan Le Fanu e claramente alusivo à Condessa Sangrenta. Livro este que originou o "Drácula", de Stoker, que por sua vez... bem, é uma longa lista.
Boa leitura.

Mikel Santiago - A Última Noite em Tremore Beach




Ano: 2017
Páginas: 272
Idioma: português
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Recém-divorciado e no meio de um bloqueio criativo, Peter Harper decide tirar férias na bela e isolada Tremore Beach, na Irlanda. Tudo parecia correr bem, mas, depois de ser atingido por um raio durante uma tempestade, ele começa a ter terríveis dores de cabeça e sonhos cada vez mais estranhos. Conforme a linha que separa sonho e realidade fica cada vez mais difusa, Peter percebe que talvez seus sonhos sejam um aviso do horror que está por vir... Envolvente e eletrizante, 'A última noite em Tremore Beach' é um thriller arrebatador, perfeito para fãs do gênero.

UM GÓTICO MODERNO

A sinopse já dá pistas sobre o conteúdo -- muito interessante -- do livro. 

Primeira pista: 
Artista com bloqueio criativo e recém-divorciado = vem suspense psicológico aí, mas não é o bastante para criar o verdadeiro suspense, aquele que nos tira o fôlego e faz o leitor sentir empatia com o protagonista: Certos suspenses 'psicológicos' nada mais são do que uma constante, repetitiva e incômoda exposição de ideias mórbidas do protagonista.

Segunda Pista:
Férias numa ilha bela e isolada da IRLANDA. Ponto positivo, já que a Irlanda é um dos países do mundo com as paisagens mais encantadoras e mágicas, cenários perfeitos tanto para uma aventura pitoresca, quanto para um romance de suspense mais ou menos gótico. Um local isolado? Melhor ainda. 

Terceira Pista:
O protagonista, Peter Harper, músico famoso, se isola na ilha traumatizado com um divórcio. O rapaz está ainda preso às preocupações com sua vida, tentando juntar os cacos de um casamento que acabou, de uma família dispersa. Como se não bastasse tudo isso, está numa pequena localidade, que apesar de bonita e idílica, também é nostálgica. E ainda, para cúmulo de tantas desventuras, ele é atingido por um raio.


Com todos esses ingredientes à mão, o criativo escritor espanhol Mikel Santiago -- que alguns críticos já estão aclamando como um futuro Stephen King -- moldou um enrendo bastante denso, com pitadas de drama familiar, terror psicológico e/ou físico (resultado de sequelas do raio), clima gótico em várias cenas (a da primeira tempestade, a da segunda tempestade, das cenas em que 'alguém' bate à porta, dos sonhos/visões/realidades paralelas. 

O músico vai relembrar de sua família irlandesa, principalmente da mãe: são pessoas com dons paranormais, que preveem o futuro e que, às vezes, podem evitar catástrofes. Aqui está o toque da magia irlandesa, que nos remete aos contos de fadas, à mitologia celta, aos "deuses" e "deusas" que inspiraram autoras como Marion Zimmer Bradley e Juliet Marillier, por exemplo. 


O livro, porém, é suspense puro. Desde as primeiras páginas, o enredo é bem costurado, os personagens, amigos ou vizinhos de Peter, como Leo e Marie Kogan, Judie - namorada -, os filhos Beatrice e Jip, todos são razoavelmente bem trabalhados e tem um envolvimento profundo com o enredo. Nenhum personagem é supérfluo ou espúrio. Todos vão desempenhar um papel na trama, sendo esse papel parte do quebra-cabeças que irá delinear o enigma, para finalmente depois, resolvê-lo.



Não vou dizer se tem fantasmas ou não, fiquem os futuros leitores com a curiosidade sobre o que - ou quem - representam as "visões" de Peter. Não é, nem de longe, um livro com a estrutura narrativa tão maciça, ou até, por que não dizer, pesada, de Stephen King: não chega a tanto. Porém é um bom livro para leitores que apreciam tramas leves e criativas, onde o sobrenatural é muito bem explorado. 

Esse livro é uma viagem até as praias encantadoras ou assustadoras da Irlanda, com ventos arrepiantes de um enigma sobrenatural. Vale a pena. 


Charles Dickens - David Copperfield


Charles Dickens - David Copperfield

Ano: 2014
Páginas: 1312
Idioma: português
Editora: Cosac Naify

SINOPSE:
Um dos pilares da literatura ocidental moderna, Charles Dickens é até hoje fonte de inspiração para muitos escritores. Seu gênio foi admirado por Tolstói, Joyce, Kafka, Henry James, Nabokov, Orwell, Cortázar, entre muitos outros. Semi-autobiográfico, David Copperfield foi publicado em forma de folhetim entre 1849 e 1850. O autor afirma, no prefácio ao livro, que, entre os inúmeros romances que publicou, este era seu filho predileto. A edição inclui textos críticos de Jerome H. Buckley, Sandra Guardini Vasconcelos e Virginia Woolf. Tradução de José Rubens Siqueira.

ANÁLISE
Como começar a falar sobre essa obra, que é uma espécie de monumento à genialidade literária ocidental? Um pouco autobiográfica, escrita por Charles Dickens (1812-1870), - porque será que cada vez que penso em David penso ao mesmo tempo em Charles? E quando vou falar 'Charles Dickens' às vezes quase digo 'David Copperfield'? - a história e as aventuras do jovem Copperfield foram lançadas em 1850. A história passa-se na Inglaterra vitoriana e conta a história do protagonista que dá nome ao livro.

Segundo os críticos, David Copperfield é o livro favorito de Dickens - e lendo-o inteiro, todas as suas mil e poucas páginas, pode-se compreender o porquê disso. À parte algumas críticas, como a de Jorge Luís Borges, que acusa Dickens de criar personagens excessivamente melodramáticos ou "planos" e "sem profundidade" - ou seja, bons sempre bons, maus sempre maus... e segundo Borges, “queria fazer um pouco como o Juízo Final (…), porque os malvados são castigados e os bons sempre recebem prêmios”, esse livro tem um encanto peculiar.

David e Dora, arte de Frank Reynolds -1910

Com o realismo próprio do autor, o realismo que transbordava "de sua própria alma" (segundo Chesterton), os personagens de Dickens não são, de forma alguma, rasos ou 'planos'. São, pelo contrário, profundamente encantadores, emanando de seus caráteres um quê de humorístico e gracioso, mas também de forte, natural e humano. Não se trata de criaturas "melodramáticas" - como sugere Borges -, pois são (com poucas exceções), graciosos e profundamente humanos. 

Vamos pinçar essa cena, do capítulo XLVII - "Martha":
O sr. Peggotty, com uma mão apoiada na amurada do barco e os olhos baixos, cobriu o rosto com a mão livre.
– E quando eu soube o que tinha acontecido com ela antes daquela noite da neve, por alguém da nossa cidade – Martha exclamou –, a pior coisa que me passou pela cabeça foi que as pessoas iam lembrar que ela me ajudou e iam dizer que eu que corrompi ela! Quando Deus sabe que eu era capaz de morrer para devolver o bom nome dela! 
Há muito desacostumada de todo autocontrole, a penetrante agonia de seu remorso e tristeza era terrível. 
– Morrer não teria sido muito… O que eu posso dizer?… Eu teria vivido! – exclamou. – Eu viveria até ficar velha pelas ruas miseráveis, vagando, evitada pelos outros, no escuro, e podia ver o dia aparecer em cima das horríveis fileiras de casas e lembrar como o mesmo sol um dia brilhou dentro do meu quarto e me acordou… Eu faria até isso para salvar ela! 
Afundada nas pedras, ela as agarrou com ambas as mãos e apertou como se fosse moê-las. Estava sempre mudando de posição: enrijecendo os braços, retorcendo-os diante do rosto, como se quisesse apagar dos olhos a pouca luz que havia neles, e baixava a cabeça, como se pesasse com lembranças insuportáveis. 
– O que eu posso fazer? – disse ela, lutando com seu desespero. – Como posso continuar desse jeito, uma praga solitária para mim mesma, uma desonra viva para cada um que chega perto de mim! – De repente, voltou-se para meu companheiro. – Pise em cima de mim, me mate! Quando ela era seu orgulho, o senhor acharia que eu faria mal para ela só de encostar nela na rua. Não deve acreditar – por que acreditaria?–, em nem uma palavra que sai da minha boca. Seria uma tremenda vergonha para o senhor, mesmo agora, se ela trocasse uma palavra comigo. Eu não me queixo. Não digo que ela e eu somos iguais, sei que existe uma imensa diferença entre nós duas. Só digo, com toda a minha culpa e desgraça em cima da minha cabeça, que sou agradecida a ela do fundo do coração, que tenho muito amor por ela. Ah, não pense que toda a capacidade que eu tinha de amar alguma coisa se acabou! Me jogue fora, como todo mundo joga. Me mate por ser quem eu sou e ter conhecido ela um dia, mas não pense isso de mim! [...]  
– Martha – disse o sr. Peggotty. – Deus que me perdoe se eu julgo você. Deus me livre que justo eu faça uma coisa dessas, minha filha! Você não imagina nem metade do quanto que eu mudei com o passar do tempo. Bom! – Parou um momento, e continuou. – Você não imagina o quanto este cavalheiro aqui e eu queremo falar com você. Você não entende o que a gente tem pela frente. Agora, escute! 
Sua influência sobre ela foi completa. Ela se imobilizou, encolhida à frente dele, como se tivesse medo de encontrar seu olhar, mas sua tristeza apaixonada estava calada, muda.
– Se você ouviu – disse o sr. Peggotty – um pouquinho do que a gente conversou, o seu Davy e eu, naquela noite em que nevou tão forte, sabe como eu fui longe e até onde eu fui, procurando minha sobrinha querida. Minha sobrinha querida – ele repetiu com firmeza. – Porque ela agora é mais querida pra mim, Martha, do que nunca foi antes.

Nesse capítulo, nessa cena, há uma vivacidade imensa, tonalizada pelas cores sombrias que Dickens empresta ao cenário decadente da área mais miserável da cidade: onde apenas os mendigos, as mulheres privadas de honra e de tudo o que tem melhor, e os infelizes que nada mais esperam da vida, vão se ocultar. Lá encontram a antiga vizinha da família Peggotty e da pequena Emily, Martha, uma infeliz criatura rechaçada pela sociedade. E que, entretanto, é provida do mais devotado, humilde e carinhoso coração, capaz de qualquer sacrifício para ajudar o Sr. Peggotty e a sua querida filha-sobrinha Emily.

Os personagens de David Copperfield são todos providos dessa profunda emotividade, alguns que nos fazem rir - como o teimoso e eternamente endividado Sr. Micawber. Outros nos fazem desejar que existam na vida real, como a ríspida, severa e ao mesmo tempo, adorável Srta. Betsey Trotwood - tia-avó de David. 



Alguns nos despertam sentimentos de adoração, como Agnes, a delicada e angelical moça, sempre dedicada a ajudar tudo e todos ao seu redor, e a queridíssima babá de David, Peggotty: o protótipo de mulher forte, física e emocionalmente, que não se pesa para fazer qualquer serviço e correr qualquer risco para auxiliar as pessoas que a ela recorrem. Onde, eu pergunto, há excesso de sentimentalismo aqui? Há uma pintura - talvez com pinceladas de bom humor e graça - da realidade. 


Os vilões são igualmente realistas: não posso deixar de lembrar certas personagens da vida real, no cruel padrasto de David, Sr. Edward Murdstone e a irmã dele (uma espécie de carcereira na casa de David), Srta. Murdstone

Vários filmes foram feitos sobre o romance de Dickens, mas um dos que mais me marcaram (na infância), foi "As Aventuras de David Copperfield", Reino Unido,1969.


 Com a direção de Delbert Mann e elenco de Robin Phillips (David), Susan Hampshire (Agnes), Pamela Franklin (Dora Spenlow), Edith Evans (Tia Betsy), Michael Redgrave (Sr. Peggotty), Sinéad Cusack (Emily Peggotty), Laurence Olivier (Sr. Creakle), Ralph Richardson (Sr. Micawber), James Donald (Sr. Murdstone) e mais um punhado de grandes nomes.

Lembro-me de que este filme foi o meu primeiro contato com a obra de Dickens: e daí para frente, empenhei-me em adquirir o livro - este e todos os demais que ele publicou. Naturalmente, aos 13 anos de idade, minha primeira leitura foi uma edição adaptada, da Ediouro, com com pouco mais de 200 páginas. 

Depois adquiri outras edições, embora poucas edições brasileiras sejam fiéis o suficiente ao original. Entretanto dá para se conhecer e amar a obra de Dickens, mesmo com uma edição de bolso (para iniciar um jovem na boa literatura).

No referido filme de 1969, lembro que uma das cenas (que aliás, não está no livro, mas que achei bastante oportuna), é uma das últimas: Agnes conversa com David, sobre todas as vicissitudes pelas quais ele passou em sua vida... desde a infância infeliz - onde perdera sua adorável mãe, Clara, uma flor delicada e de saúde frágil, joguete nas mãos do padrasto - até seu amor infantil pela pequena Emily, seu amor fraternal pelo charmoso e orgulhoso Steerforth, seu casamento com a infantil e linda Dora. E de repente, Agnes - arguta como sempre - faz um paralelo entre as pessoas que, para David, tanto sofrimento haviam causado, para si mesmas, para ele e para seus amigos e famílias. Lembro de Agnes dizendo algo mais ou menos assim:

"- Sim, David... eles eram iguais... eram tolos, inconsequentes, infantis... - Não, você não pode comparar Dora e Steerforth, não eram iguais, de modo algum...- Sim, eram, David! Porque ambos foram fracos. Steerforth, infantil, orgulhoso, inconsequente... Emily, doce e ingênua, mas de caráter fraco... e Dora, infantil... nunca cresceu, a pobre Dora.- E eu, Agnes?- Você é diferente... lembre-se, David, o melhor aço tem que passar pelo fogo. Você passou...".

O que me ficou desse belo filme, foi esse diálogo: De certa forma, está correto - os personagens de Clara (mãe de David) e Dora, tem muito em comum: ambas foram infantis, mimadas, frágeis. Nunca cresceram. Por isso a primeira foi presa fácil dos Murdstones; e a segunda, nunca conseguiu tornar-se uma verdadeira esposa, jamais atingiu a maturidade para isso. Steerforth também se assemelha aos personagens fracos, porque foi mimado pela mãe desde sempre e jamais soube o que era o trabalho tudo. Tudo para ele veio fácil, assim tudo foi-se embora fácil, deixando rastros de lágrimas e dor atrás de si.


Enfim, esse livro de Dickens tem tudo para agradar leitores de todas as classes sociais, etnias, idades e sexos. Uma obra-prima, onde cada detalhe faz parte da imensa escultura literária, onde uma multidão de tipos humanos são retratados com precisão graciosa,  pitoresca e sobretudo, comovente.






Fé: Só vivendo para explicar...


Visitando um dia desses uma rede social de filmes, após assistir o filme "Deus Não Está Morto" (God's Not Dead), 2014, dirigido por Harold Cronk, fiquei horrorizada com a quantidade de pessoas que xingavam o filme, o diretor, os atores e, principalmente, o tema.

Algumas das frases 'delicadas' que expressavam a profunda ojeriza, raiva e desprezo que aquelas pessoas sentiam pelo filme: "Deus não está morto, só está em coma", "propaganda religiosa mal feita", "marketing gospel de quinta categoria", "eu vivi para ver um semideus virar ateu", "se o homem foi feito de barro, esse filme foi feito de fezes", "tendencioso e forçado", etc.
Inacreditável a quantidade de anticristãos - só podem ser anticristãos, não creio que um ateu ou um agnóstico usaria um  linguajar tão desproporcional assim - que inundam aquela rede, especificamente para esculachar com o filme.

Eu fiquei meditando sobre aquele mar de blasfêmias, onde o nome de Deus parecia, saindo daquelas linhas tortuosas, o nome de um bandido qualquer, um genocida, um meliante, um psicopata, um ditador, sobre o qual tivessem feito um filme. Aliás, filmes e/ou livros feitos para honrar causas indefensáveis, como por exemplo, sobre Fidel Castro e Che Guevara - ambos transformados em ícones pop de jovens entupidos de maconha - ou sobre a vida de Karl Marx (satanista, filósofo-pai do socialismo-comunismo que matou cem milhões de pessoas), bem, essas obras são aplaudidas. São louvadas. São verdadeiras musas inspiradoras do público que se auto-intitula "intelectual", mas que não passam de pessoas com graves distúrbios cognitivos.

E eu comecei a lembrar do Brasil (e do mundo) da minha infância... de como a fé e a religião cristã eram respeitadas.


"Futebol, política e religião não se discute", era o dito popular daquela época, reflexo de um povo que, longe de querer aparentar ser politicamente correto, era pura e simplesmente gentil e respeitoso. Não havia ditadura do pensamento, como hoje (você é machista, racista, homofóbico, sexista, xenófobo, fascista ou nazista, de acordo com a necessidade deles). As pessoas diziam o que pensavam. E pensavam e diziam tudo com simplicidade, sem sensibilidades exacerbadas, ódios enrustidos, sem ideias pré-concebidas. 

Quando se falava em religião, havia em todos um comedimento reverente: falar em Deus, em Jesus Cristo, mesmo para os não-cristãos ou os que se diziam "incrédulos", era sempre com educação e respeito. 

Hoje, quando falamos sobre fé com certas pessoas, o que invariavelmente notamos é um sorriso condescendente, na melhor das hipóteses ou um olhar de esguelha, como se dissesse: "Pronto, lá vem mais um fanático falar em fé e milagres".

Infelizmente, falar sobre a fé é deveras complicado, pois para cada ser humano ela é uma experiência única. O que eu sinto como real e verdadeiro, se transformado em palavras pode parecer apenas uma convicção ingênua, uma ilusão, uma bobagem sentimentaloide. Entretanto, quando eu converso intimamente com Deus e sinto o que Ele deseja de mim, eu sei o quanto isso é grandioso. O quanto é importante, para mim e para Ele.


Quando faço minhas orações e peço uma bênção, sei que muitas vezes ela não virá exatamente como eu espero: Deus é um Pai, não um gênio ou djinn dentro de uma garrafa, como contam as lendas árabes. Ele não me "concederá quatro desejos" da forma incrível e mágica que alguns podem pensar. Ele pode me conceder a bênção após um longo e árduo caminho que eu ainda terei de trilhar, após uma crise existencial ou alguns eventos inesperados, nem ruins, nem bons. Entretanto, em determinado momento eu sei que vou parar, refletir e... lá está! ACONTECEU, o que eu pedi.

Fé é isso: Você pedir ao Pai, sabendo que Ele vai atendê-lo... Uma experiência que todos deveriam experimentar, pois transcende o mundo das palavras e da realidade humana.